Os agricultores familiares devem estar no centro de todos os programas de agricultura, segurança alimentar e nutrição

1. Qual é o seu papel como Embaixadora Especial do AIAF?

Meu papel como Embaixadora Especial é promover a agricultura familiar. Participo de eventos do AIAF e colaboro com o Diretor-Geral da FAO e outros embaixadores especiais do AIAF para transmitirmos mensagens concordantes e fazermos uma campanha coerente. 

2. Quais você acredita que sejam os maiores desafios enfrentados pelos agricultores familiares em todo o mundo atualmente?

Posso falar sobre os agricultores familiares da Ásia e do Pacífico. Em nossa região, estão 70% dos agricultores familiares do mundo, que estão trabalhando em terras de não mais que cinco hectares, em média de dois hectares. Nessa região, as mulheres agricultoras realizam de 50 a 90% do trabalho no campo.

Apesar das pequenas propriedades, os agricultores familiares da Ásia e do Pacífico produzem 80% do total de alimentos necessários para garantir a segurança alimentar da região. Isso se deve à maior utilização da mão-de-obra e de insumos da própria família, bem como à intensidade e à diversificação do cultivo, apesar do menor investimento de capital.

Entretanto, em nossa região também estão 63% das pessoas mais pobres e famintas do mundo, particularmente nas áreas rurais do sul e do leste asiáticos. 

A preocupação mais comum é o acesso limitado à terra ou a existência de sem-terras. Outros desafios são a falta de acesso a serviços básicos, como água, saneamento e eletricidade. O acesso a recursos como crédito, tecnologia e implementos agrícolas também é extremamente limitado. Além disso, outros fatores afetam os agricultores familiares, como falta de informação sobre os mercados e limitação das habilidades empreendedoras e do poder de barganha, deixando-os vulneráveis e menos competitivos.

Condições climáticas extremas também estão aumentando a vulnerabilidade dos agricultores. O risco de enchentes e tempestades é especialmente elevado na região.  No ano passado, o tufão de Hainan provocou grande destruição e deixou 6.190 mortos e ainda muitos desaparecidos. Os pequenos pescadores e agricultores foram os mais afetados.

O declínio contínuo da renda proveniente da agricultura e a consequente pobreza estão provocando o desaparecimento da agricultura familiar, já que muitos optam por imigrar para as áreas urbanas em busca de melhores oportunidades, especialmente os jovens. Às vezes, aqueles que querem ficar na agricultura sofrem com a ameaça de expulsão, por conta da falta de políticas claras sobre o uso da terra e a garantia de posse.

3. Como é possível superar esses desafios? O que as organizações internacionais, governos, organizações de agricultores etc. podem fazer para continuar apoiando pequenos agricultores e agricultores familiares depois de 2014? Na sua opinião, quais áreas específicas devem ser priorizadas?  

Basicamente, deveria haver mais investimento nos pequenos agricultores e agricultores familiares, já que representam a maioria dos agricultores do mundo. Assim, eles poderiam desempenhar seu papel para garantir segurança alimentar, nutrição e desenvolvimento sustentável.

Deveria haver políticas públicas e investimentos nas seguintes áreas específicas: direitos dos agricultores familiares sobre os recursos básicos de produção, como terra, água, florestas, sementes; políticas que ajudem a promover e difundir a agricultura sustentável, integrada, diversificada, resiliente e ecológica; políticas que ajudem a estabelecer agroempresas viáveis, dos próprios agricultores ou voltadas para eles, e a desenvolver um espírito de empreendedorismo e autonomia nos agricultores; políticas que atraiam jovens para a agricultura; políticas que garantam a infraestrutura necessária, como estradas para os mercados, locais para armazenar as colheitas, irrigação, crédito, seguros, informações precisas e em tempo hábil sobre as condições do tempo, seguro contra riscos; políticas que fortaleçam as mulheres agricultoras e promovam a igualdade de gênero na agricultura familiar; políticas que reconheçam as propriedades agrícolas  familiares; e políticas que institucionalizem a participação e o envolvimento significativos dos agricultores familiares nos processos decisórios relativos à agricultura. 

4.  Como Secretária-Geral da Associação de Agricultores Asiáticos (AAA), qual nível de importância você atribui às organizações de agricultores no setor? Poderia citar alguns exemplos de como a AAA apoia os pequenos agricultores e agricultores familiares na Ásia? 

Os agricultores familiares deveriam estar no centro de todos os programas de agricultura, segurança alimentar e nutrição; seu bem-estar e subsistência sustentável deveriam ser as principais prioridades. 

A principal missão da AAA é fortalecer os pequenos agricultores e agricultores familiares na Ásia, para que eles possam influenciar de forma efetiva os governos e outras instituições. Fazemos isso com nossos programas de defesa de políticas, gestão de conhecimento, desenvolvimento de empresas e governança. 

A AAA transmite informações políticas, faz análises políticas e campanhas, além de promover diálogos com as autoridades em âmbitos nacional e regional. Desenvolvemos o conhecimento e as habilidades de nossos líderes e membros com diferentes abordagens participativas e práticas, inclusive com visitas de intercâmbio entre os agricultores.

Também prestamos apoio técnico e gerencial às iniciativas de nossos membros em agricultura sustentável e agroempresas.

5. Como agente de desenvolvimento social, você passou boa parte de sua carreira trabalhando na área de desenvolvimento rural, junto a pequenos agricultores e agricultores familiares. O que você aprendeu com eles?

Aprendi muitas coisas simples, mas profundas, com os agricultores. Os agricultores familiares não deveriam ser vistos como vítimas, mas como parte da solução. Apesar das adversidades que enfrentam, continuam firmes e esperançosos. A interação constante com eles me ajuda a manter os pés no chão e a inspiração; fundamentalmente, faz de mim uma pessoa melhor.

6. O que você espera que este ano internacional alcance? E como os sucessos do ano podem continuar depois de 2014? 

Para o AIAF 2014, o objetivo principal da campanha da AAA é reforçar o compromisso e as competências dos agricultores familiares e das organizações nacionais e regionais que os representam. Queremos promover a agricultura familiar e estimular políticas e programas de apoio aos pequenos agricultores, em parceira com outros envolvidos.

Depois de 2014, esperamos que haja uma Década Internacional da Agricultura Familiar.  Afinal, precisamos alimentar 9 bilhões de pessoas até 2050 em meio a mudanças climáticas, e como os agricultores familiares alimentam o mundo e cuidam da terra, precisamos continuar cuidando dos agricultores familiares. 

17/12/2014