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LEITURAS CHAVE (continue)

O Papel Central da Biodiversidade Agrícola
Tendências e Desafios

Lori Ann Thrupp (2003)

Os padrões predominantes de crescimento da agricultura têm causado a erosão da biodiversidade nos ecossistemas agrários incluindo dos recursos genéticos das plantas, gado, insectos e organismos do solo. Esta erosão tem provocado perdas económicas, pondo em causa a produtividade e a segurança dos alimentos, e conduzindo a custos sociais alargados. É igualmente alarmante a perda da biodiversidade nos habitats “naturais” devido à expansão da produção agrícola a áreas de fronteira.

Os sistemas tradicionais de agroflorestação normalmente contêm mais de 100 espécies anuais e perenes de plantas por cada campo. Os agricultores por vezes integram árvores leguminosas, árvores de fruto e árvores para lenha que proporcionam forragem às suas quintas de café. As árvores também proporcionam um habitat para os pássaros e animais que beneficiam as quintas. Uma plantação de café com sombra no México pode conter até 180 espécies de pássaros que ajudam no controlo de pestes de insectos e a dispersar as sementes.

Os conflitos entre a agricultura e a biodiversidade não são de forma nenhuma inevitáveis. Mas, podem ser solucionados através da prática de uma agricultura sustentável e de transformações nas instituições e nas políticas agrícolas. A manutenção da biodiversidade tem que ser incorporada nas práticas agrícolas - esta é uma estratégia que pode ter múltiplos benefícios ecológicos e socioeconómicos, particularmente na garantia da segurança dos alimentos. São necessárias práticas que aumentem e conservem a biodiversidade agrícola a todos os níveis.

Estudos realizados na área da etnobotânica demonstraram que os Maias Tzeltal do México conseguem reconhecer mais de 1200 espécies de plantas, os P'urepechas reconheceram mais de 900 espécies e os Maias do Yucatan por volta de 500. Este tipo de conhecimento é usado na tomada de decisões de produção.

Este trabalho pretende analisar os serviços do ecossistema proporcionados pela biodiversidade agrícola, e tenciona por em evidência as políticas, e práticas que enaltecem a diversidade nos agroecossistemas.

Nos inícios do século XX, N. Vavilov, um botânico russo de renome, levou a cabo pesquisas pioneiras nesta área, coleccionou plantas de forma sistemática e era apologista da conservação da diversidade de cultivo. Vavilov desenvolveu uma teoria sobre a origem do cultivo doméstico e liderou inúmeras expedições por todo o mundo com o objectivo de recolher plasma de germinação das colheitas. Criou um enorme banco de sementes em S. Peterburgo que hoje contém por volta de 380.000 espécies de mais de 180 locais de todo o mundo. Vavilov identificou, também, as áreas de maior concentração de diversidade de cultivo pelo mundo, a maioria das quais se situava em países desenvolvidos.

Mudar as tendências no desenvolvimento da agricultura e as suas ligações à Biodiversidade

As Variedades de Alto-Rendimento (VAR) -ou “sementes milagreiras” - são, hoje, semeadas numa grande percentagem de terra agrícolas - 52% do trigo, 54% do arroz, e 51% do milho. A utilização de VARs aumentou a produção em muitas regiões e por vezes reduziu a pressão exercida sobre os habitats refreando a necessidade de cultivar novas terras.

Perdas de Biodiversidade agrícola: Conflitos e Efeitos

As relações entre a agricultura e a biodiversidade têm-se modificado ao longo dos tempos. Um aumento da produção e da produtividade da agricultura nos últimos 30 anos, advém tanto da expansão da área cultivada (extensificação) como do aumento dos resultados por unidade de terra (intensificação). Isto foi possível devido a melhoramentos tecnológicos, e ao aperfeiçoamento das variedades e da administração dos recursos biológicos, como o solo ou a água. Os serviços do ecossistema proporcionados pela biodiversidade agrícola têm degradado e consequentemente minado a saúde do ecossistema.

Estas tendências gerais da agricultura e da biodiversidade foram moldadas por pressões demográficas, inclusivamente pelas elevadas taxas de crescimento populacional, pela migração de pessoas para zonas fronteiriças, e por desequilíbrios na distribuição da população. Outras forças adicionais de influência incluem os paradigmas predominantes da agricultura industrial e da Revolução Verde que teve início nos anos 60. Estas abordagens geralmente enfatizam a maximização do rendimento por unidade de terra, a uniformização das variedades, a redução das culturas múltiplas, a estandardização dos sistemas agrícolas (particularmente a geração e promoção de variedades de alto-rendimento), e a utilização de químicos agrários. As empresas de sementes e de químicos agrários também têm influenciado estas tendências. Embora os padrões predominantes de desenvolvimento da agricultura nas últimas décadas tenham aumentado os rendimentos, também reduziram significativamente a diversidade genética das culturas e das variedades de gado e dos agroecossistemas, e conduziram a perdas noutros tipos de biodiversidade.

Embora as pessoas consumam aproximadamente 7.000 espécies de plantas, apenas 150 dessas são comercialmente importantes e cerca de 103 espécies perfazem 90 porcento das culturas alimentares no mundo. Três culturas - arroz, trigo e milho - perfazem 60 porcento das calorias e 56 porcento das proteínas derivadas de plantas. O gado também está a sofrer uma erosão genética. Os dados da Organização para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas mostram que:
Pelo menos uma raça de gado tradicional extingue-se todas as semanas, num contexto global;
Das 3.831 espécies de gado bovino, búfalos, cabras, porcos, ovelhas, cavalos e burros que se acreditava existirem neste século, 16 % já se extinguiu e 15% são considerados raros;
Cerca de 474 espécies de gado são consideradas raras, e cerca de 617 já se extinguiram desde 1892; e
Mais de 80 raças de gado bovino encontram-se em África mas, algumas estão a ser substituídas por raças exóticas. Estas perdas enfraquecem os programas de criação que poderiam melhorar a robustez do gado.

À medida que é causada erosão da biodiversidade, a segurança dos produtos alimentares também pode ser reduzida e os riscos económicos inflacionados. As evidências indicam que tais mudanças diminuem a sustentabilidade e produtividade dos sistemas agrários. A perda da diversidade pode também reduzir os recursos disponíveis para uma futura adaptação.

Aumento da Vulnerabilidade a Pestes de Insectos e a Doenças

De entre os famosos exemplos de culturas vulneráveis a pestes e doenças, a fome da batata na Irlanda o século XIX, a devastação das vinhas tanto em França como nos EUA, uma doença virulenta (Sigatoka) que danificou extensas plantações de banana na América Central nas últimas décadas e o mofo devastador que infestou o milho híbrido na Zâmbia são disso exemplo.

A homogeneização genética das variedades aumenta a vulnerabilidade a pestes de insectos, o que pode dizimar uma cultura, especialmente em grandes plantações. A história tem demonstrado que há grandes perdas económicas quando se conta apenas com uma variedade monocultural uniforme.

Também se demonstrou um sério declínio dos organismos e dos nutrientes do solo. Insectos e fungos benéficos têm também sofrido grandemente com os pesticidas e com a uniformização das espécies - o que torna as culturas mais susceptíveis a problemas de pestes. Estas perdas, juntamente com uma diminuição dos tipos de agroecossistemas, aumentam os riscos e reduzem a produtividade. Para além disto, muitos insectos e fungos que normalmente parecem inimigos da produção de alimentos são na verdade muito valiosos. Alguns insectos beneficiam a agricultura - devido à polinização, à sua contribuição com biomassa, à produção de nutrientes naturais e à reciclagem, e como inimigos das pestes de insectos e de doenças das culturas. Mycorhizae, um fungo que vive em simbiose com as raízes das plantas, é essencial para a absorção dos nutrientes e da água.

A proliferação global dos sistemas modernos de agricultura tem diminuído o alcance dos insectos e dos fungos, uma tendência que diminui a produtividade. A dependência de químicos agrários, e em particular o uso ou mau uso excessivo de pesticidas é grandemente responsável por esta situação. Os químicos agrários geralmente matam não só os inimigos naturais e os insectos benéficos como também as pestes “alvo”.

Este distúrbio no equilíbrio dos agroecosistema pode levar ao ressurgimento perpétuo de pestes e ao aparecimento de novas pestes, tal como à resistência a pesticidas. Este ciclo disruptivo pode, por vezes, levar os agricultores a aplicarem cada vez mais quantidades de pesticidas ou a mudar os tipos de produtos - uma estratégia que não só é ineficaz, como também pode perturbar ainda mais o ecossistema e aumentar os custos. Este trabalho monótono com pesticidas em surgido em inúmeros locais. A dependência de espécies monoculturais e o declínio dos habitats naturais também pode excluir os insectos benéficos dos ecossistemas agrários.

