Escritório Regional da FAO para a América Latina e o Caribe

O Caribe deve enfrentar grandes secas devido às mudanças climáticas

A agricultura é o setor mais vulnerável diante das mudanças provocadas pelas secas

Com o uso cada vez mais generalizado de risco no Caribe, o fornecimento de água doce dos países será cada vez mais importante.

21 de junho de 2016, Barbados – As mudanças climáticas podem aumentar a intensidade e a frequência das secas no Caribe. Diante disso os países devem melhorar as capacidades para enfrentar esse e outros problemas relacionados com o clima para garantir a segurança alimentar e a erradicação da fome, apontou hoje a FAO.

Um novo estudo da FAO, aponta que o Caribe enfrenta importantes desafios relacionados à seca. A região já sofre com episódios anuais similares a seca e constantemente a baixa disponibilidade de água impacta a agricultura e os recursos hídricos, gerando um número significativo de incêndios florestais.

O Caribe também sofre de intensas estações secas, especialmente nos anos com o El Niño. Apesar dos impactos serem geralmente compensados pelas temporadas seguintes de chuvas, as estações úmidas frequentemente acaba cedo e as estações secas duram mais, o que resulta em uma precipitação anual menor que a esperada.

Sete dos 36 países com maior escassez de água do mundo estão no Caribe, e Barbados está entre os dez com maior índice de escassez. A FAO define países como Barbados, Antígua e Barbuda e Saint Kitts y Nevis como nações com “escassez de água” já que apresentam menos de 1000 m3 de recursos de água doce per capita.

“A seca é a causa mais comum de escassez grave de alimentos nos países em desenvolvimento, e por isso essa é uma questão chave para a segurança alimentar no Caribe”, disse Deep Ford coordenador regional da FAO no Caribe.

Os impactos da seca na agricultura e na segurança alimentar

Com os períodos de secas cada vez mais comuns no Caribe, a agricultura é o setor que será mais afetado, com graves consequências econômicas e sociais.

Isso é particularmente importante, já que a maioria da agricultura do Caribe é de sequeiro. Com o uso cada vez mais generalizado de risco no Caribe, o fornecimento de água doce dos países será cada vez mais importante.

A seca pode afetar o setor agrícola de várias maneiras, mediante a redução dos rendimentos dos cultivos e a produtividade, ou causando a morte prematura do gado e de aves de criação. Um período de seca de apenas 7 a 10 dias pode resultar em uma redução de rendimentos, influenciando as condições de vida dos agricultores.

Os agricultores, especialmente os agricultores familiares, são mais vulneráveis às secas. A falta de precipitações ameaça os meios de vida se os cultivos são sequeiros, além de que os baixos níveis de água aumentam os custos de produção devido ao aumento da irrigação.

A seca afeta o valor nutricional das áreas de pastagem de gado, já espécies tolerantes a seca, de menor qualidade, começam a dominar, aumentando a vulnerabilidade do gado. A seca também aumentar o risco de doenças do gado.

Os mais pobres também são vulneráveis já que frequentemente as secas estão associadas à elevação dos preços dos alimentos. A água dessalinizada, mais cara, torna-se uma fonte de abastecimento de água cada vez mais importante no Caribe, e representa até 70% do abastecimento em Antígua e Barbuda, o que pode afetar significativamente os mais pobres.

As comunidades rurais são vulneráveis, já que as redes de água são atingidas de maneira mais forte durante a seca, e as crianças enfrentam riscos maiores de abastecimento inadequado de água durante a seca.

As alterações climáticas colocam novos desafios

Os desastres naturais que ocorrem com maior frequência no Caribe estão relacionados com o clima, e os efeitos podem aumentar devido às mudanças climáticas. A vulnerabilidade da região aos perigos relacionados com o clima se manifesta nas perdas de vidas, econômicas e financeiras anuais produto de fortes ventos, inundações e secas.

Entre 1970 e 2000, o Caribe sofreu perdas diretas e indiretas estimadas entre 700 milhões e 3,3 bilhões de dólares devido a desastres naturais associados aos fenômenos meteorológicos e climáticos.

Até o momento, o Caribe concentrou a atenção principalmente nas inundações e tempestades, e carece atualmente de uma governança efetiva, recursos humanos e financeiros necessários para enfrentar com eficácia os problemas da seca. 

Também sofre deficiências na coordenação em âmbito nacional, na formulação e planificação de políticas. Alguns programas regionais e nacionais começam a dar respostas para aumentar a resiliência diante dos efeitos das secas, mas muitos deles ainda estão na fase de rascunho e requerem revisão ou estão sendo mal implementados.

A grave seca que ocorreu entre 2009-2010 obrigou a região a reagir. A pior seca em mais de 40 anos gerou uma significativa escassez de água na região que ocasionou perdas na agricultura e em outros setores econômicos chave, afetando muitos meios de vida.

Essa realidade obrigou a região a reconsiderar, particularmente a luz das mudanças climáticas, um Caribe mais seco de hoje ao final do ano como um desastre que requer planejamento e que deve ser gerido de maneira mais estratégica. 

Os marcos regionais representam o primeiro passo

Os três marcos mais relevantes para a gestão da seca na região são: o Marco Estratégico de Gestão Integrada de Desastres; o Marco Regional da CARICOM para o Alcance de um Desenvolvimento Resiliente às mudanças climáticas 2011-2021; e a Iniciativa Jagdeo. A região conta ainda com a Rede de Monitoramento da Seca e Precipitação do Caribe (CDPMN, na sigla em inglês) criada em 2009, após a grave seca registrada na época.

No entanto, a necessidade mais urgente é que os países desenvolvam fortes iniciativas regionais. De acordo com o estudo da FAO, atualmente a formulação de políticas e o planejamento para combater a seca enfrentam obstáculos devido a uma governança débil, falta de financiamento e uma gestão de terra mal coordenada.

“Esses problemas podem ser superados por uma forte vontade política que exige a participação de todos os atores sociais nos processos políticos e de planejamento, o que vai permitir o desenvolvimento sustentável de abastecimento de água para enfrentar os desafios futuros”, disse Ford.