Escritório Regional da FAO para a América Latina e o Caribe

Conheça 10 filmes que têm a luta contra a fome como pano de fundo, premiados no Festival EnCurta Fome

Com cerca de 500 participantes e 179 obras inscritas, o festival EnCurta Fome, com o apoio da FAO, reconheceu produções que se destacaram por sua abordagem crítica e sensível sobre a fome no Brasil.

©FAO

15/12/2025

A expressão artística audiovisual no Brasil foi parte da celebração do Dia Mundial da Alimentação 2025, por meio da 1ª edição do festival independente de filmes curta-metragem, o EnCurta Fome, que contou com apoio institucional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Assista aos quatro melhores filmes e aos seis que receberam “Menção Honrosa” aqui. Os filmes – que têm entre 15 e 20 minutos de duração – foram selecionados entre 179 inscritos e 36 exibidos durante o Festival, de 17 a 19 de outubro, em Cunha (SP), a um público de cerca de 500 pessoas. Os vencedores receberam o Prêmio Carolina Maria de Jesus, entregue pelo Padre Júlio Lancellotti, reconhecido por seu trabalho dedicado à causa dos mais vulneráveis, em particular pessoas em situação de rua, minorias e populações marginalizadas em São Paulo.

A luta contra a fome e a pobreza é um elemento subjacente que atravessa as histórias de todos os filmes, perpassando as situações humanas e sociais abordadas. Apresenta o esforço de pessoas que, de diferentes maneiras e em contextos diversos, lutam por seu próprio desenvolvimento e o de outras pessoas, para escapar da fome.

“A FAO reconhece o valor da arte como canal de conexão entre as pessoas e a realidade social. O cinema é uma plataforma de conhecimento, das mais nobres e sensíveis, e filmes que abordam a realidade de pessoas no meio urbano e rural, que no seu cotidiano procuram os meios para fugir da fome e ter uma vida melhor, despertam para a importância do mandato da Organização, que persegue um mundo livre da fome, da pobreza e da malnutrição”, afirma o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, que participou da premiação do Festival.

Segundo o idealizador do evento, o presidente do Instituto Entenda, Fernando Ito, os curtas inscritos surpreenderam pela qualidade, e retrataram a fome de maneira crítica, sensível e potente. “Mais do que denunciar, conseguimos mobilizar um olhar coletivo mais aguçado, despertando reflexão, senso crítico e de responsabilidade social”, afirmou.

Carolina Maria de Jesus O prêmio do Encurta Fome foi nomeado em homenagem à catadora de papel Carolina Maria ade Jesus, que se tornou uma das vozes mais potentes e originais da literatura brasileira nos anos 1960. Tornou-se célebre ao registrar a vida na pobreza extrema das favelas, especialmente a do Canindé, em São Paulo, onde viveu. Sua obra mais famosa,

“Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, baseada em seus diários, mostra a fome, a desigualdade, a violência, a solidariedade e sua luta pela dignidade.

Resenhas dos filmes vencedores

'Black House; Jazz é o corre" de Almicar Neto (São Paulo - SP)

Uma obra prima estética e sonora. Com cenas em preto e branco, apresenta relatos emocionantes da história de vida de jovens da periferia que descobriram e foram descobertos pelo Jazz, aprenderam a tocar um instrumento, e vivem o paradoxo da sofisticação musical e a dura realidade de suas origens pobres.

"O canto de Acauã" de Jaya Pereira (Natal - RN)

O curta apresenta a Comunidade Quilombola Acauã, localizada em Poço Branco (RN). Nativos da região relembram a história de seus ancestrais, a infância, seus meios de subsistência, sua cultura, lutas e superações, que incluem o enfrentamento de secas e perda de plantações. Por fim, relatam seu percurso até o seu reconhecimento enquanto remanescentes de quilombola e de seus direitos, que iniciaram melhorias na infraestrutura local.

"O Fantasma Neon" de Leonardo Martinelli (Rio de janeiro - RJ)

O filme aborda a vida dos entregadores de comida delivery de aplicativo a partir de diálogos entre eles, e cenas de seu cotidiano que expressam a invisibilização a que são submetidos, os preconceitos que sofrem, riscos que correm, a precariedade dos contratos de trabalho e o cinismo institucional dos contratantes. Os relatos são intercalados com coreografias em ritmo de funk, e diversas cenas têm como pano de fundo murais grafitados com belas ilustrações, tornando a obra bastante aprazível esteticamente.

