FAO no Brasil

Organizações internacionais celebram experiência do Brasil no combate à fome e apontam próximos desafios

Representantes da FAO, WFP e FIDA com o governador e a primeira dama do Ceará
16/10/2025

No Dia Mundial da Alimentação, em diálogo sobre o sistema alimentar brasileiro no 2º Festival Ceará Sem Fome, em Fortaleza (CE), nesta quarta-feira (15), representantes das agências da Organização das Nações Unidas (ONU) ligadas ao tema destacaram o importante papel de liderança do Brasil nos avanços no combate à fome, mas reforçaram que ainda há desafios a serem superados. O representante da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) no Brasil, Jorge Meza, destacou que o País deve celebrar o fato de ter saído pela segunda vez do Mapa da Fome, o que quer dizer que menos de 2,5% da população do Brasil está subalimentada, ou seja, tem uma ingestão calórica insuficiente para atender às suas necessidades energéticas mínimas. “Esta é uma experiência que deve ser compartilhada com outros países”, afirmou. Porém, alertou que a fome não deixou de ser um problema, pois o resultado tem que ser mantido no tempo, avançando para alcançar uma maior segurança alimentar e nutricional. Meza acrescentou que “acabar com a fome é importante, mas também é importante incrementar o consumo de alimentos saudáveis, e reduzir os níveis de sobrepeso e obesidade”.

O representante da FAO destacou quatro elementos essenciais para que se alcance um sistema alimentar inclusivo, que erradique a fome: vontade política sustentada pela convicção de que é preciso erradicar o problema; articulação entre diversos setores, com um conjunto de políticas públicas conectadas; disponibilização de recursos; e, a solidariedade da população, ou seja, um entendimento comum de que a fome é um problema de todos. Meza pontuou que a FAO é uma organização de todas as pessoas do mundo, financiada pelos estados membros, e que se faz presente onde há necessidades de projetos e programas no marco de sua missão, como é o caso do Programa Ceará Sem Fome, uma experiência que merece ser compartilhada com o mundo. A primeira-dama do Ceará, Lia de Freitas, que lidera o Ceará Sem Fome, complementou que o programa alimenta 130 mil pessoas.

“Mas o desafio ainda é muito grande”, ponderou o especialista que representou o Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Hardi Vieira, trazendo a informação, divulgada recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de que 35% das famílias no Nordeste ainda vivem em insegurança alimentar, ou seja, não tem certeza se vai ter comida em sua rotina. Acrescentou que a pobreza atinge um grupo muito específico: mulheres, negros e comunidades tradicionais da população rural. “Detectar onde estão as pessoas que passam fome é fundamental para criar políticas públicas que focalizem neste grupo, e critérios para nortear o apoio internacional”, disse.  O FIDA é parceiro de três projetos no Ceará: Paulo Freire, Sertão Vivo e Padre Don Helder Câmara, que juntos representam um investimento de R$ 1 bilhão. “O Brasil tem muito conhecimento de tecnologias sociais e podemos disseminar isso não só dentro do país, mas para fora.”

O representante do Programa Mundial de Alimentos (WFP), Daniel Balaban, afirmou que o combate à fome é um combate à extrema miséria e às desigualdades sociais. Ele ressaltou que o Brasil sempre esteve entre os dez países mais concentradores de renda do mundo. “Isso tem de ser combatido. Queremos um país pujante, que influencie outros países. O mundo precisa compreender que acabar com a fome não é dar comida, é dar cidadania, condições para as pessoas produzirem os próprios alimentos, e tenham recursos financeiros para consumir alimentos saudáveis.”

 

Desperdício de alimentos
Um dos pontos abordados no diálogo entre as entidades foi a questão do combate ao desperdício e perda de alimentos. O representante da FAO destacou três linhas de ação: capacitação e conscientização da população para reduzir o desperdício na ponta do consumo do sistema agroalimentar; infraestrutura e equipamento para diminuir as perdas de alimentos na ponta da produção; e sistema de pagamento pela coleta e tratamento dos desperdícios de alimentos, que dizer, que resulte caro para as pessoas e empresas que desperdiçam alimentos. “É preciso explicar à população o efeito do desperdício”, disse. Segundo Meza, o motivo do desperdício é diferente em países desenvolvidos e em desenvolvimento. “Nos países desenvolvidos, o desperdício está mais presente no consumo: o consumidor joga fora alimentos, simplesmente porque não quer mais consumi-los, e não porque os alimentos estejam estragados. Nos países em desenvolvimento, o desperdício está na produção, por falta de planejamento ou deficiente colheita e mau armazenamento”, explicou. O representante do FIDA destacou o problema do descarte de embalagens, e indicou que é possível evitá-lo com diferentes medidas já praticadas em alguns países, como a valorização das feiras locais perto de casa, para se alimentar com produtos saudáveis e frescos, em vez de pedir comida processada que geralmente vem em embalagens que geram lixo.

O debate ocorreu na semana em que se comemora os 80 anos da FAO e o Dia Mundial da Alimentação, cujo slogan deste ano é “De Mãos Dadas por uma alimentação melhor e um futuro melhor”.  A solenidade oficial contou com a presença do governador do Ceará, Elmano de Freitas, e do prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão, entro outras autoridades do Estado