A Amazônia ocupa um lugar decisivo no presente e no futuro da América Latina e do Caribe, bem como do planeta. Sua importância não se limita à sua extraordinária riqueza biológica, hídrica e climática. A Amazônia é também um território habitado, cuidado e transformado cotidianamente por milhões de pessoas: Povos Indígenas, comunidades afrodescendentes, agricultores familiares, mulheres, jovens rurais e comunidades tradicionais que, ao longo do tempo, construíram modos de vida estreitamente vinculados à floresta, aos rios, à biodiversidade e aos sistemas agroalimentares locais.
Este documento parte de uma constatação fundamental: na Amazônia, produzir e conservar não devem ser entendidos como objetivos opostos. As evidências mostram que uma parte importante das soluções para enfrentar o desmatamento, a degradação ambiental, a insegurança alimentar e a pobreza rural já existe nos próprios territórios amazônicos, nos sistemas produtivos baseados no manejo sustentável da floresta, na agricultura familiar, camponesa e indígena, nos conhecimentos tradicionais e na valorização da sociobiodiversidade.
Produzir e conservar é um convite para construir uma nova trajetória de desenvolvimento amazônico. Uma trajetória que reconheça o valor da floresta em pé, que combine conhecimento científico e saberes tradicionais, e transforme a riqueza biológica e cultural da Amazônia em bem-estar, segurança alimentar, resiliência climática e prosperidade compartilhada.
Rumo a uma agenda amazônica compartilhada: sustentabilidade, inclusão e cooperação regional
A Amazônia em números
Um território do tamanho de um continente e uma população que supera a da maior megacidade do planeta.
Acesso limitado a centros urbanos e serviços
A conectividade territorial constitui uma das principais expressões de exclusão na região.
73% da população amazônica não consegue acessar uma grande cidade em um raio de viagem de três horas.
Apenas 36% têm acesso a cidades intermediárias ou grandes.
Lacunas estruturais persistentes
A taxa média de pobreza nos municípios amazônicos é de 48,8%, frente a 42,0% nos municípios fora do bioma.
Essa diferença é ainda mais acentuada em países como Peru (13 pontos), Brasil (17 pontos) e Colômbia (22 pontos).
Incidência de pobreza por município
Segurança alimentar amazônica
Uso de 270 alimentos na dieta cotidiana: mais de 200 espécies de ervas, 85 espécies arbóreas e diversos insetos comestíveis, fundamentais para a nutrição e a identidade cultural.
A relação entre pobreza e insegurança alimentar não é uniforme: em alguns territórios amazônicos, as médias são até melhores do que em áreas não amazônicas.
A segurança alimentar é sazonal e variável: durante a estação de águas altas, as capturas de peixes caem 73%, quadruplicando o risco de passar um dia sem comer em comunidades ribeirinhas.
Quem habita, produz e preserva a Amazônia?
Povos Indígenas e comunidades afrodescendentes
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Agricultura familiar, camponesa e indígena
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Desafios comuns: acesso a serviços
O acesso à assistência técnica e aos serviços financeiros é fundamental para o desenvolvimento agropecuário. Esses instrumentos permitem aos produtores melhorar suas práticas produtivas, incorporar tecnologias adequadas, diversificar cultivos, gerir riscos climáticos e aumentar a eficiência no uso dos recursos.
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Ao contrário de outras regiões, a Amazônia possui uma trajetória consolidada de práticas agrícolas sustentáveis e adaptadas ao contexto local, desenvolvidas historicamente por Povos Indígenas, comunidades rurais e agricultores familiares.
Diferentemente de contextos que exigem uma transformação radical de seus sistemas produtivos, a Amazônia já dispõe de modelos validados social, cultural e ecologicamente. As barreiras mais críticas e persistentes são o acesso limitado à assistência técnica adequada e ao financiamento apropriado. Sem esse apoio, os agricultores enfrentam dificuldades para acessar as ferramentas necessárias para melhorar sua produtividade, agregar valor aos seus produtos e manter sistemas que já demonstraram ser sustentáveis.
