Da Tradição à Técnica
A Revolução Agrícola da Linda
©FAO/María Legaristi Royo
Em Bunga Sede, uma comunidade tranquila no distrito de Guro, o ritmo da vida segue as estações. A paisagem é marcada por imponentes embondeiros, trilhos estreitos e casas tradicionais redondas construídas em barro e colmo — um cenário onde as famílias cultivam a terra há gerações. Entre elas está Linda Castigo Phei, nascida em 1984, mãe de seis filhos, cuja vida tem sido moldada pela terra. O seu filho mais velho tem 22 anos; o mais novo, apenas seis. Todos cresceram a ver os pais trabalhar o solo do nascer ao pôr-do-sol.
Durante grande parte da sua vida, Linda cultivou exactamente como a sua mãe e a sua avó lhe ensinaram. Plantava de memória, sem formação formal, e utilizava apenas as ferramentas que podia adquirir. Os choques climáticos — desde longos períodos de estiagem até chuvas imprevisíveis — transformam cada campanha agrícola numa aposta.
“Costumávamos plantar onde houvesse espaço”, recorda. “Às vezes resultava, outras vezes não. Nunca sabíamos o que esperar.”
As mudanças começaram com a implementação de um projecto agrícola de emergência, lançado em resposta à seca induzida pelo El Niño, liderado pelo Governo de Moçambique, com apoio técnico da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e financiamento do Fundo Central de Resposta a Emergências (CERF). O projecto apoia mais de 15 700 famílias agricultoras nos distritos vulneráveis às alterações climáticas de Tambara, Guro e Macossa, na província de Manica — zonas repetidamente afectadas por secas, cheias e degradação dos solos.
O programa foi concebido não apenas para ajudar as famílias a recuperar das perdas, mas também para reforçar a sua resiliência através de melhores práticas, insumos adequados e acesso à água. Para Linda, com recursos limitados e responsabilidades crescentes em casa, o momento não poderia ter sido mais crucial.
No início de 2025, Linda recebeu sementes melhoradas, ferramentas agrícolas básicas e assistência técnica regular de extensionistas formados no âmbito do projecto. Foram intervenções simples, mas desencadearam uma mudança profunda. Em vez de plantar de forma aleatória, passou a organizar as suas parcelas em blocos específicos — feijão numa área, tomate noutra, cebola mais adiante. Esta disposição permitiu-lhe acompanhar o crescimento das culturas, fazer rotação e aplicar fertilizantes de forma mais eficiente.
Aprendeu também os princípios de selecção, multiplicação e conservação de sementes, incluindo a prática de cobertura morta para reter a humidade do solo, reduzir a erosão e controlar as ervas daninhas. Estas práticas tornaram-se essenciais em distritos como Guro, onde a precipitação é escassa e imprevisível.
“Antes, a terra secava rapidamente e perdíamos muito”, explica Linda. “Agora o solo mantém-se húmido por mais tempo. As culturas crescem mais depressa e com mais saúde.”
Linda gere actualmente duas parcelas. A primeira é uma horta de 0,25 hectares perto da sua casa, onde cultiva tomate, cebola, feijão e hortícolas de folha durante a época fresca. A segunda é um campo de 0,5 hectares, situado a mais de duas horas a pé, onde cultiva milho, mapira, feijão-nhemba, abóbora e outras culturas alimentares durante a época chuvosa. A distância torna a gestão de ambas exigente; durante o período de colheita, dorme frequentemente no campo mais distante para proteger as culturas de animais e furtos.
A carga de trabalho é pesada. Linda e o marido trabalham de segunda a sábado, começando às 5 horas da manhã e prolongando-se até ao pôr-do-sol. Contratar mão-de-obra é demasiado dispendioso, pelo que toda a família contribui. Quatro dos seus filhos ajudam aos fins-de-semana e nas férias escolares, aprendendo técnicas de plantio, preparação do solo, rega e noções básicas de gestão, para o futuro.
Todos os anos, poupam cerca de 9 000 meticais (aproximadamente 140 dólares norte-americanos) para alugar seis bois para a preparação da terra. Para eles, este investimento é essencial: sem os bois, preparar vários hectares manualmente seria praticamente impossível.
Graças às sementes melhoradas e à orientação técnica proporcionadas pelo projecto, a última campanha agrícola de Linda foi a mais bem-sucedida até agora. Colheu mais, vendeu mais e obteve maiores rendimentos do que em qualquer outro ano anterior.
O rendimento permitiu-lhe adquirir material escolar para os filhos, reparar partes da casa e reservar pequenas poupanças — algo que não imaginava possível um ano antes.
“Quando vi o que ganhámos, não consegui acreditar”, afirma. “Pela primeira vez, o nosso trabalho está a compensar.”
Linda tem acesso a um poço e utiliza uma motobomba para irrigação. No entanto, o custo do combustível continua a ser um desafio significativo, limitando a extensão da área que pode regar. Reconhecendo esta barreira, o projecto seleccionou Linda e várias famílias vizinhas para receber um sistema de irrigação gota-a-gota alimentado por bomba solar, instalado numa área comum de fácil acesso.
O novo sistema reduz as despesas com combustível, amplia a área irrigada e permite-lhe produzir hortícolas de forma contínua — mesmo durante a estação seca. Isto não só aumentará a sua produtividade, como reforçará a sua capacidade de resposta a choques climáticos.
Hoje, Linda fala com confiança sobre calendários de plantio, fertilidade do solo, controlo de pragas e oportunidades de mercado — temas que nunca imaginou dominar.
“Já não plantamos apenas por plantar”, afirma. “Plantamos com estratégia.”
De pé na extremidade do seu campo, ajustando a sua capulana colorida enquanto o vento levanta poeira no horizonte, Linda reflecte sobre o percurso feito. A transformação foi gradual, mas constante. Começou com sementes e formação, mas enraizou-se através da sua determinação, disciplina e do desejo de proporcionar aos seus filhos um futuro mais seguro.