Mozambique

Dos Campos aos Mercados

Transformar Pequenos Produtores em Agroempresários em Moçambique

©FAO/Ricardo Franco

13/11/2025

Os pequenos produtores constituem a base dos sistemas agroalimentares de Moçambique. Cultivam a maior parte das culturas que alimentam as famílias e abastecem os mercados locais. Contudo, muitos continuam a enfrentar constrangimentos generalizados, incluindo acesso limitado a práticas agrícolas melhoradas, serviços financeiros e mercados fiáveis. Estes desafios mantêm a produção em níveis reduzidos e os rendimentos instáveis, dificultando a transição dos agregados familiares rurais para além de meios de subsistência de subsistência.

Para ajudar a colmatar esta lacuna, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em parceria com o Governo de Moçambique e com financiamento da União Europeia através do programa PROMOVE Agribiz, desenvolveu um modelo faseado que apoia os agricultores a reforçar progressivamente as suas capacidades técnicas, organizacionais e empresariais. A iniciativa, implementada nas províncias de Nampula e Zambézia, acompanha os produtores desde as fases iniciais de aprendizagem de práticas melhoradas até à formalização de associações com actuação em mercados locais e nacionais.

O percurso inicia-se ao nível comunitário, através das Escolas na Machamba do Agricultor (EMA), onde grupos de produtores aprendem em conjunto, com base na experimentação prática nas suas próprias parcelas. Este método não se limita à introdução de novas técnicas; promove a observação, a resolução de problemas, o planeamento e a tomada de decisões colectivas. Com o tempo, estes grupos reforçam a coesão social e a liderança local, ajudando os agricultores a organizarem-se e a apoiarem-se mutuamente.

À medida que a confiança e a capacidade produtiva aumentam, os agricultores transitam para as Escolas de Negócios Agrícolas (FBS). Aqui, o enfoque desloca-se da produção para a gestão empresarial e a experiência em actividades comerciais. Os produtores começam a analisar custos, calcular lucros, compreender oportunidades de mercado e gerir as suas explorações como pequenas empresas viáveis, aprofundando simultaneamente o conhecimento sobre dinâmicas de mercado, principais fornecedores e potenciais compradores. É frequentemente neste momento que a ideia de “agricultura como negócio” se torna realidade.

Para transformar ideias em acção, o programa disponibiliza micro-subvenções competitivas que variam entre 1 500 e 15 000 USD, co-financiadas em pelo menos 20 por cento pelos próprios grupos. Com este investimento inicial, as associações conseguem adquirir equipamento, melhorar o armazenamento e a embalagem, bem como iniciar actividades de processamento e comercialização. O elemento de co-financiamento garante apropriação, responsabilidade e sustentabilidade a longo prazo.

Uma vez consolidadas estas bases, os agricultores são apoiados na formalização das suas estruturas organizativas e no estabelecimento legal das associações. Estas associações podem melhorar os volumes de produção e os padrões de qualidade e, consequentemente, reforçar o seu poder de negociação, obtendo melhores preços nas cadeias de abastecimento locais, regionais e nacionais. Muitas começaram a diversificar as suas actividades, acrescentando valor através do processamento, embalagem e armazenamento, melhorando a sua posição no mercado durante períodos de menor disponibilidade de produtos.

Os resultados são visíveis no terreno. Mais de 10 700 agricultores participaram nas Escolas na Machamba do Agricultor, quase metade dos quais mulheres. Mais de 4 700 produtores progrediram nas Escolas de Negócios Agrícolas, e foram estabelecidas 38 associações agroempresariais operacionais, com as mulheres a representarem 58 por cento dos seus membros. Esta mudança na participação económica está a contribuir para o reforço da igualdade de género nas economias rurais. A segunda fase actualmente em curso prevê o estabelecimento de mais 57 novas associações até ao final de Novembro de 2025.

Nas províncias de Nampula e Zambézia, os agricultores estão agora a liderar as suas próprias pequenas empresas. Na Zambézia, a Associação Wilipiha Wiwanana Wa Sicua, composta por 25 membros, utilizou a sua subvenção para instalar um sistema de irrigação, construir um abrigo para a motobomba e expandir a produção hortícola ao longo de todo o ano. Na primeira campanha, geraram vendas no valor de 1 871 USD e esperam alcançar até 3 500 USD no ciclo seguinte, à medida que diversificam as culturas e ampliam o alcance de mercado.

Em Nampula, a Associação Força da Mudança transformou a sua iniciativa avícola, passando de três ciclos iniciais de produção para oito, atingindo um nível em que o grupo já financia a continuidade das suas actividades. As vendas mais do que duplicaram, e os membros relatam um renovado sentimento de estabilidade e propósito partilhado na comunidade.

Estes exemplos reflectem uma transformação mais ampla: quando os agricultores têm acesso a conhecimento, organização e capital, podem construir negócios viáveis que reforçam as economias rurais, melhoram a segurança alimentar e ampliam oportunidades para mulheres e jovens. O modelo demonstra igualmente forte potencial de replicação a nível nacional e regional, particularmente se integrado nos sistemas de extensão agrária e reforçado por parcerias com compradores do sector privado e instituições financeiras.

A jornada do campo ao mercado não se resume ao aumento da produção; trata-se de ampliar dignidade, escolha e oportunidade. Ao investir nos agricultores como empreendedores, o PROMOVE Agribiz está a contribuir para uma economia rural mais resiliente e inclusiva em Moçambique — onde os pequenos produtores não são apenas produtores, mas actores centrais na construção do futuro dos sistemas agroalimentares e no reforço das cadeias de abastecimento que garantem maior disponibilidade de alimentos aos consumidores.