Superar essas limitações é fundamental para potencializar o enorme capital social, ecológico e produtivo da agricultura amazônica como base para um modelo de desenvolvimento inclusivo, resiliente e com identidade territorial.
Investir em serviços financeiros e não financeiros adequados para os agricultores familiares da Amazônia não apenas melhora a sua segurança alimentar e reduz a dependência de alimentos importados, mas também representa um passo decisivo rumo a sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos.
Os produtos da sociobiodiversidade da Amazônia e seu potencial transformador
A Amazônia abriga uma riqueza biológica e cultural única, que se traduz em uma diversidade de bens e serviços gerados a partir da interação entre os ecossistemas e as comunidades locais. Nesse contexto, os produtos da sociobiodiversidade — derivados de recursos naturais manejados por Povos Indígenas, comunidades rurais e agricultores familiares — constituem uma via concreta para promover o desenvolvimento sustentável da região. Esses produtos não apenas refletem conhecimentos ancestrais e práticas adaptadas ao ambiente, mas também integram cadeias produtivas que contribuem para a geração de renda, a segurança alimentar e a conservação ambiental.

O cacau apresenta uma distribuição territorial dispersa. Os 20 municípios com maior número de estabelecimentos estão distribuídos entre Brasil, Colômbia, Peru e Equador e concentram 23,35% do total registrado nos países analisados. Entre eles, San Andrés de Tumaco (Colômbia) lidera com 2,58% das unidades, seguido por Mazamari-Pangoa (Peru), com 1,93%.
Em termos econômicos, o cacau é o segundo produto agropecuário de maior valor no estado do Pará, gerando uma renda de aproximadamente 1,3 bilhão de reais em 2019 (cerca de USD 23 milhões). No entanto, a estrutura de valor dessa cadeia revela profundas assimetrias territoriais. Apenas 0,7% da produção rural é processada localmente, enquanto 99% é absorvida pela indústria nacional, que captura margens de lucro significativas.
O cacau também desempenha um papel de destaque nas estratégias de restauração ambiental e transição produtiva. No sul da Amazônia brasileira, o projeto Cacau Floresta, liderado pela The Nature Conservancy, promove a recuperação de pastagens degradadas por meio de sistemas agroflorestais baseados no cultivo de cacau associado a espécies florestais de alto valor. Essa estratégia busca articular a conservação ambiental com a melhoria dos meios de vida rurais.
Na América Latina e no Caribe, mais de 350 mil famílias dedicam-se à produção de cacau, beneficiando diretamente pelo menos 1,7 milhão de pessoas. A região concentra cerca de 15% das exportações mundiais de cacau em grão e apresentou um crescimento sustentado de 11% na última década, em contraste com a desaceleração observada em outras regiões produtoras, como África e Ásia.
Distribuição do cultivo de cacau em grão por município
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A distribuição da produção do buriti, também conhecido como moriche ou aguaje, apresenta uma forte concentração territorial no Brasil, onde se localizam 19 dos 20 municípios com maior número de estabelecimentos extrativistas, que representam 50,5% do total registrado. Em termos de volume, os 20 principais municípios produtores concentram mais de 60% do total coletado — cerca de 2.983 toneladas anuais —, com destaque para Abaetetuba, Oriximiná e Viseu como os principais centros de produção.
O valor do moriche reside em sua versatilidade. Seu fruto é altamente nutritivo, rico em antioxidantes, vitamina A e ácidos graxos essenciais, e é utilizado na produção de sucos, sorvetes, doces, licores e corantes naturais. As folhas são empregadas em coberturas e artesanato; os caules e as fibras, na construção e na produção de cordas; e as sementes permitem a obtenção de óleos para uso cosmético e medicinal. As áreas úmidas dominadas por essa espécie armazenam carbono em camadas profundas de matéria orgânica, constituindo sumidouros naturais de grande importância diante das mudanças climáticas. Além disso, os resíduos do processamento oferecem oportunidades para a produção de bioenergia com baixas emissões de poluentes.
