COP30: FAST e CCAC realizam encontro para debater soluções para ampliar financiamento climático
Na linha de frente dos impactos da mudança do clima, agricultores, povos indígenas e comunidades locais também são atores centrais na redução de emissões e no cumprimento das metas do Acordo de Paris. No entanto, esses grupos enfrentam enormes desafios para acessar o financiamento climático necessário à redução de superpoluentes agrícolas e à restauração de terras degradadas.
Na Semana da Alimentação e Agricultura da COP 30, um evento ministerial de alto nível reuniu a Parceria FAST - Food and Agriculture for Sustainable Transformation (Alimentação e Agricultura para a Transformação Sustentável), da FAO, e a Climate and Clean Air Coalition (CCAC) para discutir como ampliar a qualidade, a quantidade e o acesso a fluxos de financiamento climático. A mensagem central: recursos bem direcionados podem transformar a vida de quem alimenta uma população mundial cada vez maior, tornando os sistemas produtivos mais resilientes e liberando o potencial do solo para combater o clima.
Abrindo o encontro, Kaveh Zahedi, diretor do Departamento de Mudanças Climáticas, Biodiversidade e Meio Ambiente da FAO, afirmou que os sistemas agroalimentares são parte fundamental da ação climática, mas exigem soluções práticas, escaláveis e financiamento adequado. Ele destacou que o FAST ajuda países a acessar ativos financeiros e celebrou a união de esforços com a CCAC para ampliar iniciativas como o novo carro-chefe global 2026–2028, Farmers’ Initiative for Resilient and Sustainable Transformations (FIRST), e a Declaração de Belém sobre Fertilizantes. Zahedi também citou iniciativas emergentes, como a Harmoniya Climate Initiative for Farmers, e o recém-lançado RAIZ, que ambos os parceiros ajudarão a impulsionar, mantendo agricultores no centro do debate.
Em seu discurso principal, Mary Creagh, ministra da Natureza do Reino Unido e co-presidente da CCAC, destacou o investimento britânico em pesquisa e soluções baseadas na ciência para tornar a produção de alimentos mais sustentável e produtiva. Ela ressaltou o anúncio conjunto de Reino Unido e Brasil sobre a Declaração de Fertilizantes, voltada a aumentar a segurança alimentar e reduzir desperdícios. E deixou um alerta: “alimentar o mundo não pode custar a Terra”.
Anne Roth, do Ministério da Agricultura, Alimentação e Identidade Regional da Alemanha, reafirmou o apoio alemão à Parceria FAST, destacando um novo projeto para integrar agricultura e alimentação nas NDCs e nos Planos Nacionais de Adaptação. Roth também elogiou o trabalho da CCAC na redução de emissões agrícolas com a iniciativa FIRST e classificou o RAIZ como um potencial “divisor de águas” para acelerar ações climáticas nos sistemas agroalimentares.
Representando o Egito, Sara Hassan, do Ministério das Relações Exteriores, lembrou que a FAST, lançada na COP 27, está “evoluindo de iniciativa para parceria viva e impactante”. Para ela, a parceria está se tornando um pilar da ação climática ao consolidar agricultura e alimentação na agenda global. Hassan pediu ações para fechar a lacuna de financiamento e escalar soluções práticas, incluindo apoiar projetos financiáveis, fortalecer pequenos produtores, aprimorar estruturas institucionais e manter investimentos em pesquisa agrícola.
Elchin Guliyev, do Ministério das Relações Exteriores do Azerbaijão, reforçou a necessidade de respostas coletivas que gerem benefícios reais para comunidades. Ele afirmou que a Iniciativa Harmoniya complementa o trabalho do FAST e da CCAC, e citou esforços nacionais em agricultura inteligente para o clima, tecnologias de economia de água e recuperação de terras degradadas. “Precisamos empoderar agricultores e construir sistemas capazes de alimentar o mundo de forma sustentável”, disse.
Bruno Brasil, diretor de Produção Sustentável e Irrigação do Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil, celebrou a ampliação da agenda agrícola e alimentar, refletida no surgimento de iniciativas como Harmoniya, RAIZ e a Declaração de Fertilizantes. Ele apresentou a Global Carbon Harvest Coalition, que reunirá dados sobre sequestro de carbono no solo, e destacou o “poder do mutirão” para reverter a degradação e impulsionar a produtividade.
Martial Bernoux, da FAO, observou o trabalho conjunto do FAST com o Comitê Permanente de Financiamento da UNFCCC para ampliar o acesso a financiamentos de melhor qualidade. Ele alertou para a crescente distância entre o volume de financiamento climático e a fração destinada aos sistemas agroalimentares, conforme apontado em relatório recém-lançado pela FAO.
Martina Otto, chefe da Secretaria da CCAC no Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), ressaltou a urgência em combater superpoluentes — como metano, carbono negro e hidrofluorocarbonos — para obter ganhos climáticos rápidos e significativos. Otto chamou agricultores de “agentes da mudança” e destacou que as soluções já existem e trazem resultados concretos. Ela explicou que a iniciativa FIRST transformará agricultores em protagonistas no enfrentamento desses poluentes e apoiará políticas nacionais, enquanto o painel CCAC-TEAP oferecerá conhecimento técnico para ampliar a mitigação de poluentes de vida curta.
Após as falas iniciais, o evento recebeu intervenções de parceiros e países. Durante essas participações, Togo e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF) anunciaram adesão à Parceria FAST.
Entre as contribuições de Nova Zelândia, Senegal, República Dominicana, Japão, Togo, Vietnã, Nigéria, Camboja, Gâmbia, Austrália, Canadá, Banco Mundial, World Rural Forum, CGIAR, NDC Partnership, CAF, Environmental Defense Fund (EDF) e Brasil, destacaram-se temas como:
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ampliar cooperação multilateral, adaptação e resiliência;
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investir em pesquisa, tecnologia e cooperação internacional;
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melhorar a quantidade e a qualidade do financiamento climático, reduzindo riscos;
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diversificar fontes de financiamento de forma inclusiva;
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empoderar mulheres, jovens e pequenos produtores, com foco em transições justas;
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adotar abordagens centradas no agricultor;
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combater o desmatamento e ampliar a restauração;
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promover trocas práticas para reduzir metano e melhorar a pecuária sustentável;
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fortalecer a cooperação entre ministérios;
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produzir e compartilhar dados para embasar políticas e monitoramento;
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alinhar ações climáticas com princípios de justiça climática;
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manter agricultura e alimentação no centro das COPs;
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melhorar o uso eficiente e preciso de fertilizantes;
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destravar parcerias público-privadas para beneficiar agricultores familiares;
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ampliar o acesso a financiamento para implementação das NDCs;
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apoiar agricultores na adoção de práticas sustentáveis que aumentem resiliência e renda;
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diversificar a produção de alimentos, protegendo a biodiversidade e o sequestro de carbono.