Perdas Adicionais - Habitats, Nutrição e Conhecimentos

A expansão da agricultura também tem reduzido a diversidade dos habitats naturais, inclusivamente das florestas tropicais, pastagens, e áreas de terras húmidas. As projecções sobre as necessidades alimentares nas próximas décadas indicam uma provável continuação da expansão da área cultivada, o que pode agravar esta degradação. É necessária a modificação dos sistemas naturais de forma a satisfazer as necessidades alimentares das populações em crescimento, mas muitas das formas convencionais de desenvolvimento da agricultura, em particular a conversão em larga escala das florestas ou outros habitats naturais em sistemas de cultivo monoculturais, têm provocado a erosão da biodiversidade da flora e da fauna. A utilização intensiva de pesticidas e fertilizantes também causar a erosão dos habitats naturais e dos ecossistemas que circundam as áreas agrícolas, principalmente quando são usados de forma inapropriada.

Outros efeitos directos da redução da diversidade de culturas e de variedades incluem:

Confrontação das Causas

A humanidade enfrenta um grande desafio para ultrapassar os conflitos e produzir complementaridades entre a agricultura e a biodiversidade. Enfrentar estes desafios requer o confronto com os motivos base para a perda de biodiversidade agrária, o que obriga à mudança das práticas, paradigmas e politicas, bem como a compromissos das instituições e governos.

Pensar em novas soluções eficazes requer um confronto com as causas da perda de biodiversidade agrícola. As causas variam sob diferentes condições, mas geralmente relacionam-se com a utilização de tecnologias insustentáveis e práticas que degradam a utilização das terras, tal como a utilização de variedades uniformes e o uso excessivo de químicos agrários. Mais especificamente, as causas responsáveis pela erosão da biodiversidade agrária relacionam-se com pressões demográficas, disparidades na distribuição de recursos, o domínio de politicas industriais agrícolas e instituições que suportam e contribuem para práticas inapropriadas, pressões para o negócio que promovem a utilização de monoculturas uniformizadas e de químicos, a depreciação e desvalorização da diversidade e do conhecimento local e as exigências dos consumidores e do mercado por produtos estandardizados. De entre estas forças condutoras, as que provavelmente são mais complicadas são as pressões demográficas que levam à extensificação do cultivo a áreas fronteiriças. A mudança destes padrões exige transformações nas políticas de utilização das terras, e mudanças socioeconómicas mais extensas que proporcionem mais oportunidades económicas e educacionais a populações rurais mais pobres. Estes desafios a longo prazo necessitam que lhes seja dada mais atenção.

Diversidade através da Agricultura Sustentável: Princípios e Práticas

Para se poderem concretizar tais transformações de forma a conseguir a conservação e o aumento da biodiversidade agrícola, os princípios estratégicos que se seguem são de extrema importância:

  1. A aplicação de princípios agroecológicos ajuda a conservação, utilização e aumento da biodiversidade nas quintas e pode aumentar a produtividade sustentável e a intensificação, o que irá evitar a extensificação, reduzindo assim a pressão para biodiversidade nas quintas;

  2. A participação e o aumento dos poderes dos agricultores e dos povos locais, e a protecção dos seus direitos, são uma forma importante de conservar a biodiversidade agrícola em termos de pesquisa e desenvolvimento;

  3. A adaptação dos métodos às condições agroecológicas e socio-económicas locais, a reconstrução de métodos já existentes e implementados com sucesso e o conhecimento local, são essenciais para o estabelecimento de uma relação entre a biodiversidade e a agricultura, de forma a satisfazer as necessidades de subsistência;

  4. A conservação dos recursos genéticos das plantas e dos animais - especialmente os esforços in situ - ajudam a proteger a biodiversidade de forma a assegurar a subsistência actual, tal como das futuras necessidades e funções do ecossistema;

  5. Investigações genéticas reformadoras e programas de criação são essenciais para o aumento da biodiversidade agrícola e podem também acarretar benefícios para a produção, e

  6. A criação de uma politica ambiental de suporte - incluindo a eliminação dos incentivos para as variedades uniformizadas e para os pesticidas, e a implementação de politicas que assegurem a obtenção e os direitos locais a recursos genéticos das plantas - é vital para o aumento da biodiversidade agrícola e a segurança dos alimentos.

As práticas de fertilização do solo e dos ciclos de nutrientes também podem ser utilizados para o incremento da biodiversidade agrícola. Bons exemplos disto são:

Possíveis perdasGrãos NaturaisOpções de Gestão
1Erosã6Chuva11Espécies de Madeira
2Volatilização7Fixação do N12Concentrados/de comida/minerais
3Lexiviagem8Expor ao a13Reciclagem (pelo gado, composto, bio gás, lodo, etc.)
4Exportação (mercado/prendas9Sedimentos/Pó14Inputs externos
5Recolha de lixos10Algas Azul-verde  

Estes tipos de práticas de gestão do solo têm-se provado eficazes e lucrativas numa grande variedade de sistemas agrícolas. A agroflorestação ilustra a “melhor prática” de utilização da biodiversidade agrícola o que pode também trazer vários benefícios. Em muitos contextos, a integração de árvores nos sistemas agrícolas é altamente eficaz, ajuda à conservação do solo e à retenção da água. (Na Sumatra Oeste, hortas de agroflorestação ocupam entre 50 e 85 porcento do total da área destinada à agricultura.) As formas complexas de agroflorestação exibem estruturas semelhantes a florestas, também contém uma grande diversidade de animais e plantas, combinando a conservação e a utilização dos recursos naturais.

Os sistemas de agroflorestação na sua forma tradicional são também o abrigo para centenas de espécies de plantas, que constituem uma forma valiosa de conservação in situ. Muitas das práticas aqui mencionadas servem múltiplos propósitos. Por exemplo, a mistura de culturas proporciona uma melhor gestão de pestes e do solo e aumenta, também, o rendimento. Por exemplo, cerca de 70–90 por cento dos feijões e 60 por cento do milho na América do Sul são misturados com outras culturas. Os agricultores em muitas partes do mundo já reconheceram que tal diversidade é uma fonte valiosa de nutrientes, nutrição, e de redução dos riscos - essencial para o sustento e para outros valores económicos.

É um erro comum achar-se que a biodiversidade agrícola é apenas exequível em terras de pequena dimensão. De facto, a experiência tem demonstrado que sistemas de grande produção também beneficiam com estes princípios e estas práticas.

A rotação de culturas, a mistura de culturas, técnicas integradas de controlo de pestes, e estrumes ecológicos são os métodos que estão a ser mais comummente utilizados em grandes sistemas comerciais, tanto no Norte como no Sul. Estas situações ilustram as abordagens sustentáveis à intensificação. Encontram-se exemplos disto nas plantações de chá e café nos trópicos, e em vinhas e pomares nas zonas temperadas. Na maioria dos enquadramentos de grande escala, a mudança de uma estrutura de monocultura para sistemas e práticas diversificadas acarreta custos de transição, e por vezes perdas de lucro e de trocas de benefícios (trade-offs) durante os primeiros dois a três anos. No entanto, após uma fase inicial de transição, os produtores têm vindo a considerar que as mudanças agroecológicas são lucrativas e ecologicamente sãs para a produção comercial e que apresentam novas oportunidades de valor.

Utilização de Abordagens Participativas

A incorporação dos conhecimentos, práticas, e experiências dos agricultores locais são vantajosas para a biodiversidade agrícola e para uma agricultura sustentável. As experiências têm demonstrado que o total envolvimento das práticas agrícolas locais na investigação e desenvolvimento da agricultura - através da participação e liderança dos povos locais - tem tido resultados positivos. È também importante adicionar aos métodos de experimentação informais dos próprios agricultores, práticas e culturas que não lhes são familiares. No México, por exemplo, os investigadores trabalharam com os locais no sentido de recriar chinampas - hortas com múltiplas culturas e com espécies diversificadas desenvolvidas a partir de terras reclamadas a lagos que eram nativas a regiões de Tabasco e faziam parte da tradição Pré-Hispanica. Um projecto similar foi realizado em Veracruz que também incorporava um sistema tradicional Asiático de agricultura mista, misturando chinampas com administração animal, e aquaculturas. Estas hortas também fizeram uma utilização mais proveitosa dos recursos locais, e a integração de desperdícios animais e de plantas, como fertilizantes. As colheitas destes sistemas igualam ou ultrapassam as dos sistemas convencionais.

No Burkina-Faso, por outro lado, a conservação do solo e o projecto de culturas integradas na província de Yatenga baseou-se largamente nas tecnologias indígenas dos agricultores Dogon no Mali para a construção de barreiras de pedra para impedir a passagem da água. O projecto acrescentou barreiras inovadoras ao longo das linhas de contorno - e recuperou uma técnica indígena chamada “zai”, que consiste na adição de um composto nos buracos onde são semeados milho miúdo, sorgo, e amendoim. Estas culturas estão num sistema de multiculturas.

Nestes esforços, a total participação das mulheres traz benefícios significativos. Como administradoras da biodiversidade nos sistemas de agricultura em muitas áreas no mundo, as mulheres podem trazer importantes contribuições e têm um papel importante na pesquisa, desenvolvimento e conservação da biodiversidade agrícola. No Ruanda, por exemplo, num projecto de criação de plantas do CIAT (Centro Internacional para a Agricultura Tropical), os cientistas trabalharam com mulheres agricultoras nas fases iniciais do projecto de criação de novas variedades de feijões que se adeqúem às necessidades dos locais. Juntos, identificaram as características desejadas para o melhoramento dos feijões, realizaram experiências, organizaram e avaliaram testes, e tomaram decisões baseadas nos resultados dos testes. As experiências tiveram resultados surpreendentes: as variedades seleccionadas e testadas pelas mulheres agricultoras durante quatro estações obtiveram 64 a 89% melhores resultados que as misturas dos cientistas. As selecções das mulheres também produziram substancialmente mais feijões, com um aumento médio de produção que atingiu os 38 por cento.