"Vania e Valéria" de Isabela da Silva Alves e Isabela Milena Nascimento da Cunha (São Paulo - SP)

Mais intimista, este curta apresenta o casal Vânia e Valéria em sua fazenda em Parelheiros (SP), numa área de proteção ambiental, onde vivem com 14 cachorros e trabalham na própria terra. Juntas há 31 anos, elas fundaram em 2011 uma cooperativa de agricultores orgânicos, Cooperápas. O casal tem forte atuação na comunidade local, que conta com 450 agricultores, e sonha em ter uma cozinha-escola para ensinar às mulheres um melhor aproveitamento dos alimentos cultivados.

Resenhas dos filmes com menção honrosa

'Yyá Lúcia de Oxum" de Marcio Graffiti ( São João de Mereti - RJ)

Este curta foca na líder religiosa, sacerdotisa de matriz africana Yyá Lúcia de Oxum. Moradora de São João de Mereti (RJ), ela é fundadora de um grupo de mulheres ativistas negras dedicado a combater a violência contra a mulher através da cultura, da educação e dos saberes ancestrais. Promove oficinas de literatura, de estética, mobiliza a distribuição de cestas básicas. Colaboradora da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, “Mãe Lúcia” denuncia a distância das políticas públicas do estado da realidade da Baixada Fluminense, e defende a liberdade e a tolerância religiosa.

"Mira" de Sóllon Rodrigues ( São Paulo - SP)

Com atmosfera de conto, ambientado no agreste nordestino, em meio à paisagem árida da Caatinga, o curta acompanha uma mulher e sua dura rotina sob sol inclemente e chão estalado pela seca. A protagonista contracena com outras personagens que deixam o público incerto se são lembranças, miragens, alucinações ou realidade – o que leva a refletir sobre o mecanismo de defesa da mente que cria uma realidade paralela para conseguir lidar com uma vida sofrida e sem esperança.

"O que move a cruzada" de Alex Brito e Giulia Marinho (Rio de Janeiro - RJ)

O curta é embalado pelo som do rap e foca na história da Cruzada de São Sebastião, uma antiga favela no coração do Leblon, no Rio de Janeiro, que a Igreja Católica, liderada por Don Helder Câmara, transformou em um conjunto de apartamentos, com o intuito de humanizar a favela. A história do local é contada pelos antigos moradores.

"Planeta fome" de Édier William (Recife - PE)

Um curta de animação delicado e sensível, em preto e branco, que só utiliza gestos para comunicar. Apresenta a rotina de uma “mãe solo” com seu filho, ainda criança, e suas alegrias e desafios diários, até o seu gradual declínio financeiro.

"Sementes" de Marcelo Engster (São Paulo - SP)

Um mini-documentário sobre a relação dos agricultores de Panambi (RS) com um banco comunitário de sementes criolas, e a busca por uma agricultura sustentável. O curta ressalta a beleza do trabalho comunitário, em mutirão, e a produção local isenta de agrotóxicos.

"Viventes" de Fabricio basílio (Niterói - RJ)

Um jovem em busca de emprego retorna ao bairro dos avós em Niterói e interage com seus fantasmas enquanto fatos da vida real no presente acontecem ao seu redor. O tema da injustiça e a dívida social, e a iminente ameaça de usurpação e perda financeira, são marcados por lembranças, fantasias e sonhos do garoto.

Oficinas

Além da exibição dos curtas, o Festival EnCurta promoveu oficinas na Universidade de Taubaté (Unitau) e na rede pública de ensino de Cunha, com alunos do ensino fundamental. As atividades foram conduzidas pelo professor e diretor artístico do festival de animação de Portugal MONSTRA, Fernando Galrito, com apoio do Instituto Camões. Como resultado foi produzido um vídeo de animação com os trabalhos desenvolvidos nas oficinas. Além disso, a iniciativa promoveu espaços temáticos de diálogo e reflexão sobre as causas e consequências da fome, provocando mobilização e conscientização social

Contact

María Elena Álvarez I.

Diretor de Imprensa e Conteúdo

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