Mozambique

Para além da resposta de emergência

Resposta de emergência da FAO aos choques climáticos em Moçambique

FAO/María Legaristi Royo

04/06/2026

Moçambique continua altamente vulnerável aos crescentes impactos dos choques relacionados com o clima. Nos últimos anos, as comunidades agrícolas em todo o país enfrentaram repetidos eventos meteorológicos extremos, incluindo ciclones como Chido e Jude, cheias generalizadas nas regiões sul e centro, e uma seca severa induzida pelo fenómeno El Niño que afectou importantes zonas de produção. Com as previsões a indicarem o potencial surgimento de um novo episódio de El Niño nas próximas campanhas, mantêm-se elevadas as preocupações quanto à probabilidade de futuras perturbações relacionadas com o clima afectarem a produção agrícola e os meios de subsistência rurais. Estes choques recorrentes continuam a comprometer os meios de subsistência, danificar os sistemas de produção agrícola e agravar a insegurança alimentar de milhões de agregados familiares rurais.

Em situações de emergência humanitária, a assistência atempada é essencial para ajudar as famílias afectadas a satisfazer as necessidades imediatas e restaurar a produção agrícola. No entanto, à medida que os choques climáticos se tornam mais frequentes e intensos, cada resposta de emergência deve também contribuir para a recuperação e resiliência a longo prazo. Na Food and Agriculture Organization of the United Nations, as intervenções agrícolas de emergência são concebidas não apenas para apoiar a recuperação imediata, mas também para reforçar a capacidade das comunidades para enfrentar melhor futuros choques. Ao promover práticas agrícolas sustentáveis e inteligentes face ao clima, apoiar o acesso a insumos adaptados às condições locais e reforçar os conhecimentos técnicos dos agricultores, a FAO está a ajudar comunidades vulneráveis a recuperar enquanto constrói meios de subsistência mais resilientes.

Responder às cheias enquanto se reforça a preparação para a seca através da acção antecipatória

A FAO reconhece que uma acção atempada antes de uma crise atingir o seu pico pode reduzir significativamente o impacto dos choques climáticos nos meios de subsistência agrícolas. Através de abordagens de acção antecipatória baseadas em evidências, a FAO apoia o Governo de Moçambique no reforço dos mecanismos de preparação e resposta precoce.

Utilizando dados e análises do Sistema Global de Informação e Alerta Precoce (GIEWS) da FAO, a Organização trabalha com autoridades nacionais e locais para melhorar os sistemas de alerta precoce, a planificação da preparação e as acções antecipatórias previamente acordadas. Ao agir com base em previsões credíveis, incluindo os potenciais impactos de secas induzidas pelo fenómeno El Niño, as comunidades podem adoptar medidas preventivas antes da ocorrência dos choques previstos.

Em Moçambique, as acções antecipatórias da FAO incluíram a distribuição de sementes tolerantes à seca e de ciclo curto, apoio a sistemas de captação de água e irrigação de pequena escala, promoção da agricultura de conservação e de práticas de agricultura inteligente face ao clima, bem como formação sobre gestão sustentável da água, produção de composto orgânico e biopesticidas. Estas medidas ajudam os agregados familiares vulneráveis a proteger os seus activos produtivos, reduzir perdas e reforçar a resiliência antes da ocorrência de desastres.

Dignidade e escolha através da assistência baseada nos mercados

Quando ocorrem desastres, o apoio agrícola rápido é fundamental para garantir que os agricultores possam aceder aos insumos a tempo da campanha agrícola. Igualmente importante é assegurar que a assistência seja prestada de forma a reforçar os sistemas locais e apoiar a autonomia e a capacidade de decisão dos agricultores.

Durante a resposta à campanha agrícola 2026, a FAO apoiou agregados familiares vulneráveis nas províncias de Gaza e Sofala através de uma campanha de distribuição de e-vouchers destinada a restaurar a produção agrícola após as cheias e outros choques relacionados com o clima. A intervenção abrangeu os distritos de Chibuto, Guijá, Mabalane, Mapai e Massangena, na província de Gaza, e Buzi, Chibabava, Machanga e Nhamatanda, na província de Sofala.

Foi registado um total de 17 365 agregados familiares, face a uma meta prevista de 17 118 agregados familiares. No final do processo de distribuição, 15 599 agregados familiares tinham resgatado os seus e-vouchers, representando 89,8 por cento dos agregados registados e 91,1 por cento da meta planeada. Em Gaza, 9 032 agregados familiares utilizaram os vouchers, alcançando 99,1 por cento da meta provincial. Em Sofala, 6 567 agregados familiares utilizaram os vouchers, atingindo 82,1 por cento da meta provincial.

Através do sistema de e-voucher, os agricultores receberam um voucher intransmissível no valor de 3 200 meticais, validado através de um sistema de verificação biométrica. Esta abordagem permitiu aos agricultores seleccionar os insumos agrícolas mais adequados às suas necessidades de produção, ao mesmo tempo que reforçou os mercados locais. Agrodealers locais forneceram sementes certificadas, enxadas, regadores e outros materiais essenciais através de feiras locais de insumos agrícolas organizadas próximo das comunidades afectadas.

Os dados da distribuição destacam igualmente o papel central das mulheres na produção agrícola e na recuperação dos agregados familiares. As mulheres representaram 11 348 dos 15 599 agregados familiares que utilizaram os vouchers, ou seja, quase 73 por cento de todos os resgates. O registo através do sistema biométrico de e-voucher reforçou a participação das mulheres ao permitir-lhes aceder à assistência de forma directa, segura e independente, aumentando o seu controlo sobre os recursos e o seu papel na tomada de decisões no agregado familiar e no âmbito do programa. Ao colocar as decisões de compra directamente nas mãos dos beneficiários, o sistema reforçou igualmente a autonomia das mulheres ao longo de todo o processo de assistência.

Semear resiliência através da agricultura inteligente face ao clima

Para além da assistência imediata, a FAO continua a trabalhar lado a lado com as comunidades para reforçar práticas agrícolas sustentáveis e reduzir a dependência de apoios externos recorrentes. Através de abordagens participativas de formação em grupo, bem como de actividades individuais de acompanhamento e reforço de capacidades, os agricultores testam e adoptam técnicas de agricultura inteligente face ao clima adaptadas às condições locais e aos padrões meteorológicos cada vez mais imprevisíveis. A FAO trabalha também em estreita colaboração com os Serviços Distritais de Actividades Económicas (SDAE), reforçando as capacidades locais de extensão rural através de abordagens de Formação de Formadores que permitem aos extensionistas continuar a apoiar as comunidades para além da duração dos projectos. Paralelamente, técnicos de campo da FAO e extensionistas dos SDAE prestam formação técnica directa aos agricultores ao nível comunitário, promovendo a adopção de práticas agrícolas resilientes e sustentáveis.

Estas práticas incluem métodos melhorados de plantio, rotação de culturas, conservação do solo e da água e abordagens de gestão integrada de pragas. A formação incide também na auto-suficiência a longo prazo através do desenvolvimento de competências práticas em multiplicação de sementes e armazenamento pós-colheita, ajudando os agregados familiares a preservar insumos e a preparar futuras campanhas agrícolas. As comunidades aprendem igualmente a produzir biopesticidas naturais e biol, um fertilizante líquido orgânico, utilizando materiais disponíveis localmente para melhorar a saúde do solo, reduzir os custos de produção e promover práticas agrícolas ambientalmente sustentáveis. Muitas destas abordagens baseiam-se em conhecimentos locais existentes e em boas práticas tradicionais, ao mesmo tempo que promovem o uso sustentável dos recursos disponíveis localmente. Como resultado, as comunidades conseguem continuar a aplicar e adaptar estas técnicas muito para além da duração das intervenções dos projectos.

Um apelo à parceria e ao investimento sustentado

Com milhões de pessoas em Moçambique a continuarem a enfrentar insegurança alimentar aguda, o investimento sustentado em meios de subsistência agrícolas resilientes continua a ser essencial. As comunidades agrícolas moçambicanas continuam a demonstrar uma forte capacidade de recuperação e adaptação quando apoiadas com ferramentas, conhecimentos e recursos adequados.

A agricultura oferece um dos maiores retornos sobre os investimentos humanitários e de resiliência: a FAO estima que cada dólar investido no apoio agrícola pode gerar até três dólares em valor alimentar local, ao mesmo tempo que ajuda os agregados familiares a proteger os seus meios de subsistência e a reduzir futuras necessidades de assistência. No entanto, apesar de até 80 por cento das pessoas em situação de insegurança alimentar aguda viverem em zonas rurais, apenas uma pequena parcela do financiamento humanitário é dirigida à produção alimentar e à recuperação agrícola. Reforçar o investimento em sistemas agroalimentares resilientes continua, por isso, a ser fundamental não apenas para a recuperação imediata, mas também para reduzir a vulnerabilidade futura aos choques relacionados com o clima.

A intervenção de e-voucher de 2026 ilustra como a assistência agrícola atempada pode apoiar simultaneamente a resposta de emergência e a recuperação a longo prazo. Com base nestes esforços, a FAO, em apoio ao Governo de Moçambique, está a implementar o Plano de Recuperação das Cheias em Moçambique 2026–2031, que visa restaurar a produção agrícola, reconstruir meios de subsistência e reforçar a resiliência das comunidades afectadas pelas cheias. O plano procura mobilizar 107,66 milhões de dólares para apoiar 1,8 milhões de pessoas entre 2026 e 2031 através de intervenções integradas de recuperação e reforço da resiliência. No âmbito mais amplo do Plano de Emergência e Resiliência da FAO para Moçambique, estes esforços visam expandir o apoio aos agregados familiares agrícolas vulneráveis em todo o país, ao mesmo tempo que reforçam a capacidade das comunidades para enfrentar melhor futuros choques relacionados com o clima.

A concretização destes objectivos exige uma colaboração contínua entre instituições governamentais, doadores, parceiros técnicos e comunidades locais. A intervenção de e-voucher de 2026 foi implementada através dos esforços conjuntos do Governo de Moçambique e da FAO, com apoio financeiro da Áustria, Bélgica, Noruega e União Europeia. O investimento em intervenções agrícolas atempadas, de elevada qualidade e ambientalmente sustentáveis continua a ser fundamental não apenas para a recuperação imediata, mas também para reforçar a segurança alimentar, a resiliência e os meios de subsistência rurais a longo prazo em Moçambique.

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