Mozambique

Agricultura em tempo de seca

Com sementes, conhecimento e acção colectiva, famílias como a de Evarito e Fazminha estão a cultivar alimentos, confiança e resiliência face à crise climática.

Evaristo e Fazminha na sua horta caseira em Maringué, Província de Sofala.

©FAO/María Legaristi Royo

14/08/2025

O sol incide com força sobre o solo gretado de Maringué. Aqui, no centro de Moçambique, a terra ainda carrega as cicatrizes de uma estação severa. A seca desencadeada pelo fenómeno El Niño devastou colheitas e meios de subsistência de milhares de famílias agricultoras. Mas onde muitos vêem apenas poeira e perda, outros começam a lançar sementes de recuperação.

Evaristo Chigo e Fazminha Biassone conhecem bem essa realidade. Pais de seis filhos — o mais velho com 23 anos e o mais novo com apenas 8 — passaram mais de um ano a ver o seu trabalho árduo secar juntamente com as chuvas que nunca chegaram. “No ano passado, não tivemos nada. A terra não nos deu nada. As pragas destruíram o pouco que restava”, recorda Evaristo, com voz serena mas determinada.

A família cultiva agora um hectare de milho, outro de mapira e feijão, e iniciou uma horta de 0,25 hectares com cebola, repolho, tomate e couve. Este nível de diversificação de culturas é novo para eles. “Antes cultivávamos apenas o básico: milho, mapira e feijão. Agora já podemos até pensar em vender algo no mercado. Já não dependemos apenas do milagre da chuva”, acrescenta Fazminha, com uma mistura discreta de orgulho e prudência.

A sua história está longe de ser única. Faz parte de um esforço mais amplo para restaurar a dignidade, a auto-suficiência e a resiliência nas comunidades mais afectadas pela emergência climática. Financiado pelo Fundo Central de Resposta a Emergências das Nações Unidas (CERF) e liderado pelo Governo de Moçambique, com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o projecto “Melhoria da segurança alimentar para agregados familiares afectados pela seca induzida pelo El Niño” está a alcançar mais de 225 000 pessoas nas províncias de Manica e Sofala.

Um dos pilares do projecto é a acção colectiva. Em Guerani Di Pangana Nzero, a Escola na Machamba do Camponês (FFS) local foi reactivada após anos de inactividade. Embora tenha sido originalmente criada no âmbito de outra iniciativa da FAO, o grupo — composto por 40 membros, maioritariamente mulheres — continuou a reunir-se por iniciativa própria, partilhando conhecimentos e apoiando-se mutuamente. “Quando a FAO chegou com insumos e formação, já estávamos organizados. Precisávamos apenas de um impulso”, afirma uma das integrantes.

Através de um sistema de vales electrónicos, as famílias recebem pacotes agrícolas adaptados a cada época. Na campanha principal, Evaristo e Fazminha utilizaram o seu vale electrónico para adquirir 5 kg de sementes de milho e 5 kg de mapira, 3 kg de feijão e ferramentas agrícolas. Na época fresca, adquiriram sementes hortícolas: feijão, cebola, tomate, repolho e couve. “Agora cultivamos com um plano. Sabemos quando plantar, o que plantar e como plantar. E se algo correr mal, sabemos a quem recorrer. Antes, trabalhávamos às cegas”, explica Evaristo.

Mas a abordagem não é apenas técnica. O grupo da FFS toma decisões de forma democrática: vota, debate e prioriza a inclusão. Todas as quintas-feiras, das 6h às 10h, o grupo trabalha em conjunto na parcela da FFS. Depois disso, cada membro regressa à sua própria machamba. “O que aprendemos aqui, levamos para casa”, observa Fazminha.

Uma das inovações mais importantes introduzidas pelo projecto é a irrigação gota-a-gota, que permite às culturas sobreviver mesmo durante períodos de estiagem. Dez agregados familiares em Maringué já foram seleccionados para a instalação, e técnicos serão formados nas próximas semanas para iniciar o processo.

As sementes fornecidas são de ciclo curto e resistentes à seca, o que significa que podem garantir colheitas mesmo quando a precipitação é limitada ou irregular. Em Moçambique — onde 70 por cento da população depende da agricultura de subsistência — isso pode significar a diferença entre ter alimentos ou passar fome.

A família Chigo-Biassone reabilitou também um antigo sistema de água partilhado com um familiar, construiu um pequeno celeiro com capacidade para armazenar 15 sacos de 50 kg de milho cada e cria actualmente 40 patos e 50 galinhas para consumo familiar. “Pouco a pouco, estamos a fechar o ciclo”, afirma Fazminha. “Plantamos, colhemos, armazenamos, comemos e depois voltamos a plantar.”

O que este projecto desencadeia vai muito além da melhoria das práticas agrícolas. Constrói redes de conhecimento, recursos e confiança mútua, transformando comunidades vulneráveis em protagonistas da sua própria recuperação. Promove a conservação do solo, o uso de insumos naturais, a multiplicação local de sementes e métodos agrícolas sustentáveis — não apenas como resposta à emergência, mas como caminho para um futuro mais resiliente.

Porque o que está em jogo não é apenas a colheita desta época — é a capacidade de resistir à próxima seca, ao próximo surto de pragas, à próxima crise.

Nas palavras de Evaristo:

“O projecto não nos deu caridade. Deu-nos ferramentas para recomeçar.”