Países da América do Sul propõem plano de trabalho para enfrentar os impactos das mudanças climáticas no abastecimento de alimentos
Representantes de nove países, junto com a FAO, participaram do seminário da Rede SPAA para trocar experiências sobre políticas públicas que fortaleçam a resiliência dos sistemas agroalimentares.
Brasília, Brasil, 16 de março de 2026 — Nove países da América do Sul que integram a Rede de Sistemas Públicos de Abastecimento e Comercialização de Alimentos (Rede SPAA) avançaram na proposta de um plano de trabalho conjunto sub-regional para melhorar a capacidade de resposta dos países frente a fenômenos climáticos extremos, crises de abastecimento e pressões inflacionárias.
O plano está dividido em três linhas de ação: (1) o desenho de uma estratégia de reservas estratégicas de grãos básicos e o fortalecimento dos mecanismos de resposta e de gestão frente aos riscos climáticos e inflacionários; (2) a gestão de informação agropecuária e o fortalecimento dos circuitos curtos urbano-rurais; e (3) a cooperação regional e o intercâmbio de boas práticas.
Representantes governamentais da Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Venezuela participaram, na cidade de Brasília, do seminário “Desafios e soluções diante das mudanças climáticas: impactos na agricultura e nos sistemas agroalimentares do futuro”. O encontro teve como objetivo promover o diálogo, a troca de experiências e o desenho de um plano de trabalho no âmbito da Rede SPAA, voltado ao fortalecimento da cooperação regional frente aos crescentes desafios climáticos.
O encontro foi organizado com o apoio do Governo do Brasil, por meio da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) e da Agência Brasileira de Cooperação do Ministério das Relações Exteriores (ABC/MRE), e da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), como parte das ações do Programa de Cooperação Sul-Sul Brasil-FAO para fortalecer as políticas públicas de abastecimento de alimentos na região.
A Rede SPAA, composta por instituições governamentais de 19 países da região, é uma plataforma regional que, desde sua criação, impulsiona o desenvolvimento e o fortalecimento de políticas públicas destinadas a melhorar os sistemas de abastecimento e comercialização de alimentos.
O ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) do Brasil, Paulo Teixeira, lembrou que o país, por meio da CONAB, foi uma das quatro instituições fundadoras da Rede SPAA em 2014, junto com Bolívia, México e Chile. “Ao assumir novamente a presidência da rede, o Brasil reafirma seu compromisso com o fortalecimento da cooperação regional em torno das políticas de abastecimento de alimentos”, afirmou o ministro, que também destacou a importância da articulação intersetorial e da participação social para “garantir a segurança alimentar e nutricional, fortalecer o abastecimento de alimentos e promover uma alimentação saudável”.
Por sua vez, Edegar Pretto, presidente da CONAB, instituição que exerce a presidência pro tempore da Rede SPAA, enfatizou que fenômenos como secas prolongadas, inundações e outros eventos climáticos extremos já afetam diretamente a produção agrícola e as cadeias de abastecimento, colocando em risco a segurança alimentar de milhões de pessoas. Nesse contexto, destacou que fortalecer as instituições públicas de abastecimento se torna uma agenda estratégica para garantir alimentos, estabilizar preços e proteger a renda dos produtores.
O analista de projetos da ABC/MRE, João Clementino, destacou o papel da Rede SPAA como um espaço estratégico para o diálogo técnico e a construção conjunta de soluções. “A troca de conhecimentos e boas práticas entre países permite melhorar as políticas públicas, fortalecer as capacidades institucionais e promover respostas mais coordenadas frente a desafios cada vez mais complexos”, afirmou.
O representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, assinalou que as mudanças climáticas se tornaram um dos fatores que mais influenciam os sistemas agroalimentares, não apenas sob a perspectiva da produção, mas também do consumo, ao modificar as dinâmicas dos mercados e os hábitos alimentares.
Por sua vez, Patrícia Gentil, diretora do Departamento de Promoção da Alimentação Adequada e Saudável do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS) do Brasil, destacou que os desafios atuais não se limitam à produção de alimentos, mas abrangem todo o sistema alimentar, desde a produção e a distribuição até o acesso e o consumo dos alimentos, especialmente os alimentos saudáveis. A diretora também chamou a atenção para os desafios enfrentados pelas cidades da região. No Brasil, mais de 87% da população vive em áreas urbanas, onde persistem importantes desigualdades no acesso e na disponibilidade de alimentos seguros e saudáveis.
Plano de trabalho para a América do Sul
Entre as ações previstas durante o seminário está a realização de diagnósticos sobre os programas existentes de formação de estoques e gestão de reservas estratégicas, bem como o intercâmbio de assistência técnica entre os membros da Rede SPAA para fortalecer mecanismos que contribuam para estabilizar os preços dos alimentos e evitar desabastecimentos.
O plano, com foco na América do Sul, também propõe fortalecer a gestão de informações agropecuárias e os circuitos curtos de comercialização entre zonas rurais e urbanas, por meio da ampliação de plataformas digitais que integrem dados sobre plantio, colheita, previsões e monitoramento climático, preços e disponibilidade de alimentos. Essas ferramentas permitirão melhorar o monitoramento da oferta e da demanda de alimentos e facilitar a tomada de decisão por parte das instituições públicas.
Da mesma forma, prevê-se reforçar programas públicos de abastecimento e comercialização de alimentos, como feiras de produtores, mercados tradicionais, compras públicas e outras iniciativas que promovem a participação da agricultura familiar e facilitam o acesso da população urbana a alimentos frescos e saudáveis.
Entre as ações de cooperação regional e intercâmbio de boas práticas estão a organização de seminários e oficinas entre os países membros, a criação de um banco regional de experiências exitosas e o estabelecimento de mecanismos conjuntos de monitoramento e avaliação que permitam medir avanços em resiliência climática e segurança alimentar.
Visita de campo
A delegação internacional também realizou visitas de campo para conhecer a implementação de políticas públicas de comercialização de alimentos. Para isso, visitaram duas propriedades de agricultores familiares pertencentes à Cooperativa de Agricultura Familiar do Assentamento Chapadinha (COOPERAF), composta por quase 70 famílias.
Esses agricultores participam de diversos programas institucionais brasileiros de compras públicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), além de comercializarem seus produtos em centrais de abastecimento e feiras locais.
