Os sistemas de patrimônio agrícola não existiriam hoje sem a contribuição dos agricultores familiares

Entrevista com Moujahed Achouri, Diretor da divisão de Terras e Águas da FAO

1. O que são os Sistemas Engenhosos do Patrimônio Agrícola Mundial (GIAHS)?

Os Sistemas Engenhosos do Patrimônio Agrícola Mundial (sigla em inglês: GIAHS - Globally Important Agricultural Heritage Systems) são construídos com base no conhecimento e na experiência locais, que refletem a evolução da humanidade, a diversidade do seu conhecimento e sua profunda relação com a natureza.

Esses sistemas resultaram não somente em paisagens excepcionais, manutenção e adaptação da biodiversidade agrícola, conhecimento indígena e ecossistemas resilientes, mas, sobretudo, na geração sustentável de vários bens e serviços, segurança alimentar e de meios de subsistência para milhões de membros das comunidades locais e povos indígenas, muito além das suas fronteiras.

2. O AIAF destaca os pontos centrais que definem por que a agricultura familiar é importante. Eles incluem a ligação crucial com a segurança alimentar, a preservação dos gêneros alimentícios tradicionais, a proteção da agrobiodiversidade mundial e o uso sustentável dos recursos naturais, bem como o impacto positivo nas economias locais. Com isso em mente, quais são as ligações e pontos em comum entre os Sistemas Engenhosos do Patrimônio Agrícola Mundial e a agricultura familiar?

Há muito mais do que pontos em comum ou ligações entre os sistemas de patrimônio agrícola e a agricultura familiar. Esses sistemas são sinônimo dos agricultores familiares e pequenos agricultores. Sua importante contribuição para a segurança alimentar local e mundial, soberania alimentar, sistemas alimentares indígenas, cultura e dieta nutritivas, conservação e uso sustentável da biodiversidade e dos recursos genéticos fundamentais para os alimentos e a agricultura correspondem diretamente aos pontos mencionados acima. Os sistemas de patrimônio agrícola não existiriam hoje sem a contribuição dos agricultores familiares.

Assim como a Iniciativa GIAHS busca destacar e promover as ligações entre cultura e agricultura, o AIAF busca definir a agricultura familiar como mais do que um modo de produção e defendê-la como um modo de vida. Famílias, agricultura e cultura estão intimamente conectadas. Proteger e promover estas ligações para as futuras gerações é uma grande prioridade tanto para a GIAHS quanto para o AIAF. 

3. Como protetores da biodiversidade, quais são os desafios enfrentados atualmente pelos agricultores familiares em todo o mundo?

Dentre os desafios enfrentados pelos agricultores estão uma maior vulnerabilidade, decorrente de uma diversidade cada vez menor da cesta básica, desalojamento das comunidades indígenas e redução das variedades tradicionais, bem como o pouco envolvimento da comunidade na tomada de decisões. Também vale mencionar que muitas políticas estão promovendo cultivos básicos e ignorando cultivos amplamente esquecidos.

Além disso, as iniciativas de conservação voltadas para a biodiversidade não incluem os “sistemas de conhecimento tradicionais e culturais” de agricultores familiares e comunidades locais e indígenas.

4. Como a GIAHS beneficia os agricultores familiares?

A fim de maximizar os resultados, a iniciativa GIAHS intervém nos âmbitos global, nacional e local. Os agricultores familiares e os governos nacionais são os principais agentes no processo, com a FAO atuando exclusivamente como facilitadora.

A parceria com a GIAHS funciona dando ênfase ao delicado equilíbrio entre conservação, adaptação e desenvolvimento socioeconômico. 

Para preservar a tradição, as comunidades de agricultura familiar também precisam se adaptar. A GIAHS apoia políticas públicas de proteção, inclusive novas políticas de adaptação que levam em consideração os desafios enfrentados pelos agricultores decorrentes das mudanças climáticas. Soluções individualizadas devem ser adotadas para que as técnicas possam ser adaptadas a diversas condições. 

A capacitação das comunidades agrícolas locais, bem como de instituições locais e nacionais, também visa encontrar soluções para melhorar a renda dos agricultores, aumentando o valor econômico dos bens e serviços desses sistemas. Devem ser fornecidos incentivos econômicos a fim de estimular os agricultores locais a continuar mantendo e protegendo esses complexos sistemas agrícolas.

Além disso, a GIAHS promove o reconhecimento internacional dos agricultores familiares, reforçando o senso de identidade e o orgulho que estas comunidades devem ter pelo papel central que desempenham na gestão dos recursos naturais.

5. O senhor poderia descrever dois locais que definem as sinergias entre agricultura familiar e os sistemas de patrimônio?

  • Os locais de cultura de arroz e peixe na China promovem a conscientização dos agricultores sobre suas festividades, tradições e cultura ligadas à pesca e sobre como se beneficiarem dos seus sistemas de patrimônio convertendo a conservação em receitas comercializáveis, por exemplo, com mais identificação e marcas e investindo em agroturismo e ecoturismo.
  • Nos terraços de arroz de Ifugao, nas Filipinas, a GIAHS vem ajudando as comunidades indígenas e agrícolas locais a valorizar o conhecimento e as habilidades tradicionais, pondo em prática as ligações entre agricultura e cultura. A promoção de um museu da GIAHS ao ar livre na comunidade estimula o turismo e transfere os benefícios para a população local. Essas iniciativas contribuem significativamente para a conservação dos plantios tradicionais de arroz em alta altitude em Ifugao e outras biodiversidades relacionadas à floresta. 

Mais locais da GIAHS

6. Como a GIAHS vai continuar apoiando os agricultores familiares no futuro?

Agora a FAO está envolvida no processo de formalização do reconhecimento internacional da GIAHS, o que vai fortalecer mais a parceria.

Outro excelente resultado da GIAHS vem do estabelecimento dos Sistemas de Patrimônio Agrícolas Nacionais na China (NIAHS, do inglês: Nationally Important Agricultural Heritage Systems). Antes da GIAHS, os sistemas agrícolas tradicionais na China eram considerados “atrasados”, mas agora eles estão retomando sua posição de destaque e recebendo o reconhecimento que merecem. No longo prazo, o resultado ideal seria que mais países membros adotassem e gerissem os sistemas de patrimônio por si mesmos.

Finalmente, deve-se estimular e monitorar de perto as futuras gerações; o futuro desses sistemas agrícolas únicos depende delas.

Mais informações sobre a GIAHS

04/06/2014