Machambas Familiares
Alimentos Frescos e Variados para uma MELHOR NUTRIÇÃO
©FAO/Ricardo Franco
O vermelho intenso do seu hijab destaca-se entre os lenços, camisas e capulanas[1] coloridas das mulheres que circulam pelo viveiro. De pé, com postura firme, Argentina Mazeze dirige-se ao grupo reunido à sua volta. “Hoje, vamos lavrar a terra até que fique macia — bem fofa — e depois começaremos com a demarcação.”
Um viveiro de hortícolas deve estar localizado próximo de uma fonte de água para facilitar a irrigação, dispor de solo fértil que favoreça a germinação das sementes e situar-se perto das machambas dos agricultores para acelerar o transplante. Em Calipo, no distrito de Mogovolas, província de Nampula, o viveiro comunitário reúne todas estas condições — estando inclusive rodeado de árvores que o protegem do vento.
Calipo é um dos 53 locais onde a FAO, através do programa PROMOVE Agribiz financiado pela União Europeia e em apoio aos esforços do Governo, estabeleceu viveiros de hortícolas. O viveiro de Calipo é gerido por 30 agricultores, maioritariamente mulheres. Dividem tarefas, partilham responsabilidades e aprendem em conjunto. “A FAO ensinou-nos como construir e manter um viveiro e forneceu-nos sementes, ferramentas e formação”, explica Argentina. “Antes, tinha dificuldades em comprar alimentos frescos no mercado e nem sequer sabia quão importantes eram os vegetais.”
Com o bebé amarrado às costas, Argentina aponta para as ferramentas no chão. As suas instruções são claras: “Precisamos de uma fita métrica para marcar as linhas, estacas para posicionamento e corda para manter tudo alinhado.”
Quando a terra está fofa, as mulheres trocam as enxadas por ancinhos para nivelar os canteiros. “Depois, espalhamos estrume de galinha bem curtido, incorporamo-lo no solo e regamos a área.” Em seguida, chega o momento de semear e cuidar das plântulas.
“O TRANSPLANTE é um processo muito sensível.”
Transplante com Cecília João. © FAO/Ricardo Franco
Após três a quatro semanas no viveiro, chega o momento do transplante. Cecília João segura cuidadosamente uma plântula de pimento para evitar danificar as raízes. Na sua bacia, transporta também cebola, couve-repolho e couve. “O transplante deve ser feito sempre ao final da tarde”, explica. “Assim, as plantas podem descansar durante a noite e adaptar-se ao novo ambiente.” Trata-se de um processo delicado; se for feito incorrectamente, as plantas não se desenvolvem adequadamente.
Na sua machamba, Cecília adopta práticas de policultura, alternando entre hortícolas de folha, frutos e culturas de raiz — uma técnica aprendida com a FAO. Aprendeu igualmente a semear em linhas, respeitar o espaçamento e preparar e utilizar adubo orgânico. A sua horta familiar, um talhão ensolarado no quintal junto à fonte comunitária, transformou a alimentação da sua família. “A minha horta é pequena, mas colho muitos tipos de culturas. Já não preciso de caminhar longas distâncias nem gastar dinheiro no mercado apenas para alimentar a minha família.”
“Na GESTÃO da machamba, aprendi a aplicar práticas sustentáveis.”

Gestão da machamba com Orlanda Mindiate. © FAO/Ricardo Franco
Quando Orlanda Mindiate chega à sua horta, a primeira coisa que faz é observar as plantas. Para além de mondar, segue diferentes rotinas de rega consoante a cultura: a alface necessita de água duas vezes por dia, enquanto a cebola apenas de dois em dois dias. “A utilização de cobertura morta ajuda a manter o solo húmido e reduz a frequência da rega”, explica — tal como os técnicos da FAO lhe ensinaram. O tomate e o pepino precisam de tutoramento para evitar que o fruto toque no solo e apodreça. “Por isso, apoiamos as plantas com estacas”, acrescenta. Para culturas como a beterraba e a cebola, amontoa a terra para favorecer o desenvolvimento dos bolbos.
Aprendeu igualmente a produzir biopesticida (biol) e verifica regularmente os canteiros para detectar pragas ou doenças, levantando as folhas e inspeccionando as plantas. Sempre que necessário, aplica biol, mas a rotação de culturas e a policultura ajudam a prevenir surtos de pragas. “Se agora cultivo couve, na próxima campanha vou plantar algo diferente.”
Graças a estas técnicas, Orlanda adopta actualmente práticas sustentáveis na sua horta. “Desde que comecei a minha horta familiar, a minha qualidade de vida melhorou muito. Há mais alimentos e mais dinheiro para outras necessidades.” Antes, admite, “nem sequer sabia que era possível cultivar hortícolas em casa e ter sucesso.”
“A COLHEITA de hortícolas ajuda-me a diversificar a alimentação da minha família.”

Colheita com Felita Manteiga. © FAO/Ricardo Franco
Felita Manteiga caminha entre os canteiros com uma faca e uma bacia limpa, cortando folhas de couve e colhendo alface e cebola. A sua horta transformou a vida da sua família. “Já não sofremos como antes”, afirma. “Agora todos estão saudáveis.”
Com orgulho, explica que muitas mulheres do bairro vão admirar a sua horta. “Fazem perguntas e eu partilho tudo o que aprendi com a FAO. Sinto-me muito feliz porque elas também estão a aprender.”
O próximo objectivo de Felita é aprofundar o seu poço para poder produzir mais, mesmo durante a época seca. Planeia igualmente cultivar mais culturas resistentes à seca, como o enhewe [amaranto].
Juntas, Argentina, Cecília, Orlanda e Felita demonstram como o conhecimento, o acesso a recursos e o apoio comunitário podem transformar não apenas vidas individuais, mas bairros inteiros. Através das suas hortas familiares, alimentam as suas famílias, inspiram outras pessoas e lideram o caminho rumo a dietas mais saudáveis e meios de subsistência mais resilientes. A cada semente lançada à terra, a cada colheita partilhada e a cada vizinha ensinada, estão a cultivar um futuro de Melhor Nutrição para todos.
[1] A capulana é um tecido de algodão colorido e estampado, amplamente utilizado pelas mulheres em Moçambique. É normalmente usada enrolada à volta da cintura como saia, para transportar bebés às costas ou como lenço na cabeça, entre outras utilizações.
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