Estudos de mercado e de estrutura de custos revelam um paradoxo frequente em produtos extrativistas: embora a trabalho de coleta represente uma elevada proporção do custo total (chegando a 88,5%), a renda líquida obtida pelos extrativistas permanece baixa. Essa situação evidencia a necessidade urgente de estratégias que fortaleçam o primeiro elo da cadeia, seja por meio do acesso a mercados diferenciados, da agregação de valor local ou de mecanismos de pagamento por serviços ecossistêmicos.
Potencializar essa cadeia implica avançar em mecanismos de governança territorial, ampliar o conhecimento técnico e ecológico sobre seu uso e assegurar que os benefícios gerados permaneçam, em maior medida, nas mãos daqueles que cuidaram desse recurso ao longo de gerações.
Distribuição de cultivos de buriti por município

O cupuaçu consolidou-se como um dos produtos não madeireiros de crescente relevância na bioeconomia amazônica. O Brasil concentra a maioria dos estabelecimentos registrados. Os 20 municípios com maior número de unidades produtivas concentram 41,3% do total de estabelecimentos de cupuaçu nos países analisados, sendo Wenceslau Guimarães (Bahia) o município com maior número de unidades (3,17%). Apenas um município fora do Brasil, localizado na Colômbia, figura entre os 20 primeiros, o que evidencia a elevada concentração territorial desse cultivo na Amazônia brasileira.
Em termos de volume, os 20 municípios com maiores níveis de produção — distribuídos entre Brasil e Colômbia — concentram 61,4% da produção total, o que equivale a mais de 15.000 toneladas anuais.
O cupuaçu apresenta múltiplas possibilidades de agregação de valor. Além da comercialização de sua polpa — utilizada em alimentos e bebidas —, suas sementes permitem produzir manteiga vegetal e um substituto do chocolate conhecido como "cupulate". Da mesma forma, os resíduos do processamento contêm compostos bioativos, proteínas e lipídios com aplicações promissoras nas indústrias de alimentos funcionais, nutracêutica e farmacêutica, bem como no desenvolvimento de bioprodutos de alto valor agregado e na geração de energia renovável.
A valorização integral do cupuaçu constitui uma via estratégica para avançar rumo a um modelo de economia circular na Amazônia, articulando inclusão produtiva, inovação tecnológica e sustentabilidade ambiental.
Distribuição dos cultivos de cupuaçu por município

A castanha-do-brasil, também conhecida como castanha-da-amazônia ou castanha amazônica, representa um dos produtos silvestres mais emblemáticos da Amazônia. Sua produção provém exclusivamente de árvores nativas que crescem nas florestas tropicais úmidas, e sua comercialização depende da conservação ativa de vastas áreas de floresta primária no Brasil, no Estado Plurinacional da Bolívia e no Peru, estimadas em mais de 32 milhões de hectares.
Em termos de organização territorial, o Brasil concentra a maioria dos estabelecimentos extrativistas registrados. Os 20 municípios com maior número dessas unidades representam 55% do total analisado. Em relação à produção, os 20 principais municípios respondem, em conjunto, por mais de 66% do volume total registrado, equivalente a 17.860 toneladas anuais.
Em nível global, a cadeia da castanha-da-amazônia movimenta cerca de USD 450 milhões por ano. No Brasil, cerca de 60.000 famílias extrativistas participam dessa atividade, muitas delas organizadas em cooperativas ou pequenas empresas comunitárias. Ainda assim, o Estado Plurinacional da Bolívia lidera atualmente as exportações globais, apesar de contar com uma menor área potencial de produção.
Para além do comércio, sua coleta contribui para a manutenção da floresta em pé, e seu aproveitamento sustentável tem permitido a consolidação de polos de desenvolvimento em áreas historicamente isoladas, como ocorre no norte amazônico do Estado Plurinacional da Bolívia.
A castanha-do-brasil representa uma oportunidade estratégica para alinhar objetivos de conservação, desenvolvimento local e inserção econômica internacional. No entanto, é necessário superar gargalos estruturais no processamento, garantir condições dignas de trabalho e fortalecer os mecanismos de governança comunitária sobre os recursos florestais.
Distribuição do cultivo de castanha-da-amazônia, por municípios