FAO no Brasil

COP30: “Extremos climáticos já afetam a produção de alimentos hoje”

Zahedi afirma que sistemas agroalimentares sustentáveis e resilientes são fundamentais para a ação climática e essenciais para garantir segurança alimentar e nutricional para os 1,2 bilhão de pessoas que dependem deles para sobreviver.
06/11/2025

Entrevista com Kaveh Zahedi, diretor de Clima, Biodiversidade e Meio Ambiente da FAO

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), realizada em Belém, Brasil, reúne líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil para definir ações urgentes contra a mudança do clima.

Por meio de sua participação, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) atua em parceria com países e instituições para colocar a agricultura e a segurança alimentar no centro das negociações, incluindo discussões sobre a Meta Global de Adaptação, perdas e danos, contribuições nacionalmente determinadas (NDCs), Planos Nacionais de Adaptação (NAPs), financiamento climático, tecnologia e transição justa.

Às vésperas do encontro internacional, Kaveh Zahedi, diretor do Escritório da FAO para Mudança do Clima, Biodiversidade e Meio Ambiente (OCB), destacou as principais mensagens que a Organização levará à COP30 e aos debates futuros.


Como os extremos climáticos afetam a capacidade de agricultores, pescadores e criadores de produzir alimentos?

Não é uma ameaça distante — está acontecendo agora. Os extremos climáticos já estão desestruturando a produção de alimentos e a agricultura. As colheitas estão diminuindo, e o clima imprevisível torna a produção cada vez mais difícil. Também observamos um aumento de pragas e doenças. Em todos os setores, a mudança do clima está reconfigurando a agricultura e os sistemas alimentares.

Não é coincidência que a fome global permaneça alarmantemente alta, atingindo cerca de 700 milhões de pessoas. Parte disso se deve à crise climática. Se não agirmos, o cenário é grave: em algumas regiões, a agricultura de sequeiro poderá se tornar inviável; em outras, o solo deixará de ser adequado para a produção de alimentos. Atualmente, um terço das terras agrícolas do planeta já está degradado — imagine esse quadro se agravando. Essas tendências exercem enorme pressão sobre as comunidades e os sistemas alimentares em todo o mundo.


Quais são as principais prioridades da FAO para a COP30?

Nosso mensagem central é simples: sistemas agroalimentares sustentáveis e resilientes são essenciais para a ação climática e fundamentais para garantir segurança alimentar e nutricional para os 1,2 bilhão de pessoas que deles dependem.
Sem transformar a agricultura e os sistemas alimentares, é praticamente impossível cumprir o Acordo de Paris.

Por isso, a FAO está comprometida em apoiar os países nas negociações, colaborar com a Presidência da COP na Agenda de Ação voltada aos sistemas agroalimentares e amplificar as vozes de agricultores, comunidades rurais, pequenos produtores e povos indígenas — frequentemente os mais afetados pelos eventos climáticos extremos.

As principais prioridades da FAO para a COP30 e além são:

  1. Incluir os sistemas agroalimentares nos resultados e decisões da COP;
  2. Transformar ambição em ação, integrando soluções baseadas nos sistemas agroalimentares aos planos climáticos nacionais e implementando-as na prática;
  3. Redirecionar mais recursos de financiamento climático para soluções agroalimentares e ampliar sua escala para maximizar o impacto.

Atualmente, apenas cerca de 4% do financiamento climático para o desenvolvimento chega aos setores produtivos de alimentos — agricultura, pecuária, pesca e florestas. Isso precisa mudar.


Quais compromissos ou resultados específicos a FAO espera da conferência?

A COP30 é um momento decisivo para reafirmar que a agricultura e os sistemas alimentares são a principal linha de defesa contra a crise climática. Eles devem estar no centro das discussões sobre adaptação e mitigação, resiliência, perdas e danos e financiamento climático. É também uma oportunidade de fortalecer o papel das florestas — promovendo manejo integrado do fogo, proteção dos ecossistemas e garantindo que os países tenham recursos para administrar e conservar as florestas de forma sustentável.


A COP30 reunirá cerca de 3 mil representantes de povos indígenas, destacando seu papel nas negociações climáticas. Como a FAO pretende integrar o conhecimento tradicional em suas estratégias de segurança alimentar e erradicação da fome?

Não é possível discutir agricultura ou florestas sem envolver os povos indígenas.
Seu conhecimento tradicional é inestimável para construir resiliência e proteger nosso futuro diante das incertezas climáticas.

No país anfitrião da COP30, por exemplo, agricultores estão recuperando o sistema cabruca, em que pés de cacau crescem sob a sombra de espécies nativas.
Como mostra a iniciativa com os cacaueiros na região da Bahia, apoiar quem trabalha a terra é a forma mais segura de garantir o futuro do planeta.

“A COP30 precisa ser o momento em que os sistemas agroalimentares passem da margem para o centro da ação climática.”