Confira este infográfico sobre o impacto do boom da quinoa para os pequenos produtores e agricultores familiares bolivianos

Novas descobertas baseadas em resultados de pesquisa com 100 famílias no sul da Bolívia ressaltam os benefícios do boom da quinoa para a região.

Enrico Avitabile, doutorando em Economia Ambiental e de Desenvolvimento na Universidade de Roma Tre, entrevistou agricultores entre dezembro de 2012 e março de 2013, na região de Salar de Uyuni, na Bolívia, local de maior produção de quinoa real no mundo.

Potencial

A maior parte da quinoa é produzida no Equador, na Bolívia e no Peru, por pequenos agricultores familiares.

Nos últimos anos, o interesse mundial pela quinoa cresceu drasticamente. Graças, em parte, ao Ano Internacional da Quinoa 2013, este produto com enorme potencial, que havia sido esquecido, voltou a ficar em evidência. Com um grande salto na economia local, o impacto para os pequenos agricultores locais tem sido substancial. 

Segundo o estudo, 81% dos agricultores entrevistados afirmaram que a quinoa é sua principal fonte de renda, enquanto quase todos os agricultores definiram o nível de preço atual como adequado. O boom no mercado de quinoa garante melhoria de renda e acesso ao crédito para as famílias e possibilita o acesso a mais mão-de-obra e maquinário. Isso, por sua vez, leva a uma melhoria dos bens básicos (moradia, saneamento etc.) e à possibilidade de uma melhor educação. O efeito combinado das melhores condições de vida e dos investimentos públicos em infraestrutura contribui para reverter os grandes fluxos migratórios (especialmente de jovens) que afligiam a região há poucos anos.

Um dos principais pontos levantados pelo estudo é se a pressão da demanda estrangeira pode pôr em risco a segurança alimentar na Bolívia. Para responder a esta pergunta, as relações entre preço, exportação e consumo interno da quinoa precisam ser cuidadosamente monitoradas. 

É importante mencionar que o consumo de quinoa nas áreas rurais é menor agora do que no passado, quando as famílias costumavam comer quinoa “três vezes por dia, sete dias por semana”. Entretanto, também deve ser observado que a quinoa ainda é bastante consumida e a dieta local é muito mais variada. A maior demanda pela quinoa levou a um aumento do crédito e do comércio informal. Isso garante acesso mais fácil a alimentos antes inacessíveis (tanto geografica quanto financeiramente). Na realidade, os agricultores familiares afirmam que as suas condições alimentares “melhoraram, graças à quinoa”.

Com o aumento da oferta de quinoa em lojas e supermercados, seu consumo nas áreas urbanas vem crescendo rapidamente, de 0,35 kg/ano, em 2008, para 1,11 kg/ano, em 2012.

Desafios

O boom da quinoa também traz alguns desafios, dentre eles a degradação da terra e a diminuição das variedades cultivadas. 

Mais de 50% dos agricultores definem o solo como mais empobrecido em comparação com três anos atrás. Isso tem um impacto nas outras atividades agrícolas: por exemplo, a relação do número de lhamas por hectares cultivados diminuiu nos últimos anos.

Além disso, apenas três variedades respondem por mais de 75% de toda a produção, por serem as mais requisitadas pelo setor de exportação. Essa redução nas variedades cultivadas está associada a uma diminuição da biodiversidade (apesar de as pessoas dos vilarejos ainda apreciarem as diferenças entre as variedades).

Pensando no futuro

Ao pensar no futuro da quinoa e dos agricultores familiares responsáveis pela sua produção, é importante definir como o boom da quinoa pode continuar de forma sustentável. Mais iniciativas para desenvolver o mercado interno com políticas públicas, como programas públicos de alimentação, podem garantir acesso a este alimento nutritivo para todos os bolivianos. O desenvolvimento da agroindústria pode criar novas oportunidades de cultivo da quinoa, que atualmente é exportada exclusivamente em grãos perolados, com pouco valor agregado. 

Além disso, a conciliação entre demanda de mercado e conservação da diversidade genética pode contribuir para a promoção da quinoa como um produto com diversas propriedades e usos muito variados (medicinal, cosmético etc.).

Uma maior integração e colaboração entre os diferentes agentes na cadeia produtiva da quinoa também seria proveitosa. Firmas privadas de exportação atuam mais no desenvolvimento de novos produtos e tecnologias, enquanto as associações de produtores estão mais ligadas à vida nas comunidades (mais bem preparadas para lidar com as questões ambientais). 

Finalmente, é importante não separar a produção da quinoa das outras atividades tradicionalmente desenvolvidas na região sul do Altiplano, como a criação de lhamas (cujo esterco é necessário para fertilizar o solo), e a promissora associação entre a produção de quinoa e o ecoturismo (a região de Salar é uma das atrações mais visitadas da Bolívia).

Portanto, enquanto você cuida da sua própria saúde comendo este grão nutritivo, esteja certo de que, comprando quinoa, você também está melhorando a vida de pequenos agricultores dos Andes.

Conforme declarado na Ley De La Revolución Productiva Comunitaria Agropecuaria da Bolívia, aquinoa é  “um produto estratégico para a segurança alimentar e uma ótima oportunidade de exportação”.

 Veja o infográfico. 

 

 

 

 

Referências

AVSF (2009) Quinua y territorio, La Paz, Bolivia

Fundación FAUTAPO (2012) Atlas productivo de la quinua real. La Paz, Bolivia

Laguna P. (2011) Mallas y Flujos. Acción colectiva, cambio social, quinua y desarrollo regional indígena en los Andes bolivianos. Wageningen University, Wageningen, ISBN 9789085859604, libro. http://edepot.wur.nl/188049

Medrano A.M., Torrico J.C. (2009) Consecuencias del incremento de la producción de quinoa (Chenopodium quinoa Willd.) en el altiplano sur de Bolivia, CienciAgro Vol.1 Nr.4 (2009) 117-123

Ofstehage A. (2012)The construction of an alternative quinoa economy: balancing solidarity, household needs, and profit in San Agustìn, Bolivia, Agriculture and human values, 2012

Rojas W, Soto JL, Pinto M, Jäger M, Padulosi S. (2010). Granos Andinos. Avances, logros y experiencias desarrolladas en quinua,cañahua y amaranto en Bolivia. Bioversity International, Roma, Italia.

Rojas W., Soto J.L and Carrasco E. (2004)Estudio de los impactos socials, ambientales y economicos de la promocion de la quinoa en Bolvia. PROINPA, 2004