O desenvolvimento de abordagens participativas requer medidas deliberadas, treino, e tempo para mudar as abordagens tradicionais de agricultura de pesquisa e desenvolvimento.

Mudanças Politicas e Institucionais

Embora muitas instituições estejam já activamente envolvidas, é necessário um maior trabalho de coordenação a todos os níveis para assegurar reformas eficazes e politicas de conservação da biodiversidade agrícola que beneficiem o público, especialmente os pobres. São necessárias transformações políticas que ataquem as raízes dos problemas e assegurem os direitos das pessoas. Ideias que necessitam de uma maior atenção:

A construção de uma complementaridade entre a agricultura e a biodiversidade irá também requerer mudanças na pesquisa e desenvolvimento na agricultura, utilização de terrenos, e abordagens à criação/reprodução.

Esforços no sentido da conservação e aumento da biodiversidade agrícola também tem que ter em conta as politicas que aceleram as suas perdas. Politicas mais abrangentes e as estruturas institucionais focam-se na conservação da biodiversidade agrícola que conduzem a transformações práticas e ao nível do terreno. Muitas iniciativas políticas de iniciativa e de instituições já se propuseram a abordar estas questões.

Informações produzidas por CIP-UPWARO
Em parceria com GTZ GmbH, IDRC do Canadá, IPGRI e SEARICE.
Contribuição de Ann Thrupp (email: athrupp@igc.org)
Adptado de Thrupp, L, 1998. Cultivar Diversidade, Agrobiodiversidade e segurança dos Alimentos, Instituto dos Recursos
Mundiais, Washington, DC, USA

O Género na Conservação da Biodiversidade agrícola

Åsa Torkelsson (2003)

O desenvolvimento de respostas será mais igualitário, eficaz e sustentável quando o género tiver um papel mais central nas estratégias para a conservação da biodiversidade agrícola

O género refere-se aos papéis e relações socialmente construídas entre homens e mulheres e que podem transformar-se e variar no tempo e de acordo com as localizações geográficas e o contexto social. Centralizar o género é um processo de avaliação das implicações de todas as acções planeadas para as mulheres e para os homens. È a integração das preocupações das mulheres e dos homens nas suas experiências, no planeamento, implementação, monitorização e avaliação das políticas e dos programas em todas as esferas politicas, económicas e sociais, de forma a ambos participarem e beneficiarem de igual modo.

Benefícios da Centralidade do Género

Igualdade. Muitos mandatos e compromissos dos estados membros das Nações Unidas existem com o propósito de conseguir uma igualdade entre os géneros e eliminar a discriminação baseada no género. Isto tem sido reconhecido como um meio necessário para conseguir atingir os Objectivos para o Desenvolvimento do Milénio de redução a metade dos números de pessoas pobres e com fome no ano 2015.

O Capitulo 15 da Agenda 21 e a Convenção da Diversidade Biológica (CDB) reconhece que diferentes grupos de utilizadores nas sociedades rurais têm diferentes obrigações e oportunidades para a conservação e utilização dos recursos genéticos das plantas.

Eficácia. As sociedades que discriminam com base no género pagam um preço significativo - em termos do aumento da pobreza, de um crescimento económico mais lento, uma governação mais fraca e uma qualidade de vida mais baixa. Por exemplo, uma revisão do Banco Mundial reconheceu que 74% de 54 dos projectos completos de agricultura com acções de relação entre os géneros foram globalmente classificadas como satisfatórias, comparativamente a 65% dos 81 projectos que não incluiam acções relacionadas com os géneros.

Sustentabilidade. Já se tem demonstrado que as mulheres estão intimamente relacionadas com o ambiente devido a preocupações com as suas comunidades e com as gerações futuras, e algumas pessoas argumentam que as mulheres têm um papel central no paradigma da sustentabilidade. De maneira a formular politicas e projectos para o desenvolvimento da sustentabilidade é crucial que sejam compreendidos os diferentes papéis e responsabilidades dos homens e das mulheres na implementação sustentável destas actividades.

O Género na Conservação da Biodiversidade agrícola

Irão ser discutidas algumas áreas chave em que o género faz a diferença na conservação da biodiversidade agrícola.

Papéis na Selecção das Sementes

O factor género na selecção de sementes é variável. Nalgumas áreas, os homens são totalmente responsáveis pela selecção das colheitas, enquanto que noutras áreas, esta tarefa é inteiramente assumida pelas mulheres. Noutros casos, existe uma partilha de responsabilidades.

Na comunidade Kurichiyas de Kerala, Índia, os homens tomam as decisões sobre o cultivo de certas variedades de arroz com casca devido às suas concepções religiosas (de pureza e poluição) que impossibilitam as mulheres de participar na selecção e armazenamento das sementes de arroz com casca. Os homens são normalmente responsáveis por sistemas de monoculturas e as mulheres por sistemas mais diversificados como são as hortas domésticas. Estes sistemas diversificados são reconhecidos pela comunidade como “bancos de genes vivos” que são utilizados para conservação in situ e uma grande variedade de recursos genéticos de plantas.

Acesso aos Recursos

Devido à partilha de responsabilidades, muitas vezes as mulheres são responsáveis pelas culturas de subsistência (de menor valor) e os homens pelas culturas que trazem dinheiro (grande valor). Se se aumentar o valor de uma “cultura das mulheres”, ela pode-se tornar numa “cultura dos homens”.

Quando, no Quénia, o cultivo do feijão francês de tornou mais lucrativo, os homens usurparam as terras ou os rendimentos derivados das produções. Quando o valor comercial da madeira das Acácias subiu em partes da Africa Ocidental, os homens começaram a plantar Acácias nas hortas das mulheres ou nos seus terrenos.

Os sistemas de conhecimentos e o Acesso ao trabalho

As mulheres e os homens participam de forma diferente nas organizações formais e informais da comunidade, e usam diferentes redes de trabalho para a troca de sementes para a biodiversidade agrícola. No Nepal, por exemplo, as variedades tradicionais são trazidas para uma determinada área pela noiva aquando do seu casamento. As mulheres fazem essencialmente trocas com outras mulheres e os homens com os homens.

Como resultado da escolarização formal ou da migração, os conhecimentos indígenas entre os homens têm diminuído no Quénia, enquanto que as mulheres partilham mais conhecimentos e de uma forma mais vasta e por vezes adquirem até os conhecimentos dos homens à medida que os papéis e os deveres se modificam.

No entanto, o conhecimento das gerações mais velhas por vezes já não é transmitido às gerações mais novas.

Método

Os descritores - ou traços preferidos - da biodiversidade agrícola local das mulheres e dos homens proporcionam uma compreensão e uma monitorização produtiva, inovadora e sistemática dos factores relacionados com o género na conservação da biodiversidade agrícola. Os descritores são dinâmicos e podem transformar-se consoante a percepção do agricultor dos termos do negócio, as transformações culturais e as variações globais de oportunidades e impedimentos. Os detalhes quantitativos e qualitativos irão proporcionar um melhor conhecimento dos homens e das mulheres e da sua divisão do trabalho. Os descritores irão, ainda, revelar a forma como os homens e as mulheres percepcionam a utilidade da variabilidade e a sua distribuição.

Mesmo que os homens tenham a autoridade para tomar as decisões na maioria dos sistemas agrícolas, o facto de as mulheres terem um conhecimento mas detalhado e intimo das culturas e das suas variedades indica uma maior experiência.

As características agro-morfológicas e sócio-económicas podem ser classificadas em conjunto com os agricultores. Qualitativamente, a análise pode ser alargada de forma a incluir as descrições usadas ao longo do tempo para descrever uma dada variedade. O nível do conhecimento das características das variedades não está só correlacionado com a experiência de manejamento destas (conhecimento e divisão das responsabilidades), mas também com o tipo de descritores usados para identificar os benefícios percepcionados.

As mulheres parecem ter mais em conta critérios interrelacionados e detalhados como o sabor, a cor, o tamanho, a textura, o tempo que demora a cozinhar, a produção da cultura, a facilidade de processamento e de acesso, a formação dos grãos e a resistência a pestes e a insectos. Contrariamente a estas, os agricultores masculinos têm em conta uma variedade mais limitada de propósitos relacionados com a sua esfera de responsabilidades como o alto rendimento e o bom preço no mercado.

INDICADORES SÓCIO-ECONÓMICOS E SENSÍVEIS AO GÉNERO (SESG)
Dados SESG requeridos:
O tipo e numero de descritores usados para um dado recurso natural fornecidos por mulheres quando comparados com a linha de base.
O tipo e numero de descritores usados para um dado recurso natural fornecidos por homens quando comparados com a linha de base.
Indicadores SESG:
A proporção entre o numero de descritores usados por mulheres para um dado recurso natural, quando comparado com os descritores usados por homens para um dado recurso natural, e comparado com o tipo base.

