FAO no Brasil

FAO apoia iniciativa global para acelerar financiamento da restauração de terras agrícolas, lançada na COP30

20/11/2025

A degradação do solo é hoje uma das maiores ameaças globais, comprometendo a segurança alimentar, acelerando a perda de biodiversidade e agravando as mudanças climáticas — um problema que já atinge 1 bilhão de hectares em todo o mundo. Ao mesmo tempo, representa uma oportunidade: restaurar áreas agrícolas degradadas, como lavouras e pastagens, aumenta a produtividade, fortalece cadeias de valor, reduz a pressão sobre florestas e melhora as condições de vida no meio rural. Embora a degradação do solo tenha sido prioridade nas três Convenções do Rio, ainda é preciso ampliar rapidamente o financiamento para cumprir compromissos globais e gerar benefícios conjuntos para o clima, a natureza e a segurança alimentar. Foi nesse contexto que foi lançado nesta quarta-feira (19) na COP30 o RAIZ — Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation (Programa de Investimento em Agricultura Resiliente e Restauração de Terras, na tradução em português) — um “mutirão” global para acelerar investimentos em agricultura resiliente e na recuperação de terras.

O encontro de lançamento foi moderado por Kaveh Zahedi, diretor do Escritório de Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente da FAO. Na abertura do evento, ele explicou que o RAIZ busca acelerar investimentos em restauração e agricultura resiliente, conectando prioridades nacionais com soluções financiáveis e fluxos de capital. Segundo ele, o lançamento marca um legado importante da COP 30.

O ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil (MAPA), Carlos Fávaro, destacou que o RAIZ se inspira na experiência brasileira. Ele relembrou a transformação do Brasil nas últimas cinco décadas — de importador de alimentos a potência agrícola e de energia renovável — impulsionada por decisões estratégicas e pela criação da EMBRAPA, referência global em pesquisa e inovação para a agricultura tropical sustentável. Fávaro citou ainda o Caminho Verde Brasil, lançado em 2023, que já restaurou 3 milhões de hectares e contribuiu para a safra recorde de 2025.

Morgan Gillespy, diretora-executiva da Food and Land Use Coalition (FOLU), enfatizou que o RAIZ oferece um ganho simultâneo em quatro frentes: clima, biodiversidade, segurança alimentar e combate à desertificação. Segundo ela, restaurar apenas 10% das terras degradadas poderia gerar 44 milhões de toneladas adicionais de alimentos por ano, alimentando 154 milhões de pessoas. O principal desafio, contudo, é financeiro: falta um investimento anual de US$ 105 bilhões — lacuna que só poderá ser superada com mecanismos de redução de riscos para investidores privados. Gillespy explicou que o RAIZ atuará em quatro frentes: mapeamento de áreas degradadas, identificação de soluções investíveis, desenho de mecanismos financeiros e fortalecimento da cooperação internacional.

Na primeira mesa ministerial, Mary Creagh, ministra para a Natureza do Reino Unido, afirmou que os solos britânicos estão sob forte pressão e exigem novos modelos que recompensem agricultores por práticas que geram benefícios públicos. O país ampliará de 800 milhões de libras em 2023 para 2 bilhões em 2028 os pagamentos por práticas regenerativas, como plantio de árvores e controle de enchentes. Ela destacou a convergência entre essas iniciativas e o RAIZ, que vincula incentivos a benefícios ecológicos mensuráveis.

O ministro do Clima e Meio Ambiente da Noruega, Andreas Bjelland Eriksen, citou o Tropical Forest Forever Facility, lançado na COP 30, como exemplo de mudança na direção do financiamento em larga escala. Ele ressaltou que a agricultura precisa oferecer oportunidades de investimento confiáveis para viabilizar a restauração. Sistemas de rastreabilidade de gado, segundo ele, são uma dessas soluções, ao aumentar a transparência e recompensar práticas sustentáveis.

Simon Watts, ministro da Mudança Climática da Nova Zelândia, destacou os 20 anos do Resilient Pastures Programme, que recuperou áreas vulneráveis com apoio nacional e local. Ele lembrou que soluções baseadas na natureza são um dos cinco pilares da estratégia climática neozelandesa e que 7 mil hectares já foram restaurados.

Osama Faqeeha, vice-ministro do Meio Ambiente da Arábia Saudita e assessor da Presidência da UNCCD na COP 16, afirmou que o RAIZ está alinhado às prioridades estabelecidas em Riad, onde agricultura e restauração de terras foram centrais. Ele apresentou a Parceria Global para Resiliência à Seca, que já reuniu 64 países e mobilizou mais de US$ 2,2 bilhões. Para ele, o setor privado deve financiar a restauração porque 85% das empresas dependem diretamente do capital natural.

Representando a Austrália, Nick Blong ressaltou os avanços da agricultura inteligente para o clima, que combina energias renováveis, programas de carbono e pesquisa. Apesar de eventos climáticos extremos, o país produz muito mais alimentos do que consome.

O vice-ministro japonês Osamu Kubota afirmou que o RAIZ é uma contribuição importante para a agenda global de restauração. Ele destacou a longa cooperação Japão-Brasil por meio da JICA e mencionou um novo acordo para apoiar estudos e projetos-piloto com uso de tecnologias japonesas e condicionadores de solo.

Em um debate sobre financiamento, moderado por Gillespy, Maria Netto, diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS), apresentou o Eco Invest, mecanismo brasileiro que alinha recursos internacionais às prioridades nacionais, canalizando-os por bancos domésticos — o que só foi possível, disse ela, porque o Caminho Verde definiu critérios e indicadores claros.

Achala Abeysinghe, do Fundo Verde para o Clima (GCF), destacou que a percepção de risco ainda limita o financiamento da restauração. O GCF, explicou, oferece recursos concessionais e um fundo técnico de US$ 1,2 bilhão que pode apoiar parcerias como o RAIZ.

Jennie Dodson, do Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), afirmou que empresas buscam investir em paisagens resilientes para proteger suas cadeias de suprimentos. Ela citou a Agenda de Ação de COP 28, que mobilizou US$ 9 bilhões em compromissos corporativos, e o Landscape Accelerator Brazil (LAB), capaz de incentivar investimentos em uma área do tamanho da França e gerar US$ 28 bilhões anuais.

Sandra Milach, cientista-chefe do CGIAR, ressaltou que fluxos financeiros já existentes no sistema alimentar poderiam ser mais bem direcionados para a restauração. Ela lembrou que a Embrapa já recuperou mais de 34 milhões de hectares desde os anos 1990, mostrando o papel central da ciência.

Na mesa da Presidência da COP, Andrea Meza Murillo, vice-secretária executiva da UNCCD, afirmou que processos multilaterais podem orientar mercados e apoiar políticas nacionais. Ela destacou o foco de Riad em inovação, ciência e parcerias, e apontou que o RAIZ poderá usar o UNCCD Data Dashboard.

Tristan Tyrrell, da Secretaria da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), lembrou que a restauração é fundamental para o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal, especialmente as metas 2 e 15, que dialogam diretamente com o RAIZ.

Encerrando, Roberto Rodrigues, enviado especial da COP 30 para Agricultura, destacou que o solo é a base da vida humana e que financiar a restauração deve ser tratado com a mesma prioridade. Ele afirmou que a agricultura historicamente recebeu pouca atenção nas COPs, e que o Brasil está corrigindo esse desequilíbrio ao colocar a agricultura e o solo no centro por meio do RAIZ.