4.4 Combate de pragas ao nível de pequenas herdades

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Medidas preventivas no referente à higiene de armazenagem são de uma importância decisiva para o combate de pragas e para a manutenção da qualidade do produto armazenado. O ter no higiene de armazenagem abrange a utilização de todas as medidas técnicas sem aplicação de produtos químicos.

Uma higiene de armazenagem perfeita é o requisito prévio indispensável para uma armazenagem de confiança e para a eficácia de todas as medidas aplicadas como o uso de insecticidas. Todas as medidas de higiene são muito simples, particularmente efectivas e baratas. Por esta razão, todo camponês pode aplicar as mesmas sem necessidade de grandes esforços.

4.4.1 Métodos tradicionais

Os métodos tradicionais de combate de pragas vão seguramente continuar no futuro a ter importância na armazenagem ao nível de pequenas herdades. Elas não são caras, mas o seu efeito é limitado, o que exclui a possibilidade de uma aplicação generalizada. O combate de pragas tradicional baseia-se principalmente sobre os métodos seguintes:

· Medidas preventivas tomadas antes da colheita (veja-se secção 4.4.1.1)
· A adição de várias substâncias ao produto armazenado (veja-se secção 4.4.1.2)
· Métodos físicos (veja-se secção 4.4.1.3)

O facto de abandonar os métodos tradicionais de combate de pragas a favor de técnicas modernas de armazenagem levou no passado a cometer erros consideráveis devido a um exame insuficiente dos novos métodos sob o ponto de vista das condições de trabalho práticas do camponês. De modo geral, pode-se dizer que o camponês vai aceitar alterações pequenas, fáceis de compreender e não acompanhadas de grandes despesas, tendo as mesmas a finalidade de reduzir as perdas. Por diferentes motivos, ele quase não está disposto a efectuar alterações radicais no referente aos sistemas tradicionais de armazenagem aos quais está acostumado - muitas vezes com razão.

4.4.1.1 Medidas preventivas antes da colheita

Os métodos seguintes podem contribuir a prevenir a introdução no armazém das pragas eventualmente existentes nos campos:

· Alternância de culturas e culturas mistas
· Escolha de variedades de cereais menos susceptiveis (p.ex. milho com tegumentos e camisas resistentes)
· Escolha do periodo de colheita Não fazer a colheita nem demasiado cedo nem demasiado tarde! Observar os sinais de maturidade fisiológica:

Cultura Sinal de maturidade Teor em humidade
Milho Espigas quase secas, camisas amarelas, grãos duros e relativamente vidrosos, mancha preta na base dos grãos 23 - 28%
Sorgo Talo e folhas secas, grãos duros e relativamente vidrosos (dependendo da variedade) 20 - 25%
Arroz Panícula dobrada para baixo, envoltório amarelo, grãos completos, nem verdes nem enrugados 22 - 28%
Feijão Vagem madura e amarela, mas ainda fechada 30 - 40%
Amendoim Folhas amarelas, cascas secas, envoltório (testa) separa-se facilmente do grão 30 - 35%

O teor em humidade indicado no período de maturidade não significa que a cultura em questão esteja pronta para a armazenagem. É necessário efectuar a secagem depois da colheita até que o teor em humidade seja reduzido aos valores mencionados na secção 2.2.5.

· Escolha do lugar de armazenagem (retirar das fontes potenciais de infestação)
· Cuidado na limpeza e nos trabalhos de reparação do celeiro
· Prevenção de urna possível introdução de pragas verificando a ausência de infestação antes da armazenagem
· Retirar as espigas, as panículas ou as vagens infestadas antes da armazenagem

4.4.1.2 Adição de substâncias ao produto armazenado

4.4.1.2.1 Adição de substâncias minerais

Existe uma quantidade de variedades de substâncias que podem ser adicionadas ao produto armazenado. Os três tipos de substâncias minerais utilizadas mais frequentemente são apresentadas no quadro seguinte:

Método Efeito Observações
Cinza de madeira do fogão de cozinha ou de árvores especiais como Khaya senegalensis, Eucalyptus e outras, adicionada em proporções 30 a 100 % do volume do produto armazenado. Eficiente para pragas que vivem no exterior do grão. Inibição do desenvolvimento de insectos e limitação da sua mobilidade. A cinza provoca uma dessecação das pequenas feridas e impede a respiração dos insectos. Devido às quantidades necessárias só é aplicável no caso de lotes peque nos. Não reduz a facul dade de genninação. Ideal para sementes. Eficiência varia de acordo ao tipo de cinza.
Pós inertes (laterita, de argila, cal viva, etc.), adicionados em proporções 0.1 a 50 % do volume ou como camada protectora. Efeitos similares aos da cinza de madeira sobre a totalidade das espécies de pragas que atacam o produto armazenado. As quantidades dependem do tamanho das partícu las. No caso de se utilizar para grãos alimentícios, deve-se efectuar uma lim peza antes da consumição.
Areia fina, adicionada em proporções 40 a 100 % do volume ou como camada de 2 a 7 cm de espessura. Limita a mobilidade dos insectos de cereais e dos brucos e causa a morte por dessecação. Evita a imigração de pragas. Devido às grandes quantidades necessárias, só é aplicável no caso de lotes pequenos (sementes).

