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Escritório Regional da FAO para a América Latina e o Caribe

O crescimento acelerado da pecuária converteu a América Latina no maior exportador de carne bovina e de aves do mundo, o que representa aproximadamente 45% do PIB agrícola da região. No entanto, esse crescimento requer um enfoque sustentável para evitar a crescente pressão sobre os recursos naturais da região e sobre o meio ambiente

Pecuária sustentável e mudanças climáticas na América Latina e no Caribe

O setor agropecuário da América Latina e Caribe (ALC), possui um potencial enorme para contribuir na produção de alimentos e na segurança alimentar mundial. Porém, a produção agrícola e pecuária da região está cada vez mais influenciada por fatores climáticos e pelo comportamento da demanda internacional por alimentos, energia e biocombustíveis.

Neste contexto, a gestão de riscos é um componente estratégico nos processos de desenvolvimento agropecuário e um tema prioritário na agenda de fortalecimento das capacidades dos países da região. O rápido crescimento do setor pecuário regional, duas vezes superior à média de crescimento no mundo, exerceu grande pressão sobre a base dos recursos naturais, especialmente na perda da cobertura florestal para a criação de gado a pasto, ou a produção de grãos para os sistemas intensivos de criação de aves e de suínos. Há também uma grande probabilidade de aumento da degradação dos solos. A produção pecuária enfrenta ainda a concorrência no uso das terras com a produção agrícola ou agroenergética e corre o risco de ser deslocada para áreas marginais.

Os países da região precisam, portanto, melhorar a capacidade de análise e gestão de riscos no setor da pecuária e desenvolver estratégias de produção viáveis, do ponto de vista técnico, econômico, social e ambiental. Isso significa que o setor precisa otimizar a eficiência, a utilização e a sustentabilidade dos recursos, incorporarando uma nova visão concentrada na integração setorial.

Estima-se que a pecuária seja a principal fonte de renda para cerca de 200 milhões de famílias de pequenos produtores na Ásia, África e América Latina e representa a única fonte de subsistência para, pelo menos, 20 milhões de famílias. Se acrescentarmos os produtores médios, os números podem dobrar. Nesses sistemas os principais problemas sendo enfrentados são a crescente degradação das pastagens e consequente perda de produtividade, o desmatamento, a dependência crescente de insumos externos, tecnologia e material genético, alta incidência de doenças e deficiências na organização e comercialização.

O processo de expansão da pecuária vivenciado pelos países da América Latina é tanto uma oportunidade quanto uma ameaça ao desenvolvimento sustentável da região. Pode ser uma oportunidade para a criação de riqueza e redução da pobreza, se as decisões políticas corretas forem tomadas e se sistemas para a pecuária sustentável que respeitem o meio ambiente forem promovidos. Entretanto pode ser uma ameaça, se a expansão da atividade seguir sem considerar os custos ambientais e o efeito em potencial de marginalização dos pequenos produtores.

Considerando a disponibilidade de terras que caracteriza a região, o processo de expansão da pecuária não é um fenômeno independente do desempenho dos principais subsetores: a agricultura de grãos e a silvicultura. Sem dúvida, por suas dimensões territoriais e ameaças ambientais, o subsetor de agricultura de grãos é o que mais se relaciona à pecuária num processo de crescimento de grande interação. Portanto, é necessário um planejamento para o crescimento e intensificação do setor, capitalizando as sinergias positivas proporcionadas pela integração da agricultura com a pecuária e eventualmente com a silvicultura, para que o setor possa efetivar a sustentabilidade e competitividade dos sistemas de produção.

As previsões atuais indicam que o consumo de carne em todo o mundo dobrará nos próximos 20 anos. Ainda que seja uma boa notícia em termos da segurança alimentar de milhões de pessoas, para satisfazer tal demanda a fronteira agrícola e pecuária será empurrada para áreas de maior vulnerabilidade ambiental.

E isso pode aumentar os níveis de desmatamento na região, a degradação dos solos, a perda de biodiversidade e a diminuição dos recursos hídricos, se medidas necessárias para impedir tais perdas não forem tomadas. Medidas decisivas devem ser adotadas para que o crescimento do setor seja realizado de forma ambientalmente sustentável e que possa, ao mesmo tempo, contribuir para diminuir o impacto das alterações climáticas, reduzir a pobreza e melhorar a saúde humana.

Segundo a FAO, cerca de 70% das áreas de pastagens da América Latina e do Caribe estão em processo de degradação em diferentes graus. As regiões mais sensíveis à expansão da fronteira agropecuária correspondem aos ecossistemas da Amazônia no Brasil, do Chaco na Argentina, Paraguai e Bolívia, e as áreas áridas e semi-áridas da Argentina e do Chile.

Segundo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a pecuária é responsável por cerca de 40% das emissões provenientes da agricultura. Portanto, maiores investimentos públicos e privados para a pesquisa e desenvolvimento tecnológico são necessários para harmonizar as políticas agrícolas e ambientais e buscar mecanismos viáveis ​​de pagamento por serviços ambientais aos pecuaristas que implementem sistemas de produção respeitadores do meio ambiente.

Considerando a cadeia alimentar como um todo, o conjunto da pecuária (bovinos, ovinos, caprinos, suínos, aves) é responsável por 18% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. É urgente melhorar a eficiência no uso de recursos da produção pecuária, bem como reduzir as externalidades ambientais negativas geradas pelo setor.

O desmatamento causado pelo aumento dos sistemas extensivos de pastagens em certas regiões é uma característica comum nos países da América Central e do Sul. No entanto, há estratégias tecnológicas e de manejo para se intensificar a produção pecuária de forma sustentável e evitar o desmatamento e expansão da fronteira pecuária. Ou seja, o setor pode desempenhar um papel fundamental na mitigação das alterações climáticas.

A FAO promove práticas como o plantio direto de culturas em áreas de pastagens degradadas e implementa sistemas que integrem a agricultura, a pecuária e a silvicultura, como alternativas viáveis de recuperação de áreas degradadas, para desenvolver uma pecuária sustentável e promover a intensificação sustentável da produção.

A pecuária pode desempenhar um papel importante tanto na adaptação às alterações climáticas como para atenuar os seus efeitos sobre o bem-estar da humanidade. Para aproveitar o potencial do setor em contribuir para a atenuação e adaptação às alterações climáticas é necessário o desenvolvimento de novas tecnologias que aumentem a capacidade de monitorar, relatar e verificar as emissões provenientes da produção pecuária.