Mozambique

Uma Agricultura Melhor através da Partilha de Conhecimento

Como as Escolas na Machamba do Agricultor Estão a Transformar Vidas em Manica

©FAO/María Legaristi Royo

08/12/2025

No coração rural de Catandica, onde os vales de Manica encerram tanto potencial como vulnerabilidade, a agricultura é mais do que um meio de subsistência; é uma tábua de salvação. Durante anos, a fertilidade esgotada dos solos, a irregularidade das chuvas e as frágeis ligações ao mercado mantiveram muitos pequenos produtores à distância de uma má campanha da crise. Hoje, esses mesmos campos estão a transformar-se em salas de aprendizagem — e as comunidades em redes de apoio — através de uma ideia simples e poderosa: aprender, testar e crescer em conjunto.

Esta abordagem está no centro do Programa Integrado de Desenvolvimento Agrícola (ProDAI), liderado pelo Governo de Moçambique e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), com financiamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional de Itália (MAECI), através da Agência Italiana de Cooperação para o Desenvolvimento (AICS). As Escolas na Machamba do Agricultor (EMA) do ProDAI transformam parcelas agrícolas em espaços práticos de aprendizagem, onde vizinhos comparam técnicas, tomam decisões colectivas e co-investem em sementes e ferramentas através de um sistema inovador de vales electrónicos. O resultado não é uma dádiva, mas um impulso: conhecimento, insumos e confiança a circular entre grupos de agricultores que gerem o seu próprio progresso.

Numa parcela de um hectare em Catandica, o grupo Ivu Ndinambo reúne-se semanalmente sob a orientação firme da sua líder eleita, a viúva Idalina Vasco Saina, de 57 anos. Trinta membros — dezassete mulheres e treze homens — organizam-se em rotação de trabalho, produzem mudas num viveiro comunitário e decidem em conjunto quando transplantar, fertilizar e colher. “Estou a criar os meus netos sozinha”, afirma Idalina. “Consigo cuidar dos meus netos sem pedir ajuda.” Com sementes, fertilizantes e acompanhamento regular de facilitadores, o Ivu Ndinambo está a diversificar progressivamente as suas culturas — cebola, tomate, couve e árvores de fruto agora, com mais por vir à medida que a produção se estabiliza. Mas não é apenas o que cultivam que importa — é o que fazem com isso. Ao vender o excedente de hortícolas e ao melhorar a dieta do agregado familiar, Idalina transforma o seu esforço em rendimento, nutrição e num futuro mais seguro para os seus netos.

A poucos quilómetros dali, o grupoKufunda Nekuguta — “aprender a cultivar” em Shona — pensa como empreendedor tanto quanto como agricultor. Liderados pelo determinado Zacarias Sadawa, a sua parcela de 1.5 hectares produz hortícolas ao lado de citrinos e abacateiros, com especial destaque para a couve, cuja procura é elevada: mais de 2 000 cabeças por campanha. Contudo, os números revelam também um desafio: couves vendidas localmente a 10 meticais podem atingir 40 meticais em Chimoio, após revenda. A resposta de Zacarias é estratégica. “Se nos registarmos como associação, podemos negociar melhor e aceder a mercados formais”, explica. O grupo está igualmente a explorar a secagem e o processamento para prolongar a conservação e reduzir perdas. O apoio técnico do ProDAI é fundamental; a mudança de mentalidade — para o planeamento, poder de negociação e valorização da produção — é transformadora.

Às terças-feiras, trinta agricultores reúnem-se na EMA Kushingapara realizar ensaios de solo. Talhões experimentais comparam práticas tradicionais com opções melhoradas — desde biofertilizantes orgânicos a diferentes técnicas de gestão do solo. “Antes, tínhamos dificuldades com a água”, refere um membro. “A FAO disponibilizou-nos uma motobomba. Agora podemos irrigar regularmente — e até produzir durante a época seca.” Os facilitadores de campo orientam cada sessão, mas as decisões são partilhadas: os membros observam o estado das plantas, avaliam os resultados do controlo de pragas e analisam conjuntamente os resultados da colheita. O princípio é simples e, ao mesmo tempo, transformador: a melhor solução prevalece, e todos a levam para casa. “Não se trata de quem tem mais terra”, acrescenta um agricultor. “Trata-se de quem aprende — e partilha — mais.”

Esta base colectiva é acompanhada por uma forte determinação individual. Aos quarenta anos, Filipe Nherai sustenta uma família alargada de oito pessoas numa realidade em que chuvas imprevisíveis e o aumento dos custos dos insumos podem comprometer uma campanha de um dia para o outro. Entre os primeiros a adoptar o vale electrónico do ProDAI, escolheu uma combinação de culturas de elevada procura — couve, cebola e hortícolas de folha — e recebeu formação em compostagem, gestão de pragas e rotação de culturas. De pé entre fileiras de couves prontas para a colheita, faz as contas com orgulho contido: mais de 5 000 cabeças, a 15 a 18 meticais cada, poderão gerar até 82 000 meticais. Propinas escolares, medicamentos, uma pequena expansão da sua actividade avícola, e ainda margem para reinvestir na próxima campanha — subitamente, há opções. “Antes, preocupava-me todos os dias”, diz. “Agora, sinto que posso respirar.”

Para Fernando Catique, de 38 anos, o progresso traduz-se em passos pequenos e consistentes. Na sua parcela de meio hectare, prioriza culturas de ciclo curto — tomate e couve — para retorno rápido e menor risco. “Cada venda rende 500 a 600 meticais”, explica. “Não é muito, mas é regular. Mantém as crianças na escola.” Na EMA Kurima Kwakanaka, Fernando vê a agricultura como um caminho, não como solução temporária. “Quando estabilizar, vou plantar árvores de fruto — algo para o longo prazo.”

Com 29 anos, o recém-chegado Nossabio João Sosinho juntou-se à Kushinga com experiência limitada e grandes ambições. Com 20 gramas de semente melhorada de couve e um kit de irrigação, transformou uma parcela de 40 por 30 metros num uniforme campo verde — cerca de 4 000 cabeças próximas da maturidade. Se as condições de mercado se mantiverem, espera gerar entre 50 000 e 60 000 meticais, reinvestindo parte na machamba e destinando outra parte ao sustento da família. A mudança é também visível em casa. “Agora comemos melhor”, sorri. “Couve com feijão, couve com carne. Não é só vender — é viver melhor.” Na mesma parcela modesta, Nossabio colhe hoje mais do que nunca, demonstrando como o conhecimento e ferramentas simples podem transformar pequenas explorações em meios de subsistência sustentáveis.

O investimento a longo prazo exige paciência. Enquanto secretária da EMA Dzidzay Bassa, Gloria Chule Roia, de 36 anos e mãe de cinco filhos, ajuda a gerir uma parcela de 1.75 hectares de café — desenvolvida com a Vumba Coffee, uma iniciativa privada, a CLUSA, e actualmente apoiada pela FAO. O café demora mais tempo a produzir, mas tem maior valor; a produção plena é esperada dentro de cerca de três anos. Entretanto, Gloria aplica os ensinamentos sobre gestão do solo e consociação de culturas, utiliza o sistema de vale electrónico sem contrair dívida e complementa o rendimento familiar com tomate e culturas de subsistência. “Este é o nosso investimento a longo prazo”, afirma. “Estamos a construir algo sustentável.”

Em todas estas histórias, o padrão é claro. A abordagem das EMA do ProDAI proporciona aos agricultores três elementos essenciais: conhecimento em que confiam porque o testaram; insumos acessíveis porque são co-financiados; e organização que transforma vulnerabilidade em poder de negociação. Na prática, isso significa motobombas que mantêm as culturas durante períodos secos; parcelas de ensaio que tornam visíveis melhores práticas de gestão do solo e controlo de pragas; associações que negociam transporte e preços e acedem a mercados mais vantajosos; e cozinhas familiares com refeições mais regulares e nutritivas.

Os ganhos são económicos, ambientais e sociais — e, sobretudo, apropriados localmente. O grupo de Idalina planeia novas culturas à medida que a confiança aumenta. Zacarias delineia os passos de uma parcela comunitária para o mercado formal. As experiências semanais da Kushinga mantêm viva a curiosidade. Filipe transforma uma campanha numa estratégia familiar. Fernando troca rapidez por estabilidade. Nossabio demonstra que as primeiras colheitas podem alimentar rendimento e dignidade. E Glória cultiva, com paciência e propósito, a próxima colheita.

Num distrito onde a agricultura é frequentemente o único meio de subsistência viável, estas mudanças significam mais do que maiores rendimentos. Significam estabilidade após os choques. Significam pais que podem planear para além do amanhã. Significam vizinhos que se elevam mutuamente enquanto aprendem. Como afirma Gloria: “Esta terra, estas sementes — este é o nosso futuro. E agora sabemos como o fazer crescer.”