Assim como as raças locais evoluíram ao longo do tempo e têm sido seleccionados com base nos traços preferenciais dos campos dos agricultores, a conservação in situ ó será bem sucedida se os homens e as mulheres se envolverem em actividades de conservação. O seu envolvimento só será possível se este processo lhes trouxer benefícios. No entanto, não é fácil envolvê-los em todos os aspectos, principalmente as mulheres que podem ter impedimentos que irão restringir a sua participação. Uma das formas de lidar com esta situação é o planeamento de estratégias para ultrapassar estes impedimentos. Conferências de preparação anteriores aos workshops comunitários, o facto de as instituições prestarem cuidados às crianças durante as sessões de formação, ou ter essas mesmas sessões de treino perto dos lares dessas mulheres são esforços que valem a pena ser considerados de forma a encorajar a participação de todos.

Referências

Dolan, C.S. 2001. The “Good Wife”: Struggles Over Resources in the Kenyan Horticultural Sector. The Journal of Development Studies. London, England.

Eyzaguirre, P. (Ed). 2001. Growing Diversity, “Handbook for Applying Ethnobotany to Conservation and Community Development”. In: People and Plants Handbook, September 2001, Issue 7. IPGRI, Rome, Italy.

Ramprasad, V. 1999. Women Guard the Sacred Seeds of Biodiversity. In: Centre for Research and Information on Low External Input and Sustainable Agriculture (ILEIA)Newsletter Vol. 15, No. 3/4, December 1999. The Netherlands. Available at: www.ileia.org/2/nl15–34.html. expanded version in www.etcint.org/compas_newsl.htm.

Informações produzidas por CIP-UPWARO em parceria com GTZ GmbH, IDRC do Canadá, IPGRI e SEA RICE.

Contribuição de Ann Thrupp (email: athrupp@igc.org)

Adptado de Thrupp, L, 1998. Cultivando Diversidade, Agrobiodiversidade e Segurança Alimentar, Instituto dos Recursos Mundiais, Washington, DC, USA

Contribuição ASATorkelsson (email: a.torkelsson@ifad.org)

Relações de género, horticultura comercial e ameaças à diversidade de plantas no Mali rural

Stephen Wooten (2003)

SECÇÃO VS. GÉNERO, PERDA DA BIODIVERSIDADE E CONSERVAÇÃO

Numa comunidade de agricultores do Bamana no Mali, os dois homens mais velhos, Nene e Shimbon Jara, relataram que os seus pais se encontravam entre as primeiras pessoas da região a produzir frutos e vegetais exóticos para venda. Contaram que no início dos anos 60, estes homens empreendedores começaram a cultivar bananas e tomates nas terras baixas junto ao riacho nas áreas à volta da comunidade. As suas actividades eram uma resposta a uma crescente procura de produtos frescos da parte das elites urbanas da capital, que se situava perto, Bamako. Com o tempo, os homens mais novos começaram a limpar e a incorporar, aquilo a que Nene se refere como, “áreas não usadas”. A jardinagem de mercado (o cultivo de frutas e vegetais para venda) tem-se tornado desde então uma das formas de gerar rendimentos pessoais dentro da comunidade.

Embora os comentários de Nene e de outros anciãos tenham proporcionado uma perspectiva importante do desenvolvimento das actividades de jardinagem comercial na comunidade, elas contrastam com as perspectivas históricas proporcionadas pelas mulheres locais-especialmente no que diz respeito à ideia de que as terras de jardinagem não estavam a ser “usadas”. De facto, as mulheres mais velhas relatam que, antes do desenvolvimento das áreas do vale para actividades de jardinagem comercial, as mulheres já tinham de facto cultivado e colhido plantas tradicionais em pelo menos algumas destas áreas. Por exemplo, Wilene Diallo, a mulher mais velha da comunidade, disse que ela e outras esposas da aldeia usavam estas áreas para o cultivo tradicional de vegetais para os seus molhos. Um horticultor contemporâneo de meia-idade, Mamari Jara, referiu que as grandes transformações no domínio da jardinagem ocorreram no decorrer da sua vida. O que foi antes considerado uma actividade das mulheres é agora um assunto dos homens, e as culturas comercialmente valiosas e exóticas substituíram as culturas tradicionais dos nichos de jardinagem.

Este capítulo vai examinar as transformações na natureza das actividades de jardinagem na comunidade de Bamana no Mali rural. Utilizando dados etnográficos recolhidos no terreno entre 1992 e 1998, serão descritas as transformações na jardinagem, passando de uma actividade de subsistência associada às mulheres para uma empresa comercial em que há uma predominância dos homens. Serão documentados os contornos do sector contemporâneo de jardinagem comercial, demonstrando que os homens são os principais actores e revelando o seu foco no cultivo de frutas e vegetais não locais. Este trabalho aborda as implicações que esta mudança na produção hortícola teve na capacidade que as mulheres detêm para fazer cumprir as suas obrigações no lar em termos da produção do molho, e identificará as potenciais ameaças à diversidade de plantas locais e à estabilidade global ambiental que é provável que venham a ser o resultado deste processo.

O contexto

Niamakoroni é uma comunidade agrícola localizada nos Planaltos Mande na zona central do Sul do Mali, aproximadamente a 35 quilómetros de Bamako. O colonato nuclear consiste numa série de estruturas em tijolos adobe muito juntas a que estão associadas às árvores de sombras. De acordo com os anciãos da comunidade, o colonato foi fundado no final do século XIX quando um segmento da linhagem de uma comunidade próxima se mudou para aqui de forma a ter acesso a terras cultiváveis. Os residentes contemporâneos de Niamakoroni, tal como os seus predecessores, afirmam ter uma identidade étnica Bamana (Bambara)

Como é o caso na maioria das comunidades Bamana, as pessoas de Niamakoroni vivem numa comunidade pequena e muito próxima (Becker, 1990, Lewis, 1979, Toulmin, 1992). Durante os anos de 1993–94, a comunidade tinha um total de 184 residentes. A descendência em Niamakoroni é considerada de forma patriarcal e o controlo dos recursos de produção é geralmente do tipo corporativo.

A idade e o sexo são características importantes nos contextos sociais, políticos e económicos, com os mais velhos a dominarem os mais novos e tipicamente os homens detêm o poder. Becker (1990: 315) refere-se a isto como uma “gerontocracia patriarcal”. O padrão dominante de residência é patrilocal (as mulheres mudam-se para as residências dos seus maridos quando casam), e os casamentos são frequentemente poligâmicos. Na comunidade o principal grupo doméstico (unidade de residência, produção e consumo de alimentos) designa-se por du (duw, plural), no dialecto Bamana (Bamanankan).

Os duw de Niamakoroni são multigeracionais, famílias conjuntas nas quais os indivíduos do sexo masculino mais novos e as suas esposas e as suas famílias vivem e trabalham, tipicamente sob a autoridade do membro mais velho do grupo, o dutigi. Sendo os membros sénior das suas linhagens, os dugiti, que têm acesso às terras altas e aráveis e detêm a autoridade para dirigir o trabalho dos que vivem com eles num sistema de subsistência. Os membros de cada du vivem perto uns dos outros e partilham as suas refeições ao longo do ano. As mulheres da comunidade são responsáveis pelo processamento da comida e por cozinhar, bem como por todas as tarefas domésticas. Tipicamente, os homens têm poucas obrigações domésticas para além da construção e manutenção das casas (ver também Creevey, 1986; Thiam, 1986). Esta óbvia divisão do trabalho por géneros caracteriza, também, uma vasta comunidade agrária.

Os domínios de cada género na Economia da Alimentação

Em Niamakoroni, a maioria das, relativamente raras, chuvas (900–1200 por ano) caem num curto período de tempo de três a quatro meses, desde Junho até Setembro. As pessoas dependem da chuva para a sua agricultura de subsistência e como tal trabalham diligentemente durante estes poucos meses de forma a satisfazerem a maioria das suas necessidades alimentares. Em cada época de chuvas a grande maioria dos indivíduos em idade e com capacidade para trabalhar focalizam as suas energias produtivas no cultivo ou colheita de alimentos, ao qual se referem como actividades ka balo (para a vida). Relações entre os géneros na produção e nos domínios de experiência e conhecimentos marcam de forma muito clara o processo de produção de alimentos. Os homens de cada lar trabalham colectivamente no seu campo principal do seu grupo nas terras altas (foroba), que se situa nas áreas de mato pelo menos a alguns quilómetros da povoação. Aqui, eles produzem as suas colheitas básicas que incluem sorgo (nyo - Sorhum bicolor), milhete (sanyo - Pennisetum glaucum), milho (kaba - Zea mays), ervilhas (sho - Vigna unguiculata), amendoins (tiga -Arachis hypogaea) nozes de Bambara (tiganinkuru - Voandzeia subterranea). Como é o caso na maior parte da região, sorgo e o milhete ocupam a maior área arada (PIRL1988).

