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Um artigo de opinião pelo Director Geral da FAO José Graziano da Silva

A sinfonia dos preços
Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 16 de janeiro de 2013

O ano de 2012 pode ser visto como um mirante do horizonte climático com o qual a humanidade terá que conviver no século 21.

A ocorrência de eventos extremos foi numerosa, simultânea e diversificada. Da seca inclemente às inundações devastadoras. Tudo ao mesmo tempo e com igual intensidade.

O junho mais quente desde 1985 ressecou o meio-oeste norte-americano, atingindo em cheio um dos principais celeiros da oferta mundial de milho. Índice de Preços de Alimentos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) de julho de 2012 subiu 12 pontos para 213 pontos, uma alta de 6% sobre o mês anterior. O desastre alimentar parecia inevitável.

A densa moldura de sobressaltos naturais, no entanto, não impediu que o índice de preços fechasse 2012 em 209 pontos mantendo-se ao longo do ano 7% abaixo do patamar de 2011.

Entender por que os preços não explodiram como em 2007-08 e 2010 passa a ser tão importante no curto e médio prazo, quanto o são no longo prazo as providências sistêmicas para reverter as causas da exacerbação do clima em nosso tempo.

A dança das cotações frequentemente mais confunde do que elucida. Não raro ecoa como a melodia desconcertante do piano que toca sozinho.

Governança, estoques, políticas de fomento ao plantio e à produtividade, compõem as ferramentas que podem devolver o controle da batuta à sociedade.

O que aconteceu após a pior seca em 50 anos no meio oeste norte-americano é ilustrativo. Num primeiro momento, o piano tocou sozinho. 

O trigo e a soja endossaram a alta do milho, como sucedâneos na cadeia da alimentação animal. Ademais, a triticultura russa, a australiana e a argentina também sofreram com estiagens drásticas, em mais um alerta da natureza.

Se nada fosse feito, o pânico deflagraria os embargos defensivos e a corrida antecipada às compras. Uma partitura clássica do piano que assombra o mundo.

Esse foi o batismo de fogo do Sistema de Monitoramento de Preços Agrícolas (AMIS, na sigla em inglês), inaugurado em 2011 pelo G-20. A sensatez evocada pela coordenação internacional abortou o pânico e exorcizou os apetites altistas.

A troca de informações organizada pela FAO como secretária do AMIS provou a sua relevância. Se não pode evitar secas ou inundações, a coordenação ajuda a evitar que elas deflagrem uma crise.

Boas safras no hemisfério Sul também contribuíram no contrapeso à espiral altista.

Resultado: todos os grupos de alimentos monitorados pela FAO perderam fôlego desde o segundo semestre.

O alívio, porém, não autoriza abrir a guarda.

A inflação doméstica cresce por pressão dos preços dos alimentos. Nos mercados internacionais, a volatilidade continua à solta e há de reconhecer-se que o refluxo dos preços decorre também de uma convergência não propriamente virtuosa: falta demanda à economia mundial.

Ela carrega há cinco anos o fardo da maior crise sistêmica desde 1929. A Europa vive seu segundo tombo recessivo; o Japão patina em deflação; o desemprego ainda é alto e o impasse fiscal engessa os EUA; o motor chinês desacelerou.

Com tudo isso, o nível médio das cotações ainda persiste alto.

Quando a música errática soa, o pé de ferro da história espreme o orçamento dos pobres de todo o mundo; eles destinam 75% da renda à alimentação.

No continente africano, fome e conflitos se realimentam, calcificando a dependência alimentar em uma das fronteiras mais promissoras da agricultura do século XXI.

Dentes dessa engrenagem mastigam 275 milhões de subnutridos no Oriente Médio e na África do Norte- 83 milhões mais do que há 20 anos.

Reverter a dança macabra implica subtrair espaços às incertezas que dedilham as teclas do piano fantasmagórico.

Um dos nomes do chão firme é investimento agrícola.

Não por acaso, ele foi definido como a viga mestra da edição de 2012 do relatório da FAO, "O Estado da Agricultura e da Alimentação no Mundo".

Destravar a imensa capacidade produtiva desperdiçada na agricultura familiar é um dos imperativos.

Cerca de 450 milhões de agricultores, 85% do total, são pequenos produtores cuja única tecnologia é a força muscular.

Fomentar a sua produtividade elevaria a oferta a ponto de silenciar em larga medida a música sombria, ademais de criar um escudo de diversidade geográfica às alterações extremas do clima.

Para isso a segurança alimentar não pode mais ficar a mercê de partituras isoladas. Desafios globais exigem coordenação global: essa foi a lição incontrastável do ano que passou.

O voluntarismo que acredita ser suficiente dar liberdade à oferta para saciar a demanda esbarra na reafirmação do contrário ali onde menos se espera.

O espaço rural é o cenário desconcertante onde a fome mais aguda perfila ao lado da abundância mais contundente. A América Latina é o exemplo arrematado dessa contradição. Em 20 anos de apogeu das exportações agrícolas, a pobreza rural exibiu um recuo pífio na região: de 60%, em 1980, caiu para 53% em 2010, segundo dados das Nações Unidas.

Ao exortar a mobilização de um novo ciclo de investimentos o que a FAO projeta, portanto, é uma convergência de iniciativas públicas e privadas que façam da riqueza adicionada pela agricultura um pilar efetivo da travessia entre a privação e a segurança alimentar.

Um ciclo de investimento como esse implica mais que a mera acumulação física de capital.

Trata-se de criar um ambiente propício à disseminação do ingrediente decisivo desse mutirão: a expansão da produtividade, que adiciona renda ao produtor, barateia o custo do alimento e preserva os recursos naturais colhendo mais no mesmo chão.

Essa é a sinfonia capaz de abafar o som do piano desordenado.

O autor é Diretor-Geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO)