Programa de Cooperação Internacional Brasil-FAO

Mulheres do Algodão – Artesã quilombola de Minas Gerais preserva cultura têxtil

Conheça Eni Batista, ganhadora do “Concurso Mulheres do Algodão”, promovido pelo +Algodão em comemoração ao Dia das Mulheres Rurais

Brasília, 26 de dezembro de 2024 - Em Berilo, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Brasil, um grupo de seis mulheres quilombolas de Roça Grande se dedicam com paixão a trabalhar e levar adiante a tradição da tecelagem manual, mantida por muito tempo por suas ancestrais nessa região. Eni Batista, tecelã e artista têxtil, faz parte do grupo e conta que seu trabalho, realizado com algodão, é tudo para ela – “é minha fonte de renda, minha diversão e minha terapia”.

Em outubro de 2024, uma peça produzida por Eni fez parte do desfile de moda da São Paulo Fashion Week, a semana de moda de maior prestígio da América Latina que é realizada na cidade de São Paulo e uma das mais prestigiadas do mundo, juntamente com Nova York, Paris, Milão e Londres. A artesã compartilhou essa conquista no “Concurso Mulheres do Algodão”, promovido pelo projeto +Algodão através da App Lazos, em comemoração ao Dia Mundial do Algodão.

O objetivo do concurso foi dar visibilidade às histórias de mulheres algodoeiras que são inspiração para outras mulheres e para toda a cadeia do algodão na América Latina. Eni recebeu 515 votos como a história mais inspiradora e foi convidada a compartilhar sua experiência. “Fiz um casaco de chenille, uma peça única, ficou linda. Cada vez que a gente faz uma peça diferente, é uma emoção diferente. É um prazer fazer uma peça e, quando dá certo e a gente é aplaudido, não tem dinheiro que pague. É muito emocionante, faço por amor”, conta Eni. 

Técnica singular é passada de geração para geração

Eni Batista tem 56 anos e aprendeu com sua mãe, Maria Lídia Gomes Batista, a trabalhar com essa arte milenar. Desde os 8 anos de idade, Eni e seus irmãos ajudavam a mãe a colher e a descaroçar o algodão na comunidade quilombola de Roça Grande. Com o passar do tempo, foram aprendendo também a tecer as peças.

Hoje, Eni faz parte da Associação de Produtores e Artesãos de Roça Grande (APARG), que é integrada por trinta e sete pessoas. Na oficina, as artesãs trabalham juntas e utilizam o algodão como matéria prima para tecer as peças. Todos os produtos da APARG são feitos em tecelagem manual, desde capas de almofada, caminhos de mesa, jogos americanos passadeiras, redes, entre outros. 

A originalidade das peças é observada na técnica que identifica e diferencia o trabalho realizado nessa região - a tecelagem é feita em tear mineiro com 2 quadros de liço e os desenhos não são bordados no tecido, e sim executados durante o tecer, em alto relevo. Além disso, grande parte da coloração dos fios é produzida a partir de árvores ou plantas regionais como a casca da manga, do angico e do tingui.

As composições são desenvolvidas com desenhos geométricos e figurativos que retratam o cotidiano e a visão de mundo da comunidade. Desde o século XVIII, a região de Berilo tem sido conhecida pela singularidade de sua tecelagem. As famílias da comunidade também realizam o plantio feijão e milho, especialmente para o consumo. Mas é a renda da produção de tecidos que atende as necessidades da comunidade. 

Desafios: geração de renda e sucessão familiar

O Quilombo Roça Grande, onde mora Eni, foi certificado como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares, sendo reconhecido pelo Estado como comunidade que mantém tradições culturais e que trabalha pela valorização da memória e do reconhecimento da dívida histórica que o Estado tem com a população negra. Por isso, o artesanato têxtil ali é mais do que um produto – é parte indispensável da resistência e da preservação dos conhecimentos tradicionais.

Alcançar a geração de renda através desse trabalho, no entanto, tem sido uma dificuldade. “Estamos sem o escoamento da produção, às vezes a gente produz e não tem como vender”, conta Eni. Esse cenário afeta a sucessão familiar e a continuidade do trabalho com o artesanato. A artesã tem um casal de filhos, mas nenhum demonstra entusiasmo em seguir com a arte têxtil.

A maioria dos outros jovens da comunidade não querem continuar a trabalhar com essa arte milenar. “Na última semana nós estávamos em uma feira e não conseguimos vender quase nada. Nós voltamos com quase toda a mercadoria, aí fica até difícil de eu incentivar, porque quando eu vou falar com os jovens eles perguntam ‘e o que você foi fazer lá se você voltou com tanta peça?’”, relata Eni. Apesar das dificuldades de vender os produtos, a artesã afirma que não desiste e incentiva as novas gerações para essa tradição não acabar. 

Registro como bem cultural é esperança na comunidade

O registro da tecelagem como bem cultural do Estado é percebido pelas integrantes da APARG como a principal ação para impulsionar melhorias na qualidade de vida local e estimular os jovens a terem mais interesse pela tecelagem manual.

Além de ser uma valorização do ofício, o registro mudaria o trabalho das pessoas envolvidas na cadeia produtiva da tecelagem - facilitando o acesso a editais de incentivo cultural, a busca de apoio do município para a divulgação da arte têxtil produzida na região, a melhora da infraestrutura para realizar o trabalho no tear, a retomada do plantio do algodão na comunidade e, até mesmo, a melhoria das estradas, já que a principal forma de venda dos produtos, atualmente, é por meio das feiras de artesanato nas cidades próximas. Por isso, elas entendem que o registro da tecelagem como bem cultural favoreceria a obtenção de melhores resultados produtivos e econômicos. 

Mulheres do Algodão

O projeto +Algodão conheceu a história de Eni Batista através do Concurso Mulheres do Algodão, realizado através do Aplicativo Lazos. No total, 20 mulheres de 6 países participaram do concurso compartilhando suas experiências no aplicativo Lazos e 1.232 pessoas de 10 países votaram para escolher a história mais inspiradora. Todas as mulheres que participaram do Concurso terão suas histórias compartilhadas em uma publicação do Programa Brasil-FAO para tornar visível o papel das mulheres no setor do algodão na América Latina e Caribe.

Lazos App é uma iniciativa criada pelo +Algodão para conectar a cadeia algodoeira da ALC. O projeto +Algodão é uma iniciativa de cooperação sul-sul trilateral executada de maneira conjunta pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE) e os governos dos países parceiros. Esta iniciativa integra o Programa de Cooperação Internacional Brasil-FAO. 

 

Para acessar Lazos App: 

  • Smartphones com sistema Android, através da loja da FAO: aqui.
  • Smartphones com sistema iOS, através da loja da FAO: aqui