As mulheres, por outro lado, são responsáveis pelo cultivo e pela colheita de plantas para fazerem os molhos que os homens que trabalham os campos comem diariamente às refeições. Durante a época das chuvas, as mulheres casadas dentro de cada grupo doméstico trabalham individualmente nos campos nas terras altas que lhes são designados perto do dutigiw para produzir nafenw, ou “as coisas dos molhos”. Na maioria dos casos, as mulheres fazem uma mistura de culturas entre amendoins (tiga - Arachis hypogaea), ervilhas, sorgo, kenaf (dajan - Hibiscus cannabinus), alva espinhosa (dakumun u dabilenni - Hibiscus sabdariffa) e quiabo (gwan-Abelmoschus (Hibiscus esculentus). Há uma focalização bem clara dos seus padrões de cultivo nos vegetais e folhas que tradicionalmente complementam o que basicamente é produzido no forobaw. A grande maioria das culturas das mulheres destinam-se ao consumo directo embora, de vez em quando, alguns destes itens sejam vendidos de forma a gerar algum rendimento que é tipicamente usado para a compra de ingredientes comercializados para o molho como os cubos de sopa, óleo vegetal e sal (Wooten, 1997). Para além do cultivo dos condimentos nas terras altas na época das chuvas, durante o resto do ano as mulheres também colhem uma série de plantas selvagens e semi-selvagens nos seus campos e no mato para os seus molhos. Por exemplo, elas recolhem e processam as folhas da árvore baóba (Adansonia digitata) ara fazer o principal ingrediente dos seus molhos e usam o fruto da árvore de nozes de shea (Butryospermum parkii) para o óleo de cozinha e para loções para a pele. Como foi relatado noutras zonas da região (Becker, 2000, 2001; Gakou et al. 1994; Grisby, 1996), as mulheres mantêm estas árvores produtivas nos seus campos, e fazem uso das espécies de arbustos nas áreas circundantes à comunidade. Uma grande variedade de verduras selvagens ou semi-selvagens são regularmente usadas nos seus molhos.

Este padrão distinto de contribuições para a economia alimentar, em que os homens providenciam os grãos e as mulheres os molhos, é comum em Bamana (ex. Becker, 1996; Thiam, 1986;Toulmin, 1992). No entanto, há uma outra actividade típica de produção que está associada às mulheres Bamana: a jardinagem. Relatos de todas a região de Baman sugerem que as mulheres usam regularmente as áreas nas terras do vale junto ao riacho para estabelecer e manter as suas hortas, e colher as plantas selvagens para os ingredientes dos seus molhos (ex. Grisby, 1996; Konate, 1994). De facto, nako, a palavra Bamana para horta, é por vezes traduzida literalmente como “riacho de molho”, o que se relaciona tanto com o produto como com o local de produção. Considerando que há várias gerações que as mulheres na maioria das comunidades Bamana têm a responsabilidade de produzir nafenw, uma associação histórica entre as mulheres de Niamakoroni e os nakow parece inteiramente lógica. Apesar disso, hoje, tipicamente elas já não jardinam essas áreas à volta da sua aldeia. Em vez disso, cultivam os ingredientes para os seus molhos nos campos das terras altas e colhem as plantas selvagens nas áreas próximas ao mato. No decorrer das últimas décadas, a jardinagem, um domínio que em tempos foi fortemente associado às mulheres e à economia da alimentação, tem-se tornado num assunto dos homens e um empreendimento comercial.

Jardinar por dinheiro: Satisfazer as exigências dos Consumidores Urbanos

Para além de trabalharem dentro do contexto dos seus respectivos duw para o consumo doméstico, indivíduos de todas as idades em Niamakoroni tem a opção de iniciarem actividades independentes de produção de mercadorias que irão produzir rendimentos individuais. Estas actividades são normalmente apelidadas de ka wari nyini (por dinheiro).

Embora haja uma série de actividades geradoras de dividendos na comunidade, a maioria das pessoas tem uma opinião uniforme relativamente a considerarem a jardinagem de mercado como a principal possibilidade disponível para gerar e potencialmente acumular rendimentos. Tanto os homens como as mulheres apontam a jardinagem de mercado como a melhor estratégia para ganhar dinheiro, e sublinham ainda que os consumidores urbanos de Bamako, a cidade capital, são o principal mercado para os seus produtos (ver também Konate, 1994; 122).

Bamako tem crescido drasticamente desde que os Franceses estabeleceram aí a sua sede administrativa no final do século XIX. Em 1994, estimava-se que tinha uma população de cerca de 800,000 pessoas (Diarra et al. 1994: 230), e estimativas mais recentes apontam para um milhão de pessoas. Além disso, de acordo com Diarra e os seus colegas (1994: 239), apenas sete porcento da população de Bamako está envolvida na produção agrícola ou de gado. Claramente, a urbanização de Bamako, tal como noutros contextos por todo o mundo, tem estado associada a uma mudança drástica nos padrões de produção e de consumo. Há agora um mercado regional sólido de cereais, e a maioria dos consumidores urbanos dependem dos produtores rurais para obter as suas provisões básicas como o milhete e o sorgo. Há, ainda, uma crescente procura de produtos hortícolas especializados.

Ao longo dos tempos desde que as forças coloniais francesas começaram a consumir frutas e legumes frescos produzidos nas colónias, que os residentes de Bamako se têm interessado cada vez mais na aquisição e consumo de frutas exóticas (Republique du Mali, 1992; Villien-Rossi, 1966). Houve um grande número de factores que conduziram a esta mudança no consumo: a expansão de campanhas nutricionais governamentais alertando para a importância do valor nutricional das frutas e vegetais frescos; a emergência de uma classe média que considera que os padrões de dieta ocidentais são um sinal de cultura e de saúde; e o crescimento do número de estrangeiros funcionários de organizações de ajuda externa que pretendem continuar a consumir os frutos e os vegetais dos seus países de origem. Em conjunto estes factores criam uma forte procura na capital de itens hortícolas especializados não tradicionais.

Comunidades como Niamakoroni, que estão dentro da distância de mercado da capital, estão bem posicionados num contexto geral (ver também Becker, 1996; Konate, 1994).

A jardinagem de mercado é agora um componente central no sistema de subsistência local em Niamakoroni. Em meados dos anos 90 existiam 22 unidades distintas de jardinagem de mercado na comunidade, cada uma com o seu líder (nakotigi).

Os homens casados geriam a grande maioria das unidades (19 das 22, ou 86%). Cada uma das três mulheres nakotigiw tinha a posição de primeiras mulheres dentro de uma unidade poligâmica. Como tal, nenhuma tinha compromissos directos no domínio da produção de alimentos, e as suas actividades já não eram geridas pelos seus respectivos dutigiw. Comparando com outros nakotigiw, s mulheres gerem empresas relativamente menores, trabalhando em parcelas pequenas em zonas periféricas. A maioria dos nakorigiw são ajudados pelos seus irmãos mais novos ou pelos filhos e filhas e, em alguns casos, pelas suas mulheres. Os nakotigiw estabelecem os padrões de cultivo, organizam o trabalho, tomam as decisões em relação à colheita e à comercialização, e vendem os seus produtos e distribuem os lucros da forma que melhor entenderem.

Nos anos 90, os 22 nakotigiw de Niamakoroni operavam um total de 34 diferentes parcelas de horta com tamanhos entre os 378 e os 9720 m2 com uma média de 3212 m2. A grande maioria destas parcelas localizava nas áreas das terras baixas imediatamente à volta da comunidade. A maioria estava bem delineada e vedada de forma a estarem protegidas dos estragos do gado. As parcelas controladas pelas três mulheres não estavam vedadas e eram as mais pequenas (378–650 m2). Além disso, as suas parcelas estavam localizadas no mato ao longo de riachos relativamente menores.

Os horticultores de mercado produzem uma grande variedade de frutos e vegetais, a maioria dos quais exóticos não-tradicionais. Os tipos de vegetais mais comummente plantados em Niakoroni são os tomates, as beringelas amargas (Solanum incanum), feijões comuns, malaguetas, e couves. De entre estes, os tomates e as beringelas são os mais comuns. Numa altura ou noutra, todos os 22 nakotigiw cultivaram estes produtos. Outras culturas de vegetais incluem cebolas, beringela europeia, pimento verde, abóbora e quiabo. As colheitas de frutos também desempenham um papel importante nestas hortas. Por vezes estas plantações de frutas ocupam uma grande percentagem de área de horta vedada, principalmente como pomares puros ou, menos frequentemente, integrados numa horta com diversas outras culturas. Exceptuando as hortas pertencentes às três mulheres nakotigiw, todas as hortas contêm pelo menos algumas plantações produtivas de fruta que inclui bananas, papaias, mangas e varias espécies de citrinos. De todos os casos a banana é a cultura mais abundante, seguindo-se-lhe a papaia que é cultivada por todos os 19 nakotigiw masculinos. Todos os nakotigiw masculinos também já tiveram árvores de mangas (mangoro) A maioria dos horticultores tinham um stock de citrinos que incluía limões, laranjas, tangerinas, tangelos e toranjas, em que os limões eram os mais comuns. Com a excepção de beringelas amargas, malaguetas, e mangas todas as outras culturas não são tradicionais. Mas todas estas culturas tanto as tradicionais como as que não são tradicionais, são bastante procuradas na capital.

Todos os 22 nakotigiw compram sementes dos vegetais comerciais para as suas hortas de mercado. Em entrevistas, mencionaram comprar especificamente sementes de tomate, couve, e beringela amarga. Excepto as culturas tradicionais como a beringela amarga, todas as outras sementes são provenientes de França ou da Holanda. Os respondentes afirmaram uniformemente que compram as suas sementes em locais de distribuição na capital onde os vendedores (vendedores de rua ou de bancada) tendem a especializar-se em material de agricultura. De facto, há várias lojas de catering especialmente para os horticultores de mercado. Estas lojas fornecem tanto as unidades totalmente comerciais de jardinagem de mercado que existem dentro da cidade, como os horticultores de mercado rurais como os de Niamakoroni.

Muitos dos horticultores de Niamakoroni afirmaram comprara as suas sementes de boutiques tubabu (lojas ao estilo europeu) na área de Dibida. Expatriados, incluindo alguns homens de negócios franceses, gerem a maioria das operações de fornecimento de material especializado aos horticultores. Para além de comprarem sementes de vegetais e mudas, os nakotigiw se Niamakoroni também compram produtos para os seus pomares. Todos os 19 nakotigiw masculinos afirmaram que compram produtos para os seus pomares, plantações de bananas, e sementes ou enxertias de citrinos. O mercado de Badala ao longo do Rio Níger era a sua principal fonte. Eles também mencionaram obter itens como rebentos de banana, e sementes de laranjeira, e enxertos de tangelo dos vendedores de Badala. Alguns dos homens nakotigiw disseram obter estes itens de nakotigiw de comunidades vizinhas onde existem pomares mais antigos. As três mulheres nakotigiw não tinham plantado quaisquer árvores de citrinos nas suas parcelas e as bananas que estavam a cultivar tinham sido obtidas localmente.

Todos os 19 nakotigiw masculinos disseram ter comprado fertilizantes químicos para as suas parcelas. Catorze também afirmaram ter comprado estrume (principalmente de galinhas -she nogo). Poucos nakotigiw masculinos também compraram pesticidas químicos de tempos em tempos. Os horticultores realmente não se apercebem dos problemas de saúde que estes produtos podem causar nem se protegem a si mesmos. A opinião dos horticultores era unânime quando lhes era perguntado quais os seus objectivos de produção. Todos os 22 nakotigiw indicaram que viam as suas actividades hortícolas como fonte de rendimento. Afirmaram também que todos os produtos das suas hortas se destinavam à venda. De facto, os produtos das hortas raramente apareciam nas dietas locais e, quando acontecia, era porque estavam danificados ou deteriorados. A maior parte dos produtos das hortas de Niamakoroni destinava-se aos mercados de Bamako. Os produtos eram tipicamente trazidos para os subúrbios onde os comerciantes de mercados urbanos - essencialmente mulheres jovens - os compram aos horticultores ou seus ajudantes. Sempre houve uma coorte estável de compradores nestes mercados e, em algumas ocasiões, alguns deles deslocavam-se directamente às hortas para obterem os produtos, o que indica uma grande procura na capital.

De forma a podermo-nos aperceber um pouco melhor dos níveis de potencial rendimento das hortas de mercado, foram realizadas uma série de estimativas sobre o valor das colheitas baseado na contagem sistemática dos números e a avaliação do estado reprodutivo das plantações de fruta em cada horta. O valor bruto de certas culturas podia ser estimado ao saber quantas árvores produtivas havia, quanto é que uma árvore podia produzir por ano, e a média dos preços de venda. Esta analise demonstrou que o valor total da colheita da banana por si só em todos as hortas entre 1993–1994 era de aproximadamente de 35,000$ US. O indivíduo com a maior plantação de bananas (736) poderia ter obtido 4,400 US só da sua colheita. O indivíduo com menos plantações de banana (36) poderia ter ganho 216$US. O valor projectado do total das colheitas de papaia para esse mesmo ano era de aproximadamente 9,500$US. O indivíduo com mais plantações maduras (76) poderia ter obtido cerca de 1,600$US das suas colheitas, enquanto que o indivíduo com menos plantações (4) poderia ter ganho 85$US.

Estes exemplos indicam que os rendimentos potenciais da jardinagem de mercado eram relativamente altos no Mali, que tem um rendimento per capita de 260$US nos inícios dos anos 90 (Imperato, 1996). Baseado nos rendimentos apenas destas duas colheitas, se fossem partilhados de forma igualitária por todos os 184 residentes de Niamakoroni, o rendimento bruto per capita seria de aproximadamente 244$US, ou quase a média nacional. No entanto, estes números baseiam-se no valor bruto e não no rendimento líquido. Além disso, o rendimento gerado pela jardinagem não é distribuído uniformemente pela comunidade. Em vez disso, porque a maioria dos líderes das hortas são casados, eles são os principais beneficiários desta estratégia de diversificação de sustento relativamente lucrativa.

Pontos de Vista Contratantes sobre o Desenvolvimento da Horticultura Comercial

Claramente a jardinagem de mercado é muito significativa para a Niamakoroni contemporânea. É também bastante evidente que é uma actividade comercial dominada pelo sexo masculino, e que se foca numa variedade de culturas altamente exóticas não-tradicionais.

Contudo, de acordo com os comentários feitos na introdução, a jardinagem não foi sempre uma actividade dominada pelo sexo masculino nem baseada em plantas exóticas. Para além disso, nem todas as pessoas aceitam de bom grado a jardinagem de mercado, nem é provável que afecte a todos da mesma forma. Efectivamente, homens e mulheres ligados à comunidade tendem a narrar a história do desenvolvimento da jardinagem de mercado e dos padrões actuais de jardinagem de formas muito diferentes. A justaposição dos seus relatos põe em evidência uma diferença significativa da natureza da jardinagem ao longo dos tempos.

Do ponto de vista de um ancião, a posse da horta em Niamakoroni partilha uma característica em comum com a comunidade: os primeiros agricultores reclamam primeiro as terras. Quando os primeiros colonos Jara começaram a cultivar em Niamakoroni, os líderes da linhagem masculina estabeleceram-se como guardiães da terra. (Wooten, 1997). Assim, os descendentes masculinos das linhagens patriarcais dos fundadores Jara tinham o direito a distribuir parcelas das terras altas aos líderes de cada lar da comunidade. No entanto, aparentemente, as terras originalmente reclamadas pelos Jara não incluíam necessariamente as terras baixas, que inicialmente não tinham sido percebidas como essenciais para o regime de produção alimentar. Baseado nos comentários de Nene Jara e Shimbon Jara, os dois homens mais velhos, aparentemente o controlo destas áreas recaiu sobre aqueles que as cultivassem primeiro, na maioria dos casos, a primeira geração de agricultores de mercado: os seus pais.

Subsequentemente, outros se juntaram à primeira vaga de horticultores à medida que começaram a reconhecer as vantagens do cultivo de hortas. Os homens mais novos entraram neste domínio limpando, aquilo a que Nene chama, “áreas não utilizadas”. Para além disto, ao longo do tempo, alguns homens mais jovens, que inicialmente trabalhavam para os líderes originais das hortas montaram as suas próprias unidades, reclamando terras “não usadas” ou obtendo dos seus pais ou irmãos mais velhos parcelas originais após a sua morte ou reforma. Mais tarde, alguns destes indivíduos obtiveram as suas parcelas de outros indivíduos com os quais não estavam relacionados. Não foi mencionada qualquer renda, embora a curto prazo, tenham sido efectuados empréstimos não-monetários de parcelas. Nene e Shimbon mencionaram que, mais recentemente, as mulheres iniciaram actividades de jardinagem nas terras longínquas, perto do mato, em terras que os homens consideram demasiado distantes para quaisquer actividades sérias de horticultura. Limparam elas mesmas estas áreas de modo a poderem cultivá-las.

As mulheres apresentaram uma perspectiva bastante diferente sobre o desenvolvimento da jardinagem de mercado. Várias mulheres mais velhas indicaram que, antes do desenvolvimento das áreas nas zonas menos elevadas para actividades de jardinagem comercial, as mulheres já tinham de facto cultivado e recolhido plantas nestas mesmas áreas. Wilene Diallo, a mulher mais velha da comunidade, disse que ela e as outras esposas da aldeia, durante a época das chuvas, costumam utilizar estas parcelas para o cultivo tradicional dos vegetais para os seus molhos (naw). Ela também mencionou que as mulheres da aldeia por vezes também plantavam arroz nas terras baixas durante a época das chuvas. O arroz produzido era da variedade tradicional que é utilizado em refeições especiais ou é comercializado. As afirmações de Wilene foram confirmadas por uma grande número de mulheres mais velhas, e este padrão também se pode notar em publicações sobre os padrões de produção nas zonas rurais noutras áreas do Mali (ex. vários trabalhos realizados por Creevey, 1986, Becker, 1996).