4.4.1.2.2 Adição de substâncias de origem vegetal

Tradicionalmente, utilizam-se muitos tipos diferentes de plantas contra as pragas que atacam os produtos armazenados. Apesar da obtenção de resultados prometedores em testes de laboratório com material vegetal (preparações vegetais), varia muito a eficiência do mesmo sob condições práticas de armazenagem. A maioria dos métodos mostram um efeito limitado mas alguns oferecem uma protecção satisfactória para o produto armazenado, sempre que sejam utilizados correctamente. No quadro seguinte, encontram-se alistadas as substâncias correntemente utilizadas e que mostraram suficiente eficiência. Os métodos de aplicação são variados e podem existir técnicas não mencionadas no quadro correspondente que sejam aplicadas localmente. Plantas não mencionadas, podem ter uma importância local e podem ter efeitos positivos.

Pós a base de cortiças e raízes:

Método Efeito Observações
Pó da cortiça de Khaya senegalensis (mogno africano), adicionado numa proporção de 50 a 100 g/kg grão. Acção insecticida provável, de até três meses, sobre os brucos que atacam as leguminosas. Utilizado especialmente para controlar o Bruchus maculatus que ataca as leguminosas de grãos.
Pó de rizomas secas de Acorus calamus (adicionado numa proporção de 0.2 a 1 % do peso). Efeito insecticida, repulsivo, inibição do desenvolvimento de multas pragas durante um período de mais de 6 meses. O pó pode ser armazena do durante 2 meses sem perder o seu efeito. Exis tem dúvidas sobre um possível efeito nocivo so bre o homem quando util izado em doses elevadas.

Partes verdes de plantas e pós feitos dessas partes:

Método Efeito Observação
Folhas frescas ou secas das diferentes espécies de Annona, adicionadas em camadas ao produto (método sandwich). Efeito fortemente repulsi vo e insecticida durante 3 a 4 meses sobre brucos e sobre pragas que atacam o sorgo e o milho miúdo. Muito utilizado na África e recomendável devido à eficiência provada.
Folhas inteiras ou pulverizadas de Hyptis spicigera, adicionadas em forma de camadas ou misturadas com o grão numa proporção de 3 g pó/kg. Bom efeito insecticida sobre brucos e acção sobre a oviparidade e o desenvolvimento larval. Utilizado também contra térmites. Útil contra os brucos que atacam o feijão ao igual que contra os coleópteros que atacam a semente do amendoim, Caryedon serratus.
Partes de Lantana esmiu- çadas utilizadas de acordo à técnica sandwich ou como camada superior. Efeito repulsivo sobre brucos que atacam as leguminosas, acção dura até 6 meses. Lantana camara encontra-se em grandes quantidades na Africa, ou seja sempre disponível.
Folhas secas ou pulverizadas de Neem ou Melia, misturadas com o grão ou em camadas. Insecticida e repulsivo, inibição no desenvolvimento. Age durante um ano principalmente sobre os coleópteros que atacam os produtos armazenados. Planta muito conhecida com várias possibilidades de aplicação, proveniente da Índia. Para um melhor efeito, utilizase o pó das sementes, o óleo ou os extractos.
Folhas de Ocimum ca num (manjerico alvacento), inteiras ou pulverizadas aplicadas de acordo ao método sandwich. Efeito insecticida sobre os coleópteros das leguminosas e dos cereais. Excelente efeito imediato, mas persistência insu ficiente para a armazena gem a longo prazo.
Folhas de menta (Mentha spp.), adicionadas ao grão numa proporção de 0.5 a 2 % do peso. Efeito insecticida suposto, age sobre as pragas que atacam os cereais armazenados. Efeito rápido sobre o Sitophilus oryzae, uma praga relativamente difícil de combater.

