FAO no Brasil

COP30: FAO promove debate sobre financiamento climático para a agricultura

Crédito: IISD/ENB | Angeles Estrada Vigil
19/11/2025

Chamando atenção para a baixa participação dos setores de alimentação e agricultura nos fluxos globais de financiamento climático, ministros, especialistas, instituições financeiras e líderes do setor privado discutiram caminhos para destravar o apoio necessário à construção de sistemas agroalimentares mais limpos e resilientes

Responsáveis por cerca de um terço das emissões antropogênicas de gases de efeito estufa, os sistemas agroalimentares precisam de investimentos expressivos para avançar em práticas sustentáveis e assumir um papel central no enfrentamento da crise climática. Contudo, o relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) “Climate-related development finance to agrifood systems – Global and regional trends” aponta que o setor recebeu USD 100 bilhões em 2021-22 — apenas 7,2% do financiamento climático total — frente à necessidade estimada de mais de USD 1 trilhão por ano para garantir sustentabilidade. Sem financiamento transformador, impactos climáticos já comprometem a segurança alimentar, elevam custos futuros e ameaçam os meios de subsistência de mais de 1 bilhão de pessoas dependentes dos sistemas agroalimentares.

Nesta semana, na 30ª Conferência das Partes sobre Mudança Climática, a FAO realizou o evento Destravando o financiamento climático para a transformação dos sistemas agroalimentares e do clima voltado a apresentação de soluções. Representantes de governos, especialistas, instituições financeiras e empresas compartilharam visões sobre instrumentos financeiros, políticas públicas, mercados de carbono, iniciativas filantrópicas capazes de impulsionar ações transformadoras no setor. Também debateram mecanismos do Artigo 6 do Acordo de Paris, que trata de cooperação internacional em ações climáticas, estabelecendo instrumentos e regras para que os países possam colaborar entre si para atingir suas metas de redução de emissões (NDCs - Contribuições Nacionalmente Determinadas, na sigla em inglês).

Ao abrir a sessão, Kaveh Zahedi, diretor do Escritório da FAO de Mudança Climática, Biodiversidade e Meio Ambiente, afirmou que os debates apresentados estavam no centro das discussões da COP 30, pois “sem financiamiento, os sistemas alimentares e as soluções que oferece não alcançarão o Acordo de Paris”. Ele reforçou que “o financiamento fará a diferença”.

Nick Blong, secretário-adjunto da Divisão de Sustentabilidade, Clima e Estratégia do Departamento de Agricultura, Pesca e Florestas da Austrália, defendeu que destravar o financiamento climático é “questão existencial”. Ele destacou que, embora outros setores já recebam forte atenção na agenda de descarbonização, é urgente ampliar o foco sobre a agricultura, tanto em mitigação quanto em adaptação. Blong apresentou iniciativas australianas para desenvolver ferramentas e mecanismos que apoiem agricultores a se prepararem para impactos climáticos, incluindo calculadoras robustas de emissões e incentivos ao manejo sustentável do solo.

Frauke Rinelli, conselheira sênior do Ministério Federal de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, ressaltou que há “boas notícias” para o setor, uma vez que existe forte justificativa para aumentar o financiamento à alimentação e à agricultura, essenciais para limitar o aquecimento global a 2°C e cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Segundo ela, os recursos podem ser escalados rapidamente, considerando que quase 4 bilhões de pessoas dependem desses sistemas. Zahedi destacou o apoio alemão às transições agroalimentares por meio da Iniciativa SCALA - Scaling up Climate Ambition on Land Use and Agriculture (Aumentando a Ambição Climática no Uso da Terra e Agricultura), e da Parceria FAST - Food and Agriculture for Sustainable Transformation (Alimentos e Agricultura para Transformação Sustentável).

Gabriel Pollen, secretário permanente do Ministério do Governo Local e Desenvolvimento Rural da Zâmbia, lembrou que a recente seca no país foi tão severa que, em 2024, era possível atravessar as Cataratas Vitória a pé. O episódio resultou em déficit alimentar para 6,6 milhões de pessoas, demonstrando, segundo ele, “a urgência de repensar de forma criativa os sistemas agroalimentares”.

Em declaração representando o ministro da Economia Verde e Ambiente, Mike Elton Mposha, Pollen afirmou que os sistemas agroalimentares são fundamentais para a segurança alimentar e as economias nacionais, mas seguem subfinanciados — “uma falha estratégica que coloca nosso futuro em risco”, disse. Ele destacou que a Zâmbia posicionou o setor como pilar central de sua agenda nacional, com mobilização de financiamento público, estímulo a investimentos público-privados inovadores e prioridade a soluções centradas nas comunidades. Mencionou ainda o mecanismo “Action for Climate Empowerment to Achieve Nationally Determined Contributions (FACE-NDC)” voltado à promoção de comportamentos alinhados às NDCs por meio da educação.

Instituições Financeiras
No painel dedicado ao financiamento, Valerie Hickey, diretora global de Mudanças Climáticas do Banco Mundial, apresentou ações para reduzir riscos nos setores agrícola e alimentar em mercados emergentes, como a otimização de recursos públicos e a mobilização de capital privado, especialmente para pequenos produtores. Ela destacou cinco frentes prioritárias: melhoria de dados sobre fluxos e impactos financeiros; desenvolvimento de políticas previsíveis, incluindo reformas de posse da terra para ampliar acesso de mulheres ao crédito; fortalecimento institucional; investimento em infraestrutura resiliente; e, coordenação de capital.

Nabil Kadri, diretor-geral Adjunto da Área de Meio Ambiente do BNDES, ressaltou o papel da instituição como ponte entre políticas públicas e investimento privado. Ele destacou iniciativas que utilizam dados de monitoramento do desmatamento na análise de crédito rural e a adoção de práticas de “restauração produtiva” para recuperar áreas degradadas, elevar a biodiversidade e ampliar a produção de alimentos. Também mencionou esforços do banco para conectar cadeias de abastecimento a novos mercados institucionais, como o fornecimento de alimentos para escolas por pequenos produtores.

Taciano Custodio, chefe de Sustentabilidade do Rabobank na América do Sul, identificou amplas oportunidades econômicas na adoção de uso inteligente da terra para o clima e em sistemas alimentares mais inclusivos. Ele destacou o crescente uso de financiamento conjunto para reduzir riscos e tornar a sustentabilidade um investimento atrativo, além de metodologias que classificam terras em duas categorias (com excedente de natureza, e com déficit de natureza e baixa produtividade), permitindo financiamentos especializados por categoria.

Elise Billard, chefe de Estratégia Climática do Crédit Agricole SA, afirmou que oferecer financiamento aos agricultores requer compreender o ecossistema institucional no qual atuam. Ela enfatizou que “não existe solução única”, e que pequenas mudanças técnicas podem desencadear transformações amplas. Billard apresentou a plataforma do banco que conecta empresas e autoridades locais empenhadas na neutralidade de carbono a agricultores com soluções sustentáveis.

No encerramento, Zahedi pediu recomendações finais dos painelistas para avançar as transformações no âmbito da UNFCCC. Hickey defendeu a continuidade da pauta agroalimentar “com ou sem convite” e a inclusão de créditos baseados na natureza no Artigo 6 do Acordo de Paris para garantir acesso pelos agricultores. Kadri reforçou a necessidade de manter alimentação e agricultura no centro dos debates sobre adaptação e perdas e danos. Zahedi mencionou a análise recém-lançada pela FAO e pelo PNUD que aponta desafios para transformar diagnósticos dos NAPs em intervenções concretas. Billard destacou a importância de compreender toda a cadeia de valor e de incentivar consumidores a repensar seus hábitos alimentares. Zahedi concluiu lembrando que dados da FAO apontam preocupações significativas antes e depois da produção agrícola na cadeia de emissões.