Assim, antes de a primeira geração de horticultores de mercado se ter estabelecido, aparentemente as mulheres já utilizavam estas áreas de uma forma livre e sem ser em competição directa dos homens, e faziam-no com um objectivo primordial de produção de ingredientes para os seus molhos. Esta utilização não contestada pode estar relacionado com o facto de ainda não estar desenvolvido um mercado para a produção hortícola especializada, e os homens percepcionarem as terras baixas como áreas menos desejáveis. Um comentário proporcionado por um dos líderes masculino contemporâneos de hortas de Niamakoroni dá suporte a esta posição geral. No que diz respeito ao desenvolvimento das suas próprias parcelas, Mamari Jara disse que apenas há uma geração atrás, algumas das terras eram usadas por algumas das mulheres da aldeia para a produção de folha e vegetais para os seus molhos. Mamari continuou dizendo que, à medida que a procura de produtos hortícolas cresceu, os homens da comunidade se tornaram mais conscientes do valor potencial destas terras e eventualmente substituíram as mulheres no cultivo destas áreas. Afirmou que elas começaram a desbastar as áreas, vedando-as e reclamando-as como suas. Mais profundamente, disse “Havia dinheiro a ser feito!”. Assim que acabou de dizer isto, ele e o seu irmão mais novo Konimba riram e acrescentaram, que no fundo, “os homens são uns ladrões!”.

Terreno perdido, Recursos Ameaçados

Quaisquer que sejam as exactas particularidades históricas, é obvio que as mulheres de hoje são largamente excluídas dos espaços das hortas da comunidade. Para estabelecer as suas empresas comerciais, os homens apropriaram-se do espaço físico das terras baixas e dos nichos de produção das hortas em si. Neste processo, as mulheres de Niamakoroni perderam terreno importante. O movimento masculino para o domínio da jardinagem tem vindo a ser facilitado por amplas iniquidades na produção que localmente está relacionada com o género. De acordo com Davison (1988: 3), as relações de género com a produção são “as relações socioeconómicas entre homens e mulheres que estão caracterizadas pela distribuição de tarefas de forma diferencial, o controlo sobre a tomada de decisões, e o acesso e controlo diferencial sobre a localização dos seus recursos - incluindo a terra e os rendimentos”.

Em Niamakoroni, tal como na maioria dos cenários em Africa, a produção relacionada com o género geralmente favorece os homens. Como já tinha sido indicado anteriormente, é uma comunidade onde a descendência é patriarcal e cujo controlo sobre os recursos de produção é geralmente de natureza corporativa em que há um domínio dos mais velhos sobre os mais novos, e em que os homens geralmente têm mais poder que as mulheres. Os homens casados têm explorado as suas posições privilegiadas neste tipo de estrutura para se estabelecerem como horticultores de mercado. Reclamaram as terras onde as suas mães e as suas mulheres cultivavam e colhiam plantas para o molho. Isto tem importantes implicações nas contribuições das mulheres para a economia alimentar e para a sua comunidade. A marginalização das mulheres do nicho da jardinagem em Niamakoroni limita as suas capacidades de produção dos seus ingredientes tradicionais. As mulheres tentam cultivar o suficiente para os seus molhos nas terras altas que lhes foram designadas pelos seus dutigiw, as aí a sua produção é limitada. Elas têm uma grande variedade de obrigações domésticas que lhes limitam o tempo disponível para o cultivo destas terras e, para além disto, algumas das culturas tradicionais podem não se dar bem a estas altitudes. Os campos das terras altas só podem ser cultivados na época das chuvas, mas os molhos requerem tipicamente plantas frescas durante todo o ano. Assim, mesmo que as mulheres sejam afortunadas o suficiente para conseguirem assegurar uma colheita sólida dos seus campos, vão ainda ter que localizar algumas das plantas necessárias para os seus molhos.Com o acesso aos campos das terras baixas limitado, são impedidas de obter estes itens. A sua marginalização do domínio da jardinagem também limita o seu acesso a recursos financeiros, que poderiam ser utilizados para comprar mais ingredientes para os seus molhos que não conseguiriam obter nestas áreas.

A quase exclusão das mulheres desta importante fonte de rendimento pode ainda ter implicações mais vastas. Os inúmeros estudos realizados em Africa (ex. Clark, 1994; Fapohunda, 1988; Gordon, 1996) têm demonstrado que a autonomia financeira pode aumentar o status do indivíduo nos vários cenários sociais. Em particular, um rendimento independente em paralelo aos rendimentos dos seus maridos proporciona dá uma maior poder às mulheres para poderem negociar as suas posições no seio das famílias e comunidades africanas. Isto parece ser realmente importante no contexto de Bamana. Como referiu Turrittin (1988: 586), “o controlo dos seus recursos económicos é uma importante fonte de negociação das mulheres com os homens”. A autora demonstrou ainda como é que as relações do género com a produção dos Bamana limitam as oportunidades das mulheres de terem acesso a estes recursos através de actividades de negociação. Tal como as mulheres de Niamakoroni, as mulheres do estudo de Turrittin não se conseguiram estabelecer dentro deste nicho de geração de altos rendimentos. Em ambos os casos, os homens usam as relações de género da produção existentes para reclamarem para si uma indústria relativamente lucrativa. As suas acções são suportadas pela estrutura institucional já estabelecida em que os homens, como membros de uma linhagem baseada no patriarcado, tem prioridade no acesso aos recursos de produção e às oportunidades económicas.

É importante realçar que esta tendência não tem passado despercebida nem incontestada pelas mulheres de Niamakoroni. No decurso das entrevistas realizadas várias mulheres deram voz à sua insatisfação com esta situação. Como disse uma das mulheres, “Os homens têm todos os hortas, Eles têm todo o dinheiro. No entanto, eles não nos dão nada, nem mesmo dinheiro para os molhos ou para as nossas crianças”. Algumas das mulheres ressentem-se do facto de o que consideravam ser a esfera tradicional das mulheres, passar agora a fazer parte do mundo dos homens. É ainda importante ter em conta o facto de existirem três mulheres nagotigiw. As suas hortas eram muito pequenas e localizadas a uma distância considerável da aldeia em terrenos considerados menos bons, mas apesar disso tinham hortas - e hortas orientados para o comércio. No entanto, ao contrário da maioria das mulheres casadas na comunidade, estas mulheres horticultoras eram as mulheres mais velhas que se tinham retirado da maior parte das actividades regulares associadas à economia alimentar do lar. Não é provável que as suas conquistas, apesar de escassas, venham a ser replicadas em grande escala. Para além da emergência de uma série de desafios sociais e económicos, a exclusão das mulheres do domínio das hortas pode levar a mudanças noutros domínios importantes. Esta mudança aqui documentada aponta para transformações nos padrões culinários e para um possível declínio do estatuto nutricional (ver também Daniggelis, neste volume), da diversificação das plantas locais, e de uma abrangente estabilidade ambiental. Embora estas questões não sejam especificamente avaliadas neste estudo, os dados apresentados revelam um número significativo de ameaças.

A expansão do mercado de jardinagem dos homens pode levar a um decréscimo da disponibilidade de plantas locais nas suas dietas. Os homens empurraram as mulheres e os seus cultivos para fora do nicho da jardinagem. Neste processo, muitas das plantas das hortas e associadas aos consumidores urbanos substituíram as plantas locais associadas às mulheres e aos seus molhos nas hortas de Niamakoroni. Os horticultores de mercado de hoje não estão interessados em manter as colheitas das mulheres a menos que estas estejam adequadas aos mercados urbanos, como é o caso da beringela amarga. Assim, muitos dos homens vêem as plantas das mulheres (especialmente as plantas e folhas tradicionais) como ervas daninhas que tem que ser retiradas de modo a plantar tomates e bananas que são geradoras de rendimentos. Só recentemente, e raramente, é que as hortas começaram a ter destes vegetais tradicionais e plantas selvagens ou semi-domesticadas.

Resumindo, pela falta de acesso à jardinagem tradicional e a áreas de cultivo, as mulheres têm menos opções no que diz respeito a confecção dos seus molhos. Apesar de ainda não estar documentado, um dos resultados possíveis será uma mudança nos padrões locais de culinária - ironicamente, através do cultivo e comercialização das suas colheitas, os homens podem estar a contribuir para o declínio do valor nutricional das suas refeições. Estudos realizados em vários outros contextos, tem revelado que esta mudança para uma agricultura comercial pode resultar no declínio dos valores nutricionais a um nível local à medida que as culturas tradicionais são substituídas por itens não alimentares, alimentos menos nutritivos, ou itens que, embora sejam bastante nutritivos, são comercializados em vez de consumidos (von Braun e Kennedy, 1994; De Walt, 1993). Mais especificamente, à luz das pesquisas realizadas nestas áreas tem-se demonstrado o valor significativo nos vegetais tradicionais na dieta (Chweya e Eyzaguirre, 1999; Nesamvuni et al. 2001; Thaman, 1995), as transformações em Niamakoroni podem conduzir a deficiências nutritivas e estarem relacionadas com problemas de saúde. De facto, um trabalho realizado recentemente no sul do Mali documentou a importância nutricional das plantas locais que tradicionalmente estão associadas às mulheres. Nordeide et al. (1996) demonstraram que as culturas tradicionalmente recolhidas e localmente produzidas contribuem com nutrientes valiosos, particularmente em contextos rurais como Niamakoroni. Este tipo de declínio é provável pois muito poucos destes “novos” produtos cultivados são inseridos nas dietas locais. Os horticultores de mercado vêem as suas unidades como fontes de rendimento e as suas produções apenas como meios para atingir fins. Nem usam os seus rendimentos para comprar comida, nem dão dinheiro às suas mulheres que poderia ser utilizado para comprar os ingredientes tradicionais para os seus molhos ou para comprar ervas medicinais locais (Woote, 1997). Se os estudos realizados noutros contextos sobre os processos de comercialização servirem como indicadores, é provável que surjam problemas adicionais com repercussões tanto locais como globais a longo prazo. De forma a assegurar a viabilidade a longo prazo de recursos que estejam adaptados localmente, peritos na gestão de recursos genéticos de plantas (RGP) estão a exigir uma conservação in situ (Altieri e Merrick, 1987; Qualset et al., 1997). Esta é considerada a forma mais eficaz de conservação dos recursos genéticos, e de assegurar o acesso continuado a recursos que estejam adaptados ao local. Pesquisas nesta área demonstraram que, embora sejam pequenas em tamanho, as hortas domésticos das mulheres por todo o mundo contêm tipicamente uma variedade considerável de plantas que estão adaptadas aos seus locais (Howard-Borjas, 2002). As mulheres usam estes locais como parcelas experimentais e sítios para a conservação de plantas raras. De facto, tem-se demonstrado que as hortas das mulheres africanas são provavelmente um dos reservatórios mais significativos de material genético das plantas locais (Chweya e Eyzaguirre, 1999). No entanto, o potencial para a conservação in situ de plantas tradicionalmente relacionadas às mulheres de Niamakoroni está ameaçado pela expansão da jardinagem comercial. Sem um acesso apropriado aos nichos de jardinagem, falta às mulheres a oportunidade para manterem os recursos de plantas tradicionais in situ. Embora algumas das plantas tradicionais estejam apropriadas ao cultivo nas terras altas durante a época das chuvas, há muitas mais plantas selvagens ou semi-domesticadas que estão adaptadas a áreas das terras baixas junto ao riacho. Assim, esta situação apresenta um desafio para a manutenção da viabilidade da adaptação das plantas localmente e, ao longo do tempo, para a continuidade do conhecimento local destas espécies. Resumindo, sem uma gestão continuada, é possível que estas espécies sofram uma erosão localmente.

A perda dos recursos genéticos das plantas e dos conhecimentos que lhe estão associados a nível local irão representar uma perda significativa no domínio global da biodiversidade das plantas. De um modo geral, muito pouco é conhecido das características genéticas das culturas tradicionais em Africa. De facto, até muito recentemente, têm vindo a ser ignoradas pelos bancos de genes ex situ pelos esforços de proteccionismo comercial (para uma discussão deste assunto ver Chweya e Eyzaguirre, 1999). Assim, plantas esquecidas ou extintas a um nível local correm o risco de se perderem para sempre.

No entanto, a ameaça à biodiversidade das plantas locais não se limita às áreas de hortas. Há um número importante de efeitos ambientais secundários que estão relacionados com o desenvolvimento da jardinagem de mercado dos homens em Niamakoroni. Sem o acesso às terras baixas para a produção dos seus molhos ou outras alternativas para obter rendimentos, as mulheres focam cada vez mais a sua atenção na exploração de outros locais, recursos de plantas tipo arbustos para comida e para obterem algum rendimento para suportar as suas obrigações domésticas na cozinha (Wooten, 1997). Em particular, vão expandindo a sua produção comercial de carvão vegetal, manteiga de shea, e escovas de dentes feitas de plantas. Em entrevista, várias mulheres disseram que usam os rendimentos destas actividades para assegurarem os itens para os seus molhos nas refeições. Todas estas actividades dependem da utilização de recursos provenientes de plantas selvagens nativas. A expansão do uso pelas mulheres de tais recursos revela o que pode representar um ciclo vicioso: Sem o acesso às zonas jardináveis, as mulheres podem estar a explorar em demasia os recursos do mato de forma a obterem o rendimento que podem utilizar para obter os ingredientes para o molho que já não podem obter localmente.

As mulheres tinham uma posição uniforme quanto à utilização do carvão vegetal como a sua principal mercadoria: como os produtos da jardinagem de mercado, o carvão vegetal é um produto muito desejado nas zonas urbanas de Bamako. A produção de carvão vegetal é um processo árduo. E gera muito pouco lucro. (Wooten n.d.). No entanto, por ser uma das muito poucas actividades que gerem rendimentos acessíveis às mulheres, as produções de carvão estão a tornar-se muito comuns. Ao mesmo tempo, tem havido um decréscimo no número de árvores adultas nas áreas à volta da aldeia. É provável que as acções das mulheres estejam a acelerar a taxa de desflorestação de espécies relacionadas com o carvão. De facto, as mulheres já lamentam o facto de ser cada vez mais difícil encontrarem espécies em volume suficiente para a produção do carvão. Elas indicaram que começaram a usar espécies mais novas e menos desejáveis de árvores e a cortar árvores inteiras para este processo. Um estudo realizado nesta região sugere que, uma vez que as mulheres rurais têm menos direitos sobre as terras, é pouco provável que invistam a longo prazo em empresas que se baseiem nas terras (Grisby e Force, 1993). Isto é irónico visto que os estudos realizados nestas zonas indicam que as mulheres são as principais utilizadoras e beneficiárias das actividades que se baseiam na utilização das terras (Driel, 1990, Gakou et al., 1994). Com a procura cada vez maior nos meios urbanos e tendo muito poucas alternativas as mulheres continuam a explorar os recursos de madeira necessários para a produção do carvão vegetal e este processo vai contribuir para a desflorestação desta área. Neste caso, as mulheres podem em breve perder os seus benefícios, já por si escassos, e virem a ficar privadas de madeira para lenha. E ainda, com a perda continuada de madeira vem a possibilidade de o solo ficar mais compacto e haver uma erosão e uma degradação ambiental a ela associada (ver os relatórios oficiais do Mali citados por Becker, 2001).

Género, Comercialização e Ameaças aos Recursos Genéticos das Plantas Locais

Confrontados com a rápida e crescente degradação da biodiversidade de plantas por todo o planeta, uma grande quantidade de indivíduos e de organizações estão agora a prestar mais atenção às tarefas de documentação e conservação dos recursos genéticos das plantas. Como resultado deste facto, nas últimas décadas, tem aumentado a compreensão da diversidade e da significância das plantas que estão adaptadas localmente. Esta expansão por vezes passa por uma crescente apreciação dos conhecimentos locais ou indígenas do domínio da bio-complexidade. No entanto, à medida que a pesquisa nesta área progride, tem-se tornado mais claro que por vezes há uma diferença substancial nesses mesmos conhecimentos sobre a biodiversidade das plantas locais entre as populações locais, por exemplo dependendo da etnicidade e do modus vivendi. Resumidamente, os investigadores têm demonstrado que há frequentemente “conhecimentos” das plantas locais em vez de conhecimento monolítico das plantas locais.

Assim, de forma a perceber melhor as diferentes relações entre as pessoas e as plantas é imperativo identificar os especialistas locais e aprender com eles os recursos de plantas que eles melhor conhecem. Infelizmente, têm-se tornado cada vez mais evidente que um grupo significativo de pessoas chave, detentoras destes conhecimentos, tem sido bastante ignorado neste processo. Apesar dos seus papéis cruciais nas várias áreas de gestão de plantas, os conhecimentos das mulheres das plantas locais foram mal representadas nas investigações (para uma revisão ver Howard-Borjas, 2002). O resultado é um quadro incompleto dos conhecimentos locais do mundo das plantas.

De forma a abordar esta lacuna, é imperativo identificar e documentar em detalhe situações em que as mulheres têm responsabilidades distintas e conhecimentos sobre os recursos locais de plantas. É extremamente importante prestar mais atenção a estes casos em que os recursos de plantas das mulheres e os seus conhecimentos base estão sob ameaça. Este estudo de caso oferece um exemplo do tipo de processo que pode levar à deterioração do acesso das mulheres a recursos e, subsequentemente, a conhecimentos.

À medida que os espaços produtivos das mulheres tal como as hortas domésticas de Niamakoroni são transformados em colheitas exóticas comercialmente viáveis e na produção de jardinagem de mercado, os recursos tradicionais das plantas podem decair e os conhecimentos sobre estas culturas podem perder-se. Esta ameaça tem sido identificada como a principal preocupação da Comissão Internacional para os Recursos Genéticos de Plantas e outras organizações que se preocupam com a viabilidade a longo prazo da biodiversidade das plantas que estão adaptadas ao local. É bastante claro que partindo do caso de Niamakoroni que as dinâmicas de comercialização relacionadas com o género podem constituir uma ameaça à biodiversidade das plantas locais e que a perda de recursos pode provocar ainda mais efeitos negativos no ambiente e no bem-estar da humanidade.

Referências

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