Pós de flores, frutas e sementes:

Método Efeito Observações
Pó de píretros aplicado sobre as estruturas de armazenagem e sobre o produto. Bom efeito corno insecticida inicial e acção repulsiva sobre todas as pragas que atacam os produtos armazenados. A matéria activa degrada se rapidamente, especial mente ao ser exposta à luz.
Frutas inteiras ou pulveri- zadas de pimenta vermelha (Capsicum spp.) misturadas com o produto. Efeito insecticida e repulsivo sobre muitas pragas durante muitos meses. Atenção: possível irrita ção dos olhos durante a aplicação! Influência sobre o gosto do produto.
Frutas inteiras ou pulverizadas de pimenta preta (Piper spp.) adicionadas ao produto. Comparável à pimenta vermelha efeito permanece durante 3 meses. Cf. pimenta vermelha!
Pó do careço de Neem adicionado numa proporção de 0.5 a 4 % do volume do produto. Efeitos como os descritos para as preparações com as folhas mas mais potentes. Os caroços de Neem têm o maior teor em matérias activas
Pó dos grãos de Annona adicionado numa proporção de 0.5 a 2 % do peso do produto. O mesmo efeito que no caso de utilização das folhas. Atenção: o pó irrita os olhos!

Extractos aquosos:

Método Efeito Observações
Aspersão sobre o produto com extracto de píretro. Comparável a acção com o pó. Grande efeito inicial pouca persistência.
Extracto de Neem (25 a 50 g/l de água) aspergido numa proporção de 0.5 a 5% sobre o grão. Efeitos comparáveis aos mencionados com o pó do caroço de neem. O extracto de Neem é mais concentrado que as preparações com pó.
Aspersão sobre o produto com extractos de pimenta preta. O mesmo efeito que os mencionados com as frutas e pós do mesmo produto Utilizado sobre as leguminosas e arroz. Influência sobre o gosto!
Aspersão com um extraco de 2.5% de raízes de Annona sobre o produto. Efeito como o descrito para a utilização das folhas.  

Óleos vegetais:

Método Efeito Observações
Óleo de amendoim (5 ml/kg) Efeito tóxico para os embriões dentro dos ovos dos brucos. Interfere gravemente a oviparidade. A acção permanece por um período de até 6 meses. Método simples e bara to. O óleo de amen doim não fica ranço ra pidamente. Não tem in fluência sobre a facul dade de germinação.
Óleo de noz de coco (5 a 10 ml / kg) Similar ao óleo de amendoim. Cf. óleo de amendoim.
Óleo de palma (5 a 10 ml / kg) Cf. óleo de amendoim O óleo de palma modifica a apariência do produto devido à sua cor vermelha.
Óleo de sésamo (5 ml / kg) Cf. óleo de amendoim. Cf. óleo de amendoim.
Óleo de careço de Neem (utilizado para as leguminosas e os cereais numa proporção de 2 a 3 ml / kg) Adicionalmente aos efeitos descritos para as folhas, o óleo de neem age da mesma maneira que os outros óleos vegetais. O óleo de neem tem um gosto amargo e tor nase ranço durante o perído de armazena gem. Recomenda-se para as sementes.

O óleos vegetais são adicionados em pequenas quantidades ao produto e misturados contra os coleópteros que atacam as leguminosas com grãos (brucos). Os óleos agem contra os ovos e as larvas e deixam as fêmeas incapáveis da oviparidade. O efeito protector e geralmente satisfactório, particularmente quando o grão ainda não está infestado no momento do tratamento.

Ao utilizar material vegetal para a protecção de produtos armazenados, devese cuidar de não utilizar espécies altamente tóxicas para o homem como Datura ou Solanum para os cereais destinados ao consumo humano. O mesmo é válido para plantas que alteram fortemente a qualidade do produto armazenado como espécies de gosto particularmente amargo. Apesar disso, essas substâncias podem ser muito úteis para a protecção de sementes.

4.4.1.2.3 Uso de substâncias de origem animal

A adição de substâncias de origem animal, não ocupa um lugar importante no combate das pragas. Não obstante, utiliza-se bosta de vaca ou esterco de cabra para cobrir os muros dos silos das pequenas herdades feitos de argila com a finalidade de proteger contra as pragas escondidas. Existem dúvidas sobre a eficiência deste procedimento que nunca foi confirmado. Devido a considerações higiénicas, deveria-se renunciar a este tipo de tratamento.

4.4.1.3 Métodos físicos

Os métodos físicos para o combate das pragas são aplicados de maneira preventiva e curativa. O transformaçao pode contribuir a um aumento da aptidão de armazenagem. Para mais detalhes, veja-se secção 10.1.

4.4.1.3.1 Métodos mecánicos

· Retirar manualmente as pragas, as espigas ou os grãos contaminados
· Crivar
· Aventar
· Mexer os grãos (agitar, sacudir)

Ao utilizar métodos que apenas retiram as pragas do produto armazenado e não levam à morte, deve-se cuidar de matar os insectos separados para evitar uma reinfestação.

4.4.1.3.2 A utilização de calor

· Exposição do produto ao sol (destruição das larvas que vivem nos grãos, fuga dos insectos adultos que são sensíveis ao calor e à luz). Evitar o calor excessivo!

· Aquecimento em água (ebulição - parboiling)

· Fumegar ou queimar o contentor de armazenagem (p.ex. silos de argila)

· Armazenagem do grão acima do fogão da cozinha (o calor e o fumo vão afugentar as pragas)

· Fumegar com pimentos secos (Capsicum sp.) tem um muito bom efeito imediato mas altera o gosto do grão.

4.4.1.3.3 Armazenagem hermética

Os contentores de armazenagem de fecho hermético são ideais para combater a infestação de insectos e ácaros no grão seco sem a utilização de insecticidas. O principio do método consiste em eliminar o oxigênio que os insectos e o mofo necessitam para crescer ao igual que um aumento do nível de CO2 (veja-se secção 4.1.2), devido à respiração das pragas e do grão. Neste contexto, não pode-se deixar de insistir sobre a importância de uma sólida construção ou de um contentor de boa qualidade. Um bom isolamento térmico é indispensável.

A armazenagem hermética é particularmente aplicável no caso de armazenagem a longo prazo em lugares de calor seco. Não obstante, é aconselhável não armazenar sementes mais de alguns meses nessas condições.

Em países tropicais, aonde a humidade relativa é ideal para o desenvolvimento do mofo, não é recomendável de modo geral uma armazenagem hermética. Podem ser reduzidos os riscos possíveis deste método de armazenagem por meio de uma gestão cuidadosa, armazenando somente produtos bem secos, e particularmente cuidando de manter uma temperatura que evita a formação de condensação.

4.4.2 Métodos biológicos e integrados para o combate de pragas

Os métodos biológicos e integrados são tratados mais detalhadamente no capitulo 10. A utilização de inimigos naturais (predadores, parasitoidas), de microorganismos específicos, ao igual que iscas com substâncias alimentícias para atrair os insectos e a propagação de variedades mais tolerantes, vão se tomar cada vez mais importantes ao nível da armazenagem rural.

Com respeito ao combate biológico contra as pragas, as primeiras experiências de soltar um antagonista da broca maior dos cereais (Prostephanus truncatus) mostrou resultados prometedores ao nível de armazenagem de granja (cf. secção 10.3).

Existe também um outro ponto de partida para a gestão integrada dos produtos armazenados que consiste em compartilhar a colheita com a finalidade de reduzir a quantidade de insecticidas necessária para uma prevenção apropriada de perdas que ocorrem depois da colheita. Testes efectuados na Tanzânia, ao mesmo tempo que pesquisas na Africa Ocidental mostraram que durante os primeiros três a quatro meses de armazenagem, as pragas geralmente não produzem perdas económicas suficientes para justificar tratamentos com insecticidas sintéticos.

Considerando este facto, pode-se concluir que a colheita pode ser dividida numa parte destinada ao consumo nos primeiros três a quatro meses depois da colheita, e a segunda, destinada a ser armazenada por um período mais longo. A primeira parte pode ser armazenada sem tratamento químico, enquanto que os cereais determinados para o consumo posterior ou para a venda, devem ser submetidos a um tratamento. Este procedimento permite ao agricultor de economizar insecticidas e dinheiro, sem consequências económicas negativas.

4.4.3 Métodos químicos

Durante séculos, o camponês confiou nos efeitos protectores das vagens e das cascas, seleccionando variedades pouco susceptíveis às pragas que atacam os produtos armazenados. Esta confiança e inteiramente justificada. Por essa razão, deve-se examinar com cuidado o aspecto social e económico de toda interferência no sistema de armazenagem que tenha como objectivo evitar as desvantagens dos métodos tradicionais por meio de um aumento da utilização de insecticidas.

Devido ao facto que os meios de combate de pragas tradicionais não parecem ser mais apropriadas para proteger as quantidades cada vez maiores de produtos armazenados no mundo, concentram-se muitos esforços na introdução de mudanças nos sistemas tradicionais de armazenagem. O aspecto principal destes esforços é a utilização de pós insecticidas que são misturados com o produto. Não obstante, a introdução de insecticidas químicos ao nível de pequenas herdades, causou uma quantidade de problemas que não foram ainda resolvidos satisfactoriamente, apesar dos esforços consideráveis intentados pelos serviços de desenvolvimento respectivos.

Pesquisas realizadas na África Ocidental nestes últimos anos, mostraram por exemplo que a selecção e a aplicação não apropriadas de insecticidas químicos e de fumigatórios são fenómenos muito comuns ao nível de pequenas herdades. Dos casos investigados resultou que uma aplicação correcta só é praticada por uma minoria dos camponêses. Cometem-se sobretudo os seguintes erros:

- escolha de um produto impróprio

Entre os produtos químicos utilizados pelos camponêses para a protecção dos produtos armazenados, destaca-se a utilização frequente de produtos destinados ao tratamento das sementes e dos solos, ou insecticidas contra os insectos que afectam a higiene, como p.ex. os mosquitos ou as baratas. Alguns destes produtos contêm altas doses de matérias activas fortemente tóxicas para os mamíferos. Os riscos para o consumidor são evidentes.

Utilizam-se ainda na Africa, produtos obsoletos como os hidrocarbonetos clorinados para combater por exemplo as larvas de mosquitos, terminando frequentemente estes compostos como produtos de protecção de grãos nos celeiros.

- aplicação de insecticidas degradados ou com uma formulação inadequada

Em muitos casos nos quais os agricultores se queixaram sobre o efeito insuficiente dos insecticidas recomendados, as análises químicas mostraram que a matéria activa se degradou devido a uma armazenagem muito prolongada ou a uma armazenagem sob condições climáticas desfavoráveis. Sobretudo as formulações em pó degradam-se rapidamente sob condições climáticas quentes e húmidas.

Porém, em alguns casos foi possível demonstrar que erros de formulação por parte da fábrica local foram a causa do erro. Existiram casos aonde o conteúdo da matéria activa era nulo já a partir da data de produção.

- aplicação inadequada

Erros no cálculo de dosagem ou de distribuição não uniforme ocorrem frequentemente, resultando numa dosagem excessiva com os respectivos riscos para o consumidor, ou numa dosagem muito fraca. Esta última significa uma protecção insuficiente do produto armazenado, o que leva àaparição das resistências contra os insecticidas por parte das pragas.

Os fumigatórios podem ser comprados em muitos mercados rurais da África Ocidental. Os comerciantes vendem até comprimidos individuais envoltos num papel. Pesquisas demonstraram que a aplicação de fumigatórios pelos camponêses na África não vem nunca acompanhada da estanqueidade ao gás requerida. Isto significa que o tratamento não alcança o resultado desejado, além de existir um risco considerável de intoxicação humana.

A razão principal dos problemas supramencionados é a falta de informação adequada. Os comerciantes que vendem os produtos não estão suficientemente informados como para aconselhar o camponês sobre uma aplicação correcta ou eles não têm interesse nenhum em convencer o mesmo de não comprar produtos inadequados. Frequentemente, o produto não vem etiquetado suficientemente como para impedir erros de utilização, sobretudo quando faltam etiquetas nas línguas locais. A grande quantidade de camponêses analfabetos é mais um problema quando se trata de transferir informações técnicas especiais. E finalmente, muitos serviços responsáveis da propagação de conhecimentos e da protecção de plantas não estão em condições de providenciar as informações requeridas em função das necessidades.

Salvo que seja elaborado para os agricultores africanos um sistema eficiente de propagação / informação referente a aplicação correcta de insecticidas, parece que a melhor solução é a de reduzir a um mínimo absoluto a utilização de insecticidas para a protecção das colheitas. A higiene, com todas as medidas preventivas que a mesma implica, demonstrou ser a medida mais eficiente, mais económica e mais segura para a prevenção das perdas ocorridas depois da colheita. Alguns dos métodos tradicionais baseados em substâncias de origem vegetal, mineral, etc., demonstram um efeito suficiente sobre as pragas que atacam os produtos armazenados como para competir com os insecticidas sintéticos, sobretudo se estes últimos são aplicados por camponêses não suficientemente informados (veja-se secção 4.4.1).

Na maioria dos países africanos, os pós secos constituim as fórmulas mais divulgadas no sector da protecção dos produtos armazenados. Deve-se isto ao facto que a aplicação de pós é relativamente fácil e segura, embora a pulverização de produtos líquidos seja às vezes mais conveniente, dependendo das condições. É por isso que esta secção trata exclusivamente o tema da aplicação de formulações em pó ao nível de pequenas herdades. No capitulo 8 encontram-se inforrnações mais detalhadas sobre as possibilidades e limitações na utilização de insecticidas químicos, sobre a escolha dos insecticidas apropriados, sobre aspectos referentes à segurança e outros.

Ao utilizar métodos químicos para o combate de pragas, devem ser considerados os aspectos seguintes:

· Toxicidade do insecticida / protecção do operador (veja-se secção 8.1.7).

· Boa rentabilidade do tratamento. com um insecticida.

A experiência mostrou que não é sempre conveniente tratar as espigas de milho nas bainhas, particularmente no caso do milho ter sido vitima de uma forte infestação no campo. Isto também é válido para o tratamento do produto armazenado que não fica num contentor de armazenagem por mais de 3 a 4 meses (veja-se secção 4.4.2).

· Disponibilidade do insecticida adequado no momento e no lugar desejado

· Embalagens de tamanhos apropriados, isto significa pacotinhos com instruções de uso sobre a etiqueta (numa língua comum ou local)

· Métodos apropriados para a propagação de conhecimentos referentes ao uso de insecticidas

Estas exigências demonstram que a divulgação de insecticidas químicos deve ser acompanhada obrigatoriamente de medidas complementárias, por exemplo a existência de um sistema de distribuição eficiênte e um serviço de propagação competente.

Existem duas áreas de aplicação de insecticidas na armazenagem de granja:

- Tratamento dos armazéns vazios (aplicação de pó, pulverização de produtos líquidos, defumação) oferece uma boa protecção preventiva no combate de pragas.

- Tratamento do produto armazenado com insecticida em pó, seja misturado com o produto armazenado, aplicando camadas, por meio de pulverização ou fumegação.

Atenção: Para evitar que os resíduos ultrapassem os valores admissíveis (veja-se secção 8.1.8), a adição de um insecticida a um produto armazenado só pode ser efectuada uma vez, mesmo no caso de uma armazenagem prolongada.

4.4.3. 1 Pós

4.4.3.1.1 Formulações de pó

As formulações de insecticidas em pó seco vendem-se em preparações prontas para a utilização e contém entre 0.1 e 5% de matérias activas. As formulações contêm aditivos os quais reforçam a adesão no produto armazenado. As formulações em pó apropriam-se para a mistura com o grão, para uma aplicação em camadas (método sandwich), ao igual que para um tratamento das superfícies dos sacos individuais ou empilhados e dos celeiros. Os insecticidas utilizados mais correntemente na actualidade são:

Matéria activa Produto comercial (p.c.) Quantidade de aplicação (ppm) Quantidade aplicação (g de p.c./100 kg produto)
Organo-fosforados:      
Fenitrotião Folithion 1% D 10 100
  Sumithion 1% D 10 100
Pirimiphos-metilo Actellic 2% D 10 50
Chlorpyrifos-metilo Reldan 2% D 10 50
Methacrifos Damfin 2% D 10 50
Malatião Malathion 2% D 8-12 40-60
Piretroidas:      
Deltametrina K-Othrin 0.2% D 1 50
Permetrina Permethrin 0.5% D 2.8 55
Fenvalerate Sumicidin 1% D 5 50
Cyflutrina Baythroid 1% D 2 20

As informações sobre a escolha correcta das matérias activas e sobre as propriedades dos produtos alistados encontram-se na secção 8.1.6.

4.4.3.1.2 Recipientes para polvilhar

As formulações em pó são aplicadas por meio de recipientes para polvilhar. Existem diferentes modelos, todos económicos, simples e eficiêntes que podem ser comprados facilmente nos mercados locais:

Figura 23

4.4.3.1.3 Aplicação de insecticidas em pó. mistura com o produto armazenado

Este método é aplicado principalmente para a armazenagem de pequenas quantidades de grãos soltos. Mistura-se o pó com o grão da seguinte maneira:

Figura 24 Amontoar os cereais sobre o solo

Figura 25 Repartir uniformemente a quantidade de insecticida necessária

Figura 26 Misturar com cuidado o insecticida com os cereais com a ajuda de uma pá

Figura 27 Verificar que o pó tenha sido bem repartido

Coloque os grãos tratados em sacos e armazene os mesmos num contentor apropriado.

No caso de se tratar de quantidades de cereais mais importantes (mais de dois sacos), é aconselhável misturar o pó removendo várias vezes os montões com uma pã:

Figura 28

4.4.3.1.4 Aplicação de pos insecticidas: Método sandwich

O método sandwich é apropriado tanto para armazenagem de espigas de milho como de outros cereais. Os recipientes devem estar bem limpos antes de começar com a armazenagem.

Figura 29

Pode começar então a armazenagem e a aplicação do insecticida:

Figura 30 Pulverização do interior das paredes e do fundo com uma camada fina de insecticida

Figura 31 Colocar uma camada de espigas de milho (não mais espessa que 20 cm)

Figura 32 Pulverização uniforme com o pó sobre a camada de espigas

Figura 33 Proceder da mesma maneira para o resto das camadas de espigas e de pó

Figura 34 A camada superior deve sempre ser pulverizada:

O grau de infestação do milho depende sobretudo da protecção das espigas fornecida pelas camisas. Existem estudos que provam que uma armazenagem de espigas completamente protegidas pelas camisas, pode ser tão eficiênte na prevenção de perdas quanto um tratamento com insecticidas. Não obstante, retirar as camisas antes de aplicar um insecticida pode resultar vantajoso nos casos de uma forte infestação prévia. Neste caso, os insectos entram directamente em contacto com o insecticida.

4.4.3.1.5 Cálculo de dosagem para a aplicação de pos secos

As doses de aplicação para formulações de pós são indicadas em g de produto comercial cada 100 kg de grão ou em ppm (partes por milhão). A indicação ppm refere-se à quantidade de matéria activa (m.a.) no grão.

Um valor de 10 ppm significa que existem 10 partes ponderáveis de matéria activa num milhão de partes ponderáveis produto ammazenado. Como 1 quilograma contém 1 milhão de miligramas, 10 ppm significam 10 mg de m.a. por kg de grão.

Determinação da quantidade de pó insecticida necessário para o tratamento:

- Dose de aplicação indicada em g/100 kg

Informações necessárias para o cálculo:

· Peso do produto que deve ser tratado (em kg)
· Dose de aplicação recomendada (em g/100 kg)

Multiplica-se a quantidade do produto armazenado que deve ser tratado (em kg) pela dose de aplicação (indicada em g/100 kg).

Exemplo:

500 kg de milho devem ser tratados.
A dose de aplicação recomendada é: 50g/100 kg
Cálculo: 50g/100kg x 500kg = 250g
Por conseguinte, são necessários 250 g de pó para tratar 500 kg de milho,

 

- Dose de aplicação em ppm

Informações necessárias para o cálculo:

· Peso do produto que deve ser tratado (em kg)
· Conteúdo de matéria activa de insecticida (em %)
· Dose de aplicação recomendada (em ppm)

O cálculo da dosagem é efectuado em quatro passos com a ajuda do quadro ppm que figura ao final desta secção:

- Sobre a linha superior do quadro figuram diferentes doses de aplicação recomendadas, representadas em ppm. Procure a coluna que corresponde à quantidade de aplicação recomendada para o insecticida utilizado!

- A coluna da esquerda do quadro indica diferentes concentrações de matérias activas em %. Procure a linha correspondente aplicável ao insecticida utilizado!

- Procure o ponto de intersecção da coluna e da linha! A cifra indicada lá, indica a quantidade de formulação de pó (produto comercial) em g que deve ser utilizada para o tratamento de 100 kg do produto armazenado.

- Calcule a quantidade de pó insecticida necessária para a quantidade efectiva de produto que deve ser tratado.

Exemplo:

300 kg de grão devem ser tratados.

O insecticida escolhido é uma fórmula de pó com 5% de matéria activa.

A dose de aplicação recomendada é 10 ppm.

O ponto de intersecção da linha dos 5% e da coluna dos 10 ppm indica a quantidade de insecticida necessária para 100 kg de grão: 20 g.

Esta cifra é convertida para uma quantidade de 300 kg de produto:

20g/100kg x 300kg = 60g

São necessários 60 g de pó insecticida ao 5% para tratar 300 kg de grão.

 

- Cálculo de dosagem para o método sandwich

No caso do método sandwich, utilizam-se as mesmas doses de aplicação que para o método da adição de insecticidas ao produto armazenado. A quantidade total é calculada em função à quantidade de produto armazenado em kg de acordo ao supramencionado.

Para cada camada com uma espessura máxima de 20 em, calcula-se então a quantidade de insecticida necessária em função ao peso do produto dessa camada. Deve-se cuidar de ter sempre camadas da mesma espessura.

Recomenda-se guardar uma parte da quantidade de insecticida calculada para tratar durante o enchimento, o solo, as paredes e a cobertura do contentor de armazenagem. Ao armazenar o produto sobre plataformas, guarda-se uma parte do insecticida por camada. Esta quantidade assim guardada serve para pulverizar os lados exteriores da pilha uma vez armazenado o produto.

Exemplo:

Devem-se tratar espigas de milho utilizando uma fórmula de pó.

A dose de aplicação recomendada é 50 g/100 kg.

2 cestos de espigas de milho fazem uma camada.
O peso médio dos cestos é 60 kg .
O peso total da primeira camada é então:

2 x 60 kg = 120 kg.

Consequentemente, 50g/100kg x 120kg = 60g

precisa-se da fórmula de pó para o tratamento da primeira camada incluindo o solo e parte das paredes.

2 cestos de espigas de milho e 60 g de insecticida deveriam ser utilizados também para todas as camadas seguintes, incluindo a cobertura final.

O camponês tem às vezes dificuldades em determinar o peso do produto que deve ser tratado. O mais conveniente é pesar o produto antes de efectuar a armazenagem ou contar a quantidade de sacos o cestos esvaziados no armazém. Não obstante, é necessário determinar o peso médio de um saco ou de um cesto.

Quadro para o cálculo das quantidades de pó necessárias para tratar 100 kg de grão

Concentração de matéria activa no pó

Dose de matéria activa recomendada para a aplicação

0.1 0.2 0.3 0.4 0.5 1 2 3 4 5 6 8 10 12
 

Quantidade de pó necessária (em g) para 100 kg de produto armazenado

0.05% 20 40 60 80 100 200 400 600 800 1000 1200 1600 2000 2400
0.1% 10 20 30 40 50 100 200 300 400 500 600 800 1000 1200
0.2% 5 10 15 20 25 50 100 150 200 250 300 400 500 600
0.3% 3.3 7 10 13 17 33 67 100 133 167 200 267 333 400
0.4% 2.5 5 7.5 10 12.5 25 50 75 100 125 150 200 250 300
0.5% 2 4 6 8 10 20 40 60 80 100 120 160 200 240
1% 1 2 3 4 5 10 20 30 40 50 60 80 100 120
1.5% 0.7 1.3 2 2.7 3.3 7 13 20 27 33 40 53 67 80
2% 0.5 1 1.5 2 2.5 5 10 15 20 25 30 40 50 60
2.5% 0.4 0.8 1.2 1.6 2 4 8 12 16 20 24 32 40 48
3% 0.3 0.7 1 1.3 1.7 3.3 4 10 13 17 20 27 33 40
4% 0.25 0.5 0.8 1 1.3 2.5 5 7.5 10 12.5 15 20 25 30
5% 0 2 0.4 0.6 0.8 1 2 4 6 8 10 12 16 20 24

Exemplo:
a) Devem ser tratadas 2 t de grão com um pó de 2% de m.a.
b) A dose de aplicação recomendada é de 10 ppm.
c) Quanto pó é necessário para c tratamento?
d) Encontre o ponto de intersecção da linha dos 2% com a coluna dos 10 ppm!
e) Calcule a quantidade de pó necessária para 2 t (= 2000kg):
(50 g / 100 kg) x 2000 kg = 1000 g = 1 kg
f) 1 kg de pó de 2% de m.a. é necessário para tratar 2 toneladas de grão com uma dose de aplicação de 10 ppm.

4.4.3.2 Aplicação de formulações líquidas

No caso de desejar utilizar formulações líquidas para a armazenagem ao nível de pequenas herdades, veja-se capítulo 8: instruções de aplicação e cálculos para a dosagem.

4 4.3.3 Fumigação

Em muitas regiões da África, da Ásia e da América do Sul, armazena-se o grão em contentores de barro fechados. Há alguns anos, a fumigação desse tipo de depósitos parecia ser um método muito prometedor para o combate de pragas, mesmo ao nível de pequenas herdades, particularmente devido a que esta técnica é muito simples (ao ser aplicada por pessoal devidamente instruido!), económica e eficiente e não deixa resíduos no produto armazenado.

Uma falta de controlo e riscos para o consumidor e para pessoas não implicadas na fumigação foram repetidamente o resultado de uma manipulação incorrecta dos fumigatórios por agricultores não devidamente instruidos. Como consequência de uma hermeticidade insuficiente, o resultado desejado raramente foi atingido. Em vez disso, homens e animais estão expostos a riscos graves para a saúde. É por isso que não éaconselhável de maneira alguma a fumigação ao nível de pequena herdade.

4.4.4 Combate das térmites

Nos celeiros tradicionais ou em depósitos mais pequenos feitos de argila, podem aparecer térmites e representar um estorvo considerável. Muitas vezes elas não ocasionam danos substanciais aos produtos armazenados, mas podem distruir as estruturas de armazenagem, especialmente as partes de madeira ou de palha da construção.

O combate das térmites é muito difícil. Igual que para as outras pragas que atacam os produtos armazenados, o melhor método é a prevenção. Algumas espécies de madeira, como por exemplo a madeira de teca, são resistentes ao ataque das térmites. Em regiões com alta frequência de térmites, aconselhamse construções de barro sem palha. Os postes dos celeiros impregnados com óleo mineral nas bases, podem resistir muitos anos aos ataques das térmites. Existem também insecticidas elaboradas para a protecção das madeiras (e.g. deltametrina), mas às vezes é muito difícil encontrar estes produtos nas regiões rurais da África. Para as zonas expostas, recomendam-se construções sólidas que agem como barreiras contra a intrusão das térmites. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que as térmites são especialistas em encontrar fissuras por mais minúsculas que sejam, o que obriga indispensavelmente a efectuar inspecções regulares, a destruir as galerias e a reparar imediatamente os danos ocorridos nas estruturas de armazenagem.

Parece que algumas das plantas utilizadas tradicionalmente para a protecção do produto armazenado possuim efeitos repulsivos sobre as térmites. Uma dessas plantas é a Hyptis spicigera (cf. 4.4.1.2.2). Não obstante, estes efeitos ainda não foram objecto de estudos intensivos.


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