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O desperdício alimentar tem consequências ao nível do clima, da água, da terra e da biodiversidade – novo estudo da FAO

Os custos económicos diretos podem chegar a 750 mil milhões de dólares por ano

Foto: Jean-Christophe Verhaegen/AFP
Em França, o desperdício alimentar aguarda para ser convertido em metano e biogás.

Roma, 11 setembro de 2013 - Segundo o novo estudo da FAO divulgado hoje, o impressionante valor de 1.3 mil milhões de toneladas de alimentos desperdiçados anualmente não só causam grandes perdas económicas, como também graves impactos nos recursos naturais dos quais a humanidade depende para se alimentar.

A pegada ecológica do desperdício alimentar: impacto sobre os recursos naturais é o primeiro estudo que analisa os efeitos do desperdício alimentar global do ponto de vista ambiental, focando-se particularmente nas suas consequências ao nível do clima, do uso da água e do solo e da biodiversidade.

Entre as suas principais conclusões podemos destacar:
Por ano, os alimentos produzidos mas não consumidos utilizam um volume de água equivalente ao fluxo anual do rio Volga na Rússia e são responsáveis pela emissão de 3.3 mil milhões de toneladas de gases com efeito estufa na atmosfera do planeta.

Além destes impactos ambientais, as consequências económicas diretas do desperdício alimentar (excluindo o peixe e o marisco) atingem o montante de 750 mil milhões dólares por ano, de acordo com as estimativas do estudo da FAO.

"Todos nós, agricultores e pescadores, processadores de alimentos e supermercados, governos locais e nacionais e consumidores individuais, temos de fazer mudanças ao longo de toda a cadeia alimentar humana para impedir que ocorra, desde já, o desperdício alimentar e, não sendo isto possível, promover a reutilização ou a reciclagem", afirmou o Diretor-Geral da FAO, José Graziano da Silva.

"Não podemos simplesmente permitir que um terço de todos os alimentos que produzimos seja perdido ou desperdiçado devido a práticas inadequadas, quando 870 milhões de pessoas passam fome todos os dias."

Acompanhando o novo estudo, a FAO também publicou um manual prático com as recomendações sobre como reduzir a perda e o desperdício de alimentos em cada etapa da cadeia alimentar.

Este manual contempla uma série de projetos ao redor do mundo que mostram como os governos nacionais e locais, os agricultores, as empresas e os consumidores individuais podem tomar medidas para responderem ao problema.

O Subsecretário-Geral da ONU e Diretor Executivo do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP), Achim Steiner, afirmou: "A UNEP e a FAO identificaram a perda e o desperdício de alimentos como uma grande oportunidade para que os países façam a transição para uma economia verde inclusiva, baixa em carbono e eficiente na utilização de recursos. O excelente relatório apresentado hoje pela FAO destaca os muitos benefícios que podem ser obtidos, em muitos casos através de medidas simples e sensatas, ao nível das famílias, lojas, restaurantes, escolas e empresas, e que podem contribuir para a sustentabilidade ambiental, melhorias económicas, a segurança alimentar e para a realização do Desafio Fome Zero do Secretário-Geral Nações Unidas. Pedimos a todos que adotem o lema da nossa campanha conjunta: Think.Eat.Save - Reduza a sua pegada!"

A UNEP e FAO são fundadoras da campanha Think.Eat.Save - Reduza a sua pegada!, que foi lançada no início deste ano e tem como objetivo ajudar na coordenação dos esforços globais para reduzir o desperdício.

De onde vem o desperdício?

De acordo com o estudo da FAO, 54 por cento do desperdício alimentar no mundo ocorre na fase inicial da produção, manipulação pós-colheita e armazenagem. Os restantes 46 por cento ocorrem nas etapas de processamento, distribuição e consumo.

Geralmente, os países em desenvolvimento sofrem mais com as perdas alimentares durante a produção agrícola, enquanto o desperdício tende a ser maior ao nível da distribuição e do consumo nas regiões de médio e elevado rendimento, o que corresponde a 31-39 por cento do desperdício em relação a 4-16 por cento de perdas nas regiões de baixo rendimento.

Quanto mais tarde um produto alimentar se perde na cadeia alimentar, maiores são as consequências ambientais, de acordo com a FAO, já que ao custo inicial da produção devem ser adicionados os custos ambientais incorridos durante o processamento, transporte, armazenamento e utilização.

As regiões críticas

O estudo destaca várias regiões críticas do desperdício alimentar:
O desperdício de cereais na Ásia é um grave problema, com um enorme impacto sobre as emissões de carbono e o uso da água e do solo. O caso do arroz é particularmente evidente, tendo em conta as suas elevadas emissões de metano e do seu elevado nível de desperdício.

Em relação à carne, apesar do volume de desperdício ser relativamente baixo a nível global, a indústria da carne gera um impacto considerável sobre o meio ambiente em termos de uso da terra e da pegada de carbono, especialmente nos países de elevado rendimento e na América Latina, que juntos são responsáveis por 80 por cento do total do desperdício. Excluindo a América Latina, as regiões de elevado rendimento são responsáveis por cerca de 67 por cento de todo o desperdício de carne.

No que diz respeito à fruta, o elevado nível desperdício contribui significativamente para a utilização desnecessária de água na Ásia, Europa e América Latina.

Da mesma forma, o elevado volume de desperdício ao nível dos hortícolas nos países industrializados da Ásia, Europa e Sul e Sudeste da Ásia, resultam numa grande pegada de carbono para o setor.

Causas do desperdício alimentar e opções para o enfrentar

Segundo a FAO, o nível mais elevado de desperdício alimentar nas sociedades ricas resulta de uma combinação entre o comportamento do consumidor e a falta de comunicação ao longo da cadeia de abastecimento. Os consumidores não conseguem planear as suas compras de forma eficaz e, por isso, compram em excesso ou exageram no cumprimento das datas de validade dos produtos; enquanto os padrões estéticos e de qualidade levam os distribuidores a rejeitar grandes quantidades de alimentos perfeitamente comestíveis.

Nos países em desenvolvimento, as grandes perdas pós-colheita na fase inicial da cadeia alimentar são o principal problema, que ocorre como resultado de limitações financeiras e estruturais ao nível das técnicas de colheita e das infraestruturas de transporte e de armazenamento, para além das condições climatéricas que favorecem a deterioração dos alimentos.

Para resolver o problema, o manual prático da FAO detalha três níveis onde se podem aplicar medidas:

Em primeiro lugar, deve ser dada prioridade à redução do desperdício alimentar. Para além de se diminuírem as perdas nas explorações agrícolas devido às más práticas, é necessário um maior esforço para equilibrar a produção com a procura, para que não se desperdicem recursos naturais desnecessariamente.

No caso dos excedentes alimentares, a melhor opção passa por reutilizar os alimentos na cadeia alimentar humana, através de mercados secundários ou da doação aos membros mais vulneráveis da sociedade. Se os alimentos não estão em condições para o consumo humano, a melhor opção é desviá-los para a cadeia alimentar animal, poupando recursos que, de outra forma, seriam necessários para produzir ração comercial.

Quando a reutilização não é possível, deve proceder-se à reciclagem e recuperação: a reciclagem de subprodutos, a digestão anaeróbia, a compostagem e a incineração com recuperação de energia, permite que se recupere a energia e os nutrientes provenientes do desperdício alimentar, o que representa uma vantagem significativa em relação aos aterros. Os restos de alimentos que acabam por apodrecer nos aterros são responsáveis por uma elevada produção de metano, um gás com efeito estufa particularmente prejudicial.

O governo alemão financiou a produção deste estudo sobre a pegada ecológica do desperdício alimentar